Queda das bolsas internacionais: aconteceu o que tinha que acontecer criar PDF versão para impressão
25-Jan-2008
Bolsa do JapãoO dia 21 de Janeiro de 2008 converteu-se noutra Segunda feira negra das bolsas internacionais.
A queda é espectacular: o valor em bolsa das 35 maiores empresas espanholas caiu 101 mil milhões de euros em 14 dias, quase 20% da sua cotização. Nas bolsas asiáticas perdeu-se ontem entre 5 e 7% dos valores, no México 5%... e hoje virá Nova Iorque, enquanto seguramente continuarão a cair todas as outras.
Artigo de Juan Torres López , disponível em juantorreslopez.com

É normal que toda gente se interrogue sobre o que está a ocorrer e sobre o que pode previsivelmente ocorrer nos próximos dias e semanas.

A resposta é elementar: o que se está a passar é, simplesmente, a consequência lógica do estado de coisas em que se encontram as relações financeiras nos nossos dias. Eu próprio o previ num artigo anterior publicado em 10 de Setembro passado (Dez ideias para entender a crise financeira).

Como é sabido, nos últimos anos os mercados financeiros e a actividade dos bancos mudaram de natureza.

Antes, os bancos dedicavam-se preferencialmente a recolher os recursos de quem tinha poupanças para pô-los à disposição dos investidores ou dos consumidores mantendo um volume mínimo de reservas para fazer frente aos pagamentos. Dessa forma, alimentavam constantemente a economia produtiva com o financiamento mais ou menos necessário. Hoje em dia, eles dedicam-se preferencialmente a comprar "papel", isto é, a comprar e vender activos financeiros (títulos de qualquer tipo, contratos de qualquer natureza, seguros, resseguros...) em vez de se dedicarem sobretudo a fazer com que a economia real funcione mais e melhor. E além disso, as reservas de garantia reduziram-se ao mínimo e até desapareceram em muitos casos.

Actuam assim porque é muito rentável. Graças às novas tecnologias que permitem realizar operações em cada segundo, em qualquer lugar do mundo e com custo praticamente nulo, e graças à liberdade total com que se conta para levar o dinheiro de um sítio para outro do mundo, podem realizar-se operações constantemente e assim obter grandes rendimentos das mudanças de preços que continuamente se produzem.

Isto é tão rentável que cada vez se faz mais, de modo que cada vez há mais recursos dedicados a estas operações especulativas. As empresas ganham mais nestas operações que na economia real, e os próprios dirigentes governam-nas para obter lucros nas bolsas ou para que as suas acções sejam atractivas para os restantes investidores especulativos.

O problema é que essas actividades são muito rentáveis precisamente porque são... muito inseguras!

É natural, todo o mundo sabe que quanto mais segura é uma operação menos rendimento dá e que será mais rentável quanto maior risco tiver.

A combinação desses dois factores (abundância de operações especulativas e o risco que comportam) é o que produz a chamada financiarização que converteu a economia mundial num autêntico casino, como disse o Prémio Nobel de Economia Maurice Allais.

As suas consequências são claras: insuficiência de recursos para criar actividade e emprego (porque se dedicam à especulação), instabilidade e crise (porque é unicamente neste contexto de mudança constante nas cotizações que se pode ganhar muito dinheiro) e, portanto, transmissão dos seus efeitos negativos à economia real no seu conjunto.

Pois bem, o que se passou nos últimos meses é apenas uma expressão paradigmáticas de tudo isto.

Os passos foram os seguintes:

a) O investimento especulativo sobe artificialmente o valor da habitação.

b) Os bancos multiplicam a oferta de créditos hipotecários mas ao fazê-lo concedem, sobretudo nos Estados Unidos, uma grande quantidade de hipotecas a famílias com recursos insuficientes se mudarem as condições do mercado.

c) Os bancos concedem hipotecas (praticamente todos) vendem esses contratos nos mercados chamados "secundários" (porque neles se re-compram e re-vendem sucessivamente os "papéis" que se negociaram em fases anteriores, neste caso, as hipotecas originais). É assim que surgem os novos "produtos financeiros derivados", que são os títulos que nascem de haver comprado um título, que resultou da compra de outro, que comprou outro... e assim sucessivamente.

Desta maneira forma-se uma espécie de pirâmide gigantesca na qual cada operação é mais rentável que a anterior mas, como disse antes, porque é cada vez mais insegura. E isso é o que vai gerando um risco acumulado e global nos mercados financeiros.

d) Quando por qualquer circunstância falha qualquer elo da cadeia vem tudo abaixo. E já se sabe que a força de uma cadeia é o seu elo mais fraco, o que torna muito frágil o conjunto das relações financeiras.

e) Na crise actual o que inicialmente falhou foi que muitas famílias norte-americanas deixaram de pagar os seus compromissos hipotecários e isso activou uma reacção em cadeia provocando perdas em vez dos lucros habituais.

f) A partir daqui, os capitais deram um passo atrás. Não é que houvessem insuficientes, como se quer fazer crer, mas retraíram-se. E fizeram-no, não só nos mercados financeiros mais especulativos, mas também em todos os outros e, principalmente, nos que financiam a actividade real.

g) Isto foi o que fez com que os bancos centrais, em vez de tomar medidas para evitar que se produzissem mais corridas deste tipo, se dedicassem a "injectar" milhares de milhões de dólares e euros nos mercados na forma de generosos empréstimos aos grandes bancos e financeiros do mundo.

h) Foi dessa forma que uma crise hipotecária nos Estados Unidos (ainda que pudesse ter tido origem em qualquer outro país e em qualquer outro motivo, como aconteceu noutras vezes) se converteu numa crise financeira que afectou toda a banca mundial, porque é a nível mundial que actuam os grandes bancos e investidores da nossa época.

i) Porque caem então as bolsas? Simplesmente, porque tudo o que aconteceu antes põe claramente em relevo perante os investidores duas circunstâncias, por sua vez evidentes: que se rompeu a cadeia de lucro do "papel" e que o dinheiro se retraiu, de modo que não vão continuar a produzir-se sucessivas subidas que favoreçam, por sua vez, sucessivos ganhos especulativos.

