Obama é o mais talentoso dos políticos de que há memória recente criar PDF versão para impressão
08-Fev-2008
Barack Obama. Foto de Daniella Zalcman, FlickRChristopher Hayes, da histórica revista de esquerda americana The Nation, defende neste artigo que os progressistas americanos estão diante da rara e histórica oportunidade de eleger um presidente com uma maioria progressista e um mandato para uma mudança progressista. Para ele, quem melhor pode desempenhar esse papel é Barack Obama.

A escolha

Por Christopher Hayes, da The Nation

Chegou o momento nestas primárias em que as linhas já estão definidas, os campos consolidados e as conversas em torno das mesas de jantar começam a aquecer. O meu amigo Dan recentemente pôs a questão desta forma: "começa-se a falar dos candidatos, e de repente já está alguém a gritar!" A excelente (e não comprometida) blogger Digby decidiu recentemente fechar a secção de comentários do seu blog porque estes estavam cada vez mais ácidos. O crescimento da agressividade é em grande parte devido ao estreitamento das opções. Antes, a energia espalhava-se por muitos campos; hoje, com a saída de Dennis Kucinich e de John Edwards, as opções concentram-se em duas, deixando aos progressistas um forte debate sobre se Hillary Clinton ou Barack Obama são a melhor escolha, e quem será o melhor candidato a presidente.

De acordo com as sondagens, e também das minhas conversas com amigos e colegas, os progressistas estão divididos a meio, ou indecisos entre os dois.

Até agora, as questões discutidas durante a campanha presidencial estão circunscritas pelos tabus dos establishments dos média e tendem a ser desencorajantes para nós da esquerda. Nenhum dos principais candidatos quer que a nação renuncie à sua postura imperial de há tantas décadas ou que acabe o complexo industrial-prisional; nenhum diz que a cultura do carro é um modo de vida insustentável na era do petróleo caro e do aquecimento global, ou aponta que a "guerra às drogas" foi um desastre moral e um fracasso estratégico, com as baixas mais violenta e destrutivamente sofridas pelos mais marginalizados da sociedade e - uma palavra que não vai ser ouvida de nenhum candidato - oprimidos.

Ainda assim, esta eleição é mais encorajante (ousaria dizer esperançosa?) do que qualquer outra recente. A agenda política dos candidatos democratas é significativamente mais à esquerda em relação à guerra, às alterações do clima e à questão da saúde que a de John Kerry em 2004. A implosão ideológica do conservadorismo, os fracassos da administração Bush e, talvez o mais importante, as viragens à esquerda da opinião pública em relação à guerra, à economia, às liberdades civis e aos direitos civis estão a ocorrer todas ao mesmo tempo, dando aos progressistas a rara e histórica oportunidade de eleger um presidente com uma maioria progressista e um mandato para uma mudança progressista.

A questão, então é esta: qual dos dois candidatos democratas tem mais condições de pôr de pé uma nova maioria progressista? Acredito, profunda e apaixonadamente, mesmo que às vezes tenha dúvidas, que é Barack Obama.

Se me dissessem há uns anos que a esquerda do Partido Democrata iria dividir-se entre Obama e Clinton, teria dito que eram malucos: Barack Obama foi um organizador comunitário, um advogado de direitos civis, um aliado confiável e leal dos grupos progressistas do senado estadual. Para a esquerda de Chicago, a sua campanha das primárias e a sua subsequente eleição para o Senado dos EUA foi um toque a reunir colectivo. Se lerem o seu primeiro livro, o realmente bonito, honesto e intelectualmente sofisticado Dreams From My Mother (Sonhos da Minha Mãe) terão uma noção do que os jovens progressistas de Chicago sentem em relação a Obama. Ele é um de nós, e agora está no Senado. (Achámos que tínhamos elegido o nosso Paul Wellstone . Só para constar: o meu irmão é organizador da campanha de Obama).

