Passeio pelo caos criar PDF versão para impressão
15-Jan-2008
Rui BorgesO presidente George Bush encontra-se numa ambiciosa visita pelo Médio Oriente. Na bagagem leva a promessa de um acordo para a criação de um estado palestiniano, o suposto sucesso da ocupação do Iraque e a promessa de protecção aos seus estados clientes no Golfo. Uma operação de charme montada com um único objectivo: isolar o Irão e recrutar aliados para o confronto contra este país.

Com a visita a Israel e Cisjordânia, Bush pretende criar uma imagem de empenho na solução do problema palestiniano, a causa mais cara ao mundo árabe. Mas assim que Bush partiu para a etapa seguinte da viagem, Ehud Olmert apressou-se a baixar as expectativas sobre a possibilidade de um acordo ser atingido até ao fim do ano.

Após as fotos e apertos de mão na Palestina, Bush pôde então dedicar-se aquilo que realmente interessa na sua viagem: preparar os seus aliados no Golfo para apertar o cerco ao Irão.

A visita não podia começar de melhor maneira. No dia 6 de Janeiro, dois dias antes da chegada à Palestina, dá-se um tenso confronto entre unidades das marinhas iraniana e americana. Os iranianos ameaçavam em tom sinistro que iriam afundar os navios americanos dando provas irrefutáveis do carácter agressivo e irresponsável do regime dos ayatollahs. Era o suficiente para convencer aqueles que nos últimos meses têm ensaiado uma aproximação diplomática a Teerão. Poucos dias depois a BBC dava conta de um interessante pormenor: a tal voz ameaçadora era muito diferente nos vídeos divulgados pelos americanos ou pelos iranianos. Poucos dias depois o próprio jornal da marinha americana, o Navy Times, admitia que a voz que ameaçou os navios americanos é muito provavelmente um velho mas desconhecido invasor das frequências de rádio do estreito de Ormuz que há anos se dedica a insultar quem por lá passa. O incidente serviu obviamente para ilustrar o perigo que o Irão representa para a região.

Apesar de tudo, na sua passagem pelos Emiratos Árabes Unidos o presidente deixou uma mensagem de esperança: os iranianos têm direito à democracia como todos os outros povos do mundo. Ou nem todos. Curiosamente as eleições são uma prática totalmente desconhecida em todos os países do Golfo que Bush está a visitar. Um pequeno detalhe esquecido pela generalidade da comunicação social, talvez por ser tão insignificante face à ameaça que Teerão representa para "os nossos valores" e "o nosso modo de vida".

O que será mais difícil de esconder é que a ocupação do Iraque está muito longe de ser o sucesso que Bush tenta publicitar. Em vez da esperada vaga de democracia e comércio livre que iria espalhar por toda a região a amizade por Washington, o que se vê é que do Líbano ao Paquistão não para de crescer a resistência à intervenção americana. Os próprios regimes amigos da Casa Branca, como a Arábia Saudita, o Egipto ou o caso mais agudo do Paquistão, estão hoje seriamente ameaçados pela instabilidade.

Mas tudo indica que Bush, ao contrário do seu pai, não queira ir para a reforma sem cumprir a missão até ao fim. Ou seja, atacar o Irão e pôr fim a qualquer resistência ao domínio americano da região. Esta viagem é apenas um preparativo.

Rui Borges

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.