É por isso que o retraimento dos capitais produz-se nos valores que mais artificialmente tinham subido nos últimos tempos, isto é, nos que se tinham cotado mais alto mas só como expressão ou como consequência das bolhas especulativas de meses e anos anteriores (em Espanha e em quase todo o mundo, os bancos que investiram em habitação, as grandes imobiliárias, os fundos de investimento mais especulativos, isto é, os mais rentáveis mas menos conservadores nas suas opções de investimento...).

E assim estamos: numa crise financeira que é internacional porque a plena liberdade de movimentos de capital estende sem remédio os efeitos a todo o planeta.

E o que vem agora (que já começou nos Estados Unidos) é o seu efeito sobre a economia real, isto é, sobre a actividade económica e o emprego.

Isto é algo inevitável por quatro razões principais:

a) Porque os investidores e financiadores afectados sofrem perdas e retiram os seus recursos não só da área financeira, como disse, mas também da actividade produtiva.

b) Porque vêm abaixo as indústrias vinculadas à bolha especulativa e, sobretudo, a construção.

c) Porque os bancos centrais foram incapazes ou não quiseram proteger a economia real.

Pelo contrário, o que fizeram foi permitir este estado de coisas, deixando os especuladores agir à vontade, não fazendo nada para lutar contra a opacidade das operações financeiras e, assim, deixando crescer a bolha dos últimos anos para alimentar a ânsia desenfreada de lucro dos bancos. Até governantes conservadores como Angela Merkel e Sarkozy fizeram notar veladamente há uns meses.

Os bancos centrais são, na realidade, os pirómanos que alimentaram a crise: a sua passividade e a sua cumplicidade permitem-nos falar de uma autêntica crise financeira "pré-fabricada".

d) Porque com a excepção dos Estados Unidos, os governos apenas têm capacidade para intervir injectando na actividade real os recursos que os bancos centrais injectam nos fluxos financeiros.

E isto é assim de um modo especial na União Europeia: sem governo económico e à custa do fundamentalismo do banco central, é seguro que sofrerá uma recessão de muito maior calado, salvo se os Estados Unidos forem capazes de travar rapidamente a sua, evitando assim o contágio que já começou. Algo que é já muito improvável.

Isto é o que há e o que vem.

Equivocam-se, ou mentem, os governantes que estão a dizer que é pouca coisa.

Equivocam-se, ou mentem, os banqueiros centrais que dizem que é só um episódio de instabilidade financeira.

Equivocam-se ou mentem, muito mais grave e cinicamente, aqueles que agora só voltam a dar a receita de que o que há que controlar para sair do aperto são os salários.

E equivocam-se ou mentem aqueles que tiram importância a estas manifestações de risco global.

O financeiro George Soros que conhece bem os mercados financeiros acaba de dizer, segundo a agência Reuters, que "a situação é muito mais séria que qualquer outra crise financeira desde o final da Segunda Guerra Mundial" e que isso se deve a que "durante os últimos anos, os políticos têm sido guiados por alguns mal-entendidos básicos procedentes do "fundamentalismo de mercado", a crença em que os mercados financeiros tendem a actuar para o equilíbrio.

E em Davos, onde todos os anos se reúnem os mais poderosos do mundo, acabam de apresentar o informe Global Risk 2008 que, se é bem verdade que se orienta mais para sustentar o sistema do que para modificá-lo em sentido positivo, adverte sem dissimulações do perigo real e imediato de uma crise financeira generalizada como consequência da infra-valoração do risco que se está a assumir.

A situação, portanto, não admite muitas dúvidas. Estamos no único sítio onde podíamos estar quando se deixa que os capitais fluam livremente procurando apenas lucros extraordinários e rápidos em actividades especulativas, quando os governos renunciam a governar para favorecer assim os poderosos e quando não se põe qualquer limite ao afã dos mais ricos do planeta em terem mais e mais e mais.

Os capitais à deriva não podem levar a economia mundial a outro sítio que não seja a uma deriva generalizada para a crise e o mal-estar. Não pode ser de outro modo.

As soluções imediatas existem e não são difíceis, ao contrário do que nos querem fazer crer. E são cada dia mais urgentes e necessárias: controlar a especulação regulando as finanças internacionais para garantir segurança e estabilidade; dominar os capitais financeiros e obrigar a que os recursos estejam ao serviço da actividade produtiva mediante impostos globais; e, em definitivo, evitar que a lógica do mercado se converta na lógica social.

Obviamente, o que não é tão fácil é dispor do poder suficiente para consegui-lo e precisamente é para aí que deverão orientar o seu esforço os cidadãos e as organizações sensatas do planeta.

Porque a origem última da crise financeira não está nas finanças mas sim no poder desmedido que têm os banqueiros e os grandes proprietários.

Justamente o que há que tirar-lhes para poder evitá-las no futuro.

Tradução de Carlos Santos 



Juan Torres Lópezé catedrático de Economia aplicada da Universidade de Málaga (Espanha)

 
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