Não foi, infelizmente, assim, que as coisas correram. Quase imediatamente, Obama - provavelmente de olho em cargos nacionais - foi para o centro. A sua retórica era suave, muitas vezes tímida, não a do zeloso advogado a favor da paz, da justiça e dos despossuídos que tinha caracterizado a postura de Wellstone. O registo das suas posições colocam-no no meio dos senadores democratas, só ligeiramente à esquerda de Clinton nas questões domésticas. Como candidato presidencial, a sua política doméstica (com algumas importantes excepções quanto aos direitos de voto e à política tecnológica) tem estado muito próxima da dos seus principais rivais, apesar de às vezes, nomeadamente na questão do sistema de saúde, marginalmente menos progressista.

Mas enquanto a política doméstica será em última análise determinada por uma complicada e tensa interacção com os legisladores, a política externa é onde a agenda do presidente é implementada mais ou menos sem entraves. É onde as diferenças na visão de mundo têm mais importância - e onde Obama se compara mais favoravelmente com Clinton. A guerra é a mais óbvia e poderosa diferença entre os dois: Hillary Clinton votou a favor e apoiou a mais desastrosa decisão da política externa americana desde o Vietname, e Barack Obama (num momento em que fazê-lo era uma demonstração de coragem) falou contra.

Nesta campanha, as suas propostas são relativamente apreciadas, mas na retórica e na postura, Clinton fez de falcão e Obama de pomba, sendo que Hillary atacou pela direita em relação a tudo, desde o uso de armas nucleares de primeiro ataque à negociação com o presidente do Irão. A sua posição de falcão relativa a Obama reflecte-se no seu círculo de conselheiros. É um círculo dominado por pessoas que acreditam que desencadear uma guerra preemptiva no Iraque foi a decisão correcta. O círculo de Obama é constituído esmagadoramente por pessoas que consideram a guerra do Iraque um erro.

A concepção de Clinton, fundamentalmente defensiva, de como neutralizar os republicanos sobre a segurança nacional (neutralizando a sua postura belicista com uma própria) é um exemplo de um problema maior, baseado no facto de que tantos dos seus conselheiros estiveram na administração do marido.(...) Sabermos o que aconteceu aos progressistas sob o clintonismo: foram os mais sangrentos membros deixados na armadilha. O clintonismo, por outras palavras, é o demónio que conhecemos.

O que nos leva ao demónio que não conhecemos. Um presidente não pode construir um movimento, mas pode ser o seu mensageiro, como foi Reagan. Parte do que atormenta e frustra em relação a Obama é que ele parece ter o potencial de ser esse mensageiro, mas evita falar em termos ideológicos. Quando fala dos organizadores sindicais enfrentando os fura-greves da Pinkerton para dar-nos a semana das 40 horas, ou quando diz que estamos condenados uns aos outros, como "o protector do nosso irmão... o protector da nossa irmã", ele articula os mais profundos valores progressistas: solidariedade e comunidade, e acção colectiva. Mas põe mais ênfase retórica numa política de "unidade" que, lida sem generosidade, parecem fazer um fetiche do bipartidarismo como um fim em si e reforçar mitos coxos e decepcionantes de que os partidos são igualmente responsáveis pela "disputa" e "divisão" em Washington. Parece às vezes que este diagnóstico do que está errado com a política é a forma como ela é conduzida, em vez de por quem.

Na sua totalidade, porém, a retórica de Obama diz uma história da política que é diferente tanto da contada por partidários de Beltway sobre o bipartidarismo e o respeito, e da história dos activistas progressistas da batalha incessante entre as forças do progresso e as da reacção. Se é diferente do que eu gosto de ouvir, também é infalivelmente dirigida a construir a coligação que é a razão de ser da candidatura de Obama.

Obama distingue entre os opositores mal-intencionados, implacáveis inimigos (lobistas, interesses entrincheirados, "operacionais") e os opositores bem-intencionados (republicanos, independentes e conservadores de boa consciência). Ele quer cortejar os últimos e usar o seu apoio para vencer os primeiros. Isto pode parecer improvável, mas permite que ex-republicanos (republicanos de Obama?) atravessem a barreira sem culpa. Ninguém lhes pede para renunciar, apenas para aderir.

O diagnóstico de Obama dos obstáculos ao progresso é duplo. Primeiro, que a divisão do eleitorado em categorias criadas pelos guerreiros dos direitos da cultura é o principal meio pelo qual as forças da reacção resistem à mudança. O progresso só poderá avançar se forem rejeitadas estas categorias.

