Francisco Louçã: Lições italianas criar PDF versão para impressão
31-Jan-2008
francisco_louca.jpg O último livro de Ítalo Calvino, Lições Americanas, inclui um conjunto de conferências de 1985, apresentadas nos Estados Unidos. "Ligeireza", "rapidez", "exactidão", "visibilidade" e "multiplicidade" são os termos de referência destas lições, que apresentam o romance contemporâneo como uma enciclopédia dos saberes e de comunicações. Calvino discute o sentido da profundidade e da crise nas ideias de hoje, contesta o efémero que domina a cultura e opõe a televisão, centro do artifício, à literatura, o lugar da reflexão.  

Pergunto-me que diria então Calvino sobre as lições italianas dos dias de hoje. E não há resposta, claro. Calvino já morreu e a Itália ultrapassa o que a imaginação mais delirante poderia supor. 

Mas restam os factos. 

Berlusconi vai à frente nas sondagens e a direita mais conservadora parece poder vencer as eleições que se aproximam, restando a dúvida de saber como se vai recompor a frente dos partidos berlusconianos. O governo de "centro-esquerda", portanto, fracassou na disputa pela hegemonia eleitoral e todos quantos nele votaram podem ser assim as vítimas desse fracasso anunciado. 

E o governo cai porque se desfaz uma coligação por via da deserção de um partido de direita, vindo da explosão da democracia cristã, e cujos líderes foram inculpados judicialmente por conexão com o escândalo mafioso dos lixos napolitanos. Da solidez e consistência da coligação, fica tudo dito. 

Na esquerda europeia, esta experiência de governo e a sua política internacional foi muito discutida. Foi mesmo um tema da Convenção do Bloco de Esquerda, que tomou posição clara condenando todos os governos europeus que colaboraram com a ocupação do Afeganistão, na esteira de estratégia de Bush. 

Ora, esta espécie de realismo teve efeitos ainda mais duros na vida social do país, fosse na política orçamental e económica, fosse na alteração das regras da segurança social. E teve como consequência a derrota do governo, porque perdeu parte do seu apoio enquanto a direita recompunha a sua base. 

Para a esquerda, esta evolução demonstra mais uma vez a importância da luta pela hegemonia, que se baseia num programa para a transformação da sociedade. Nenhuma coligação pode ter efeito no combate a essa injustiça que é a exploração e a desigualdade a não ser que se baseie no triunfo da mobilização social. E a luta pela hegemonia é precisamente o combate revolucionário que constrói a relação de forças para atingir os pilares da vida social e política em nome de um projecto para dirigir a sociedade. Esse projecto é um programa, mais uma vez: a hegemonia é a luta pelo programa que responde à necessidade imediata da maioria dos trabalhadores e da sociedade, e que contribui para a sua mobilização por objectivos de longo alcance. 

Ou, como sugeriu Italo Calvino, a lição italiana é que é preciso "exactidão", "visibilidade" e "multiplicidade" nos grandes enfrentamentos com que a esquerda quer vencer a direita social, económica e política.

Francisco Louçã

 
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