Barba de três dias e salões de chá* criar PDF versão para impressão
05-Set-2006

antonio_chora.jpgNo artigo a cor do dinheiro, (podia ser a alma do dinheiro se é que o dinheiro tem alma) que apareceu ontem no Jornal de Negócios, faz-se referência à minha participação na Marcha do emprego do BE tentando uma ligação ao problema actualmente em discussão na VW Alemanha sobre horários de trabalho, como se esse fosse o problema da VW.
É interessante ver como alguns especialistas em economia, se referem aos problemas sem os entenderem, mas a verdade é que isso é pratica corrente.

Os custos do trabalho na VW como na maioria das empresas é a parte menor do custo do carro, em média não chega aos 10%.

Os erros no lançamento dos produtos, o lançamento de produtos que não são "carros do Povo", a revalorização da moeda europeia face à moeda dos EUA, esses sim são os grandes problemas da Multinacional.

Mas se é claro que os trabalhadores não tem culpa desse erros, também é verdade que são as suas primeiras vitimas, tal como se pode provar na zona do Vale do Ave, onde integrei por três dias a Marcha pelo Emprego do BE e onde depois de milhares de despedimentos aparecem os novos ricos ostentando os carros mais caros do país, com total desprezo pela miséria que provocam com as falências muita vezes fraudulentas.

Mas ainda voltando à Autoeuropa, parece-me que continua por entender  o acordo que aqui foi feito em 2003, bem como o ultimo.

Defendo e defendi junto do BE as 36 horas de trabalho semanal como média, pois é essa a realidade actual da Autoeuropa e uma realidade que permitiu salvar centenas de postos de trabalho.

Hoje os trabalhadores da Autoeuropa graças a esse acordo, recebem 14 meses de salário para trabalhar 1672 horas ano se a empresa tiver reduções de produção.

Podem também e a isso estão obrigados pelo mesmo acordo, a trabalhar 1848 horas como qualquer outro trabalhador, recebendo no entanto nesse caso 15 meses de salário.

Isto permite à empresa utilizar em situações difíceis de procura uma flexibilidade de 22 dias ano.

Como referi, isto salvou centenas de postos de trabalho, mais concretamente 850, mas "custou" aos trabalhadores dois anos sem aumentos, tendo recebido nesses dois anos apenas 550€ num prémio único.

Se fizemos bem as contas verificamos que 1672 horas ano é exactamente a proposta que o BE faz neste momento, como forma de evitar despedimentos e criar emprego, (o emprego já começou a crescer na Autoeuropa).

Como se pode ver, não se trata de barba de vários dias (ou comer de faca e garfo, é para alguns comentadores sinónimo de classe média urbana), mas antes, de defender propostas em que acredito.

É claro que isto a "seco" não resolve os problemas do país, são necessários por parte dos Governos e autarquias, investimentos controlados na formação, em plataformas logísticas, menor burocracia urbanística, parques industriais equipados com etares, Internet, é necessário reduzir os custos com a electricidade, uma redução na taxa social única que as empresas pagam independentemente de ter lucro ou não, e aumentar o imposto sobre os rendimentos.

Da parte dos investidores (empresários que em Portugal devem deixar de ser Patrões), o reconhecimento das áreas de investimento lucrativas, o investimento em tecnologia, o apostarem (no caso português) na sua própria formação, a procura de mercados externos face ao diminuto país que somos, a aposta na qualidade e se possível na quantidade.

Da parte dos sindicatos é necessário uma maior atenção ás medidas que podem criar emprego, uma maior preocupação pelos desempregados, e não terem a única preocupação de aumentar as regalias do que tem emprego.

Mais uma vez demos esse exemplo no acordo de 2005/2006, quando nos garantiram que se reduzíssemos os custos do trabalho extraordinário, seriam criados mais postos de trabalho, reduzimos esse custo, temos um novo produto e com isso começaram a ser criados mais postos de trabalho dentro e principalmente fora da fábrica.

Já agora e para terminar, de chás como não sofro de azia só tomo de camomila, ajuda-me a dormir e a recuperar forças para continuar com os meus companheiros na Comissão de trabalhadores a lutar por mais e melhor emprego.

*Este artigo foi publicado hoje, 6 de Setembro de 2006, no Jornal de Negócios

 
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