Em segundo lugar, que o motivo pelo qual os progressistas não conseguiram atingir os nossos objectivos nas últimas décadas não foi a falta de luta, mas o facto de não termos um mandato popular. Por outras palavras, o obstáculo fundamental é um obstáculo político básico: nunca ter o escrutínio público do nosso lado e nunca ter os votos no Congresso. A este respeito, a campanha de Obama é especialmente circular: o seu apelo político baseia-se no facto de ele ser tão atraente politicamente. Isto significa que quando ele perde, a derrota afecta-o mais do que a outros candidatos. Mas quando ele ganha, particularmente quando tem uma grande vitória, como ocorreu no Iowa e na Carolina do Sul, a vitória significa mais porque reforça o principal argumento da campanha.

A questão de quem melhor pode construir o apoio popular para uma agenda de governo progressista relaciona-se com, mas é diferente, da questão da elegibilidade. Dado que há um certo tecto para o apelo de Clinton (devido aos anos de loucos ataques da "conspiração da poderosa direita"), a sua campanha parece bem preparada para fazer uma campanha de 50%+1, uma reedição de 2004, mas com um estado ou dois mudando de lado: Flórida, talvez, ou Ohio. Obama aponta para algo muito maior: uma notável maré de mudança, com o tipo de altos índices de aprovação que podem fazer avançar uma agenda. Por que pensamos que ele pode fazer isto?

A resposta é que Obama é simplesmente o mais talentoso e interessante dos políticos de que há memória recente. Talvez o mais. A pollster.com mostra uma série de sondagens feitas pela campanha democrata. Os gráficos dos números nacionais, assim como os dos primeiros quatro estados, mostram um padrão notavelmente consistente. Hillary Clinton começa com ou uma modesta ou, mais frequentemente, uma liderança maciça, devido ao maior reconhecimento do seu nome e à popularidade da marca Clinton. Mas à medida em que a campanha avança, o apoio de Clinton ou sobe suavemente, ou paralisa, ou afunda. Mas à medida que se aproxima a competição real, e os eleitores começam a prestar atenção, o apoio de Obama subitamente começa a crescer exponencialmente.

Além de persuadir os que já votam, Obama também se apresentou para concretizar uma das mais velhas promessas na política: trazer novos eleitores (especialmente os jovens). É um fenómeno que, se continuasse com a sua nomeação, podia alterar completamente a matemática eleitoral. Os jovens são de longe os eleitores mais progressistas de qualquer grupo etário, e eles estão esmagadoramente a favor de Barack Obama por margens espantosas. O seu entusiasmo traduziu-se num aumento maciço na participação dos jovens nas primeiras eleições primárias.

Quem quer que seja eleito em Novembro, os progressistas vão provavelmente sentir-se frustrados. Em última análise, porém, os julgamentos futuros e as acções dos candidatos são desconhecidas, obscurecidas atrás do manto do tempo. Quem diria que Bill Clinton, que em 1992 fez campanha com Nelson Mandela, iria mais tarde ameaçar a África do Sul de sanções quando este país aprovou uma lei que permitia a produção de genéricos contra a Sida para a sua sofredora população - ou que o George W. Bush de 2000, um afável "centrista" cujas posições sobre política externa apontavam para o isolacionismo, iria tornar-se num autojustificativo, ilusório e messiânico instrumento da guerra global? Neste sentido, Bill Clinton tinha razão: votar em Barack Obama e elegê-lo é um "lançamento de dados". Todas as eleições são isso. Mas a candidatura de Barack Obama representa de longe a melhor hipótese da esquerda de, nas imortais palavras de Buchanan, trazer de volta para o nosso lado a maior metade do país. É uma hipótese que não podemos perder.


*Paul David Wellstone (21 de Julho de 1944 - 25 de Outubro de 2002) foi um político americano e senador do Minnesota. Foi membro do Partido Democrático Camponês Trabalhista e professor de ciências políticas no Carleton College antes de ser eleito para o Senado em 1990. Foi um dos princiapis porta-vozes da ala progressista do Partido Democrata. Morreu num acidente de avião em 25 de Outubro de 2002.


 
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