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O GOLPE QUE O MUNDO NÃO PERCEBEU
thumb_timorstatepor John Pilger
Em cada semana o Esquerda. Net apresentará um dossier novo, nesta semana dossier sobre Timor Leste. Para abrir, este texto de John Pilger onde ele afirma: “Um documento que escapou da Força de Defesa Australiana revelou que o “primeiro objectivo” da Austrália em Timor Leste é “procurar acesso” dos militares australianos àqueles que podem exercer “influência sobre os decisores de Timor Leste”. Um “neo-con” de Bush não diria melhