Dossier 11 de Setembro criar PDF versão para impressão
10-Set-2006
CINCO ANOS DEPOIS: O FRACASSO DE BUSH carrobomba060910_1
Após os atentados Bush lançou a sua "guerra ao terrorismo". Mentiu descaradamente para desencadear a guerra, violou o Direito Internacional e as liberdades. Cinco anos depois os atentados terroristas aumentaram, as guerras prolongam-se. Dos que internacionalmente apoiaram quase só resta o seu indefectível Blair, ameaçado de ser apeado pelos seus apoiantes. Bush fracassou e está também ele com graves e crescentes dificuldades políticas, mas o mundo ficou mais instável e inseguro. Para abrir este dossier traduzimos o artigo de Augusto Zamora, que foi inicialmente publicado no
Nuevo Diario de Managua: 11-S, cinco años después: El fracasso de Bush.

 

Há cinco anos, neste Setembro, a humanidade era sacudida pela maior e mais complexa acção terrorista jamais realizada. Aviões de linhas civis esmagavam-se contra dois arranha-céus emblemáticos de Nova Iorque, provocando o seu derrube e de mais sete edifícios. O atentado teve um efeito psicológico colateral: fez desaparecer o sentimento de invulnerabilidade que os Estados Unidos tinham. Tratou-se da primeira acção violenta sofrida pelos Estados Unidos no seu próprio território desde o longínquo desembarque inglês em Washington, em 1814, pois as ilhas Havai tinham o estatuto de colónia, aquando do ataque japonês em 1941.

A primeira reacção externa dos Estados Unidos foi invadir o Afeganistão nesse mesmo ano. Uma acção ilegal, segundo o Direito Internacional, de enorme conteúdo geopolítico, pois serviu a Washington para penetrar na Ásia Central e estabelecer bases militares no espaço ex-soviético. Não existia relação alguma entre o regime talibã e os autores dos atentados, mas o Afeganistão era uma vítima fácil e, sobretudo, um país estratégico em termos geopolíticos. Do Afeganistão os Estados Unidos podiam - segundo os estrategas do derrubado sonho de um mundo dominado a partir de Washington - exercer influência sobre as novas repúblicas da Ásia Central, neutralizar as tentativas da Rússia para restabelecer o seu ascendente e controlar possíveis rotas do petróleo da Ásia Central para os mercados mundiais. Sonho que terminará por naufragar perante a resistência encarniçada dos derrotados talibãs, como demonstra o facto de, há poucos dias, o chefe da NATO, substituta dos Estados Unidos na guerra afegã, ter requerido mais soldados e mais material militar, dada a magnitude da resistência.

A invasão do Afeganistão seguiu-se a do Iraque, que terminou num desastre militar, numa derrocada política e numa hecatombe humanitária. Mais de 200 000 iraquianos morreram, o país está destruído e a situação militar atolou-se a um ponto que os Estados Unidos se viram obrigados a enviar mais 14 000 soldados para deter o ascenso da actividade guerrilheira. Os factos desmentem o sustentado pela palavra, no sentido de que a situação iraquiana melhorava. Em Agosto, as tropas de ocupação tiveram 59 mortos, frente a 36 em Julho, números que podem estar incompletos pois, segundo se sabe, até 30% dos soldados - na maior parte latino americanos - não possui nacionalidade norte-americana e a chefia militar usa esse tecnicismo para não contabilizar como baixas suas os mortos e feridos não norte-americanos. Do incremento da efectividade da resistência iraquiana e do número de ataques dá conta o dado de que a resistência colocou, em Janeiro de 2006, 1 414 artefactos explosivos de fabrico artesanal contra os ocupantes e os seus colaboradores, número que foi de 2 625 no mês de Julho. Fontes citadas pelo diário norte-americano "The New York Times" admitiam o aumento do apoio popular à guerrilha iraquiana e a sua crescente capacidade para combater a ocupação.

Guerras que resultaram derrota militar e só deixaram um mundo mais incerto e instável. Nesse sentido a guerra contra o terrorismo declarada pela administração Bush só serviu para destruir a ordem jurídica internacional e promover uma nova corrida armamentista a nível mundial. Provou, além disso, uma grave subida dos preços de petróleo, que golpeou sobretudo os países pobres não produtores, aumentando a miséria no mundo (como se viu na Nicarágua) e acrescentando inflação e elevados graus de volatilidade na economia mundial.

A luta anti-terrorista levou também, nos Estados Unidos e noutros países, a aprovar leis que violam gravemente os fundamentos mais sagrados dos direitos humanos. A lista de violações é extensa, mas devem destacar-se o "Patriot Act", campos de concentração como o de Guantanamo, o estabelecimento de cárceres secretos (reconhecidas por Bush), o sequestro de suspeitos e a redução das liberdades fundamentais. A luta anti-terrorista está a servir de pretexto, segundo anunciaram a Amnistia Imternacional, o Parlamento Europeu e distintos órgãos das Nações Unidas, para que os Estados Unidos vulnerem esses direitos, em demasiados casos com consequências letais. O seu exemplo foi seguido por uma pluralidade de governos que, sob a desculpa da luta anti-terrorista, perseguem os seus opositores ou justificam fraudes eleitorais, como ocorre no Egipto, no Paquistão ou na Indonésia, todos eles aliados estratégicos dos EUA.

Os resultados práticos da luta anti-terrorista dirigida de Washington são mais que decepcionantes. Ainda que os EUA apontem como seu maior êxito terem impedido novos atentados no território norte-americano, os efeitos fora dos EUA são desoladores. Segundo o informe que o Departamento de Estado publica anualmente sobre terrorismo no mundo, apresentado em Abril passado, em 2005 deram-se cerca de 11 000 ataques terroristas em todo o mundo, provocando a morte de 14 600 pessoas. Se considerarmos que em 2004 se registaram 651 atentados terroristas "significativos", resultando em 1907 vítimas mortais, o informe de 2006 multiplica por vinte e três o número de ataques terroristas e por oito o número de vítimas, números que tornam desnecessária qualquer valoração sobre a efectividade da política anti-terrorista do governo Bush.

O fracasso torna-se ainda mais evidente tendo em conta os dados do informe sobre o ano 2003, durante o qual se registaram 208 actos terroristas, resultando em 625 mortos (no ano de 2002, segundo o informe do Departamento de Estado de 2003) registaram-se apenas 198 atentados). Por outras palavras, a política anti-terrorista de Bush operou o milagre de multiplicar o terrorismo como se fosse pão e peixes, convertendo-o, de fenómeno residual e quase figurativo, numa chaga internacional, sobretudo nos países que invadiu, como acontece no Iaque e no Afeganistão.

Nem sequer a Al-Qaeda, responsável pelos atentados do 11 de Setembro, pôde ser destruída. O informe de 2006 afirma que a Al-Qaeda perdeu parte do controle sobre a sua rede e está debilitada, por causa das detenções e da morte de alguns dos seus operacionais, mas admite que a dita organização continue a ser a ameaça mais perigosa para os EUA.

A cinco anos dos atentados contra as Torres Gémeas, Washington está mais isolado e débil que nunca, resultado natural de uma política violenta e ilegal e, sobretudo, contraproducente e inútil. Um balanço desolador, tomando em conta os imensos recursos investidos pelos EUA, políticos, económicos e militares, sinal iniludível do seu declínio como superpotência mundial. Como ocorreu com outros impérios que o precederam, o sonho de domínio global acabou por provocar o efeito inverso: acelerar o seu declínio e preparar o poder das potências emergentes. Não se produziu nenhum fim da história. Somente um ponto e à parte

Augusto Zamora é professor de Direito Internacional e Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Madrid. Foi advogado de Nicarágua no caso contra EUA no Tribunal Internacional de Justiça. É membro directivo da Academia de Geografía e História de Nicarágua e autor de vários livros.

Publicado em Nuevo Diário, Rebelión, Agencia de Información Solidaria

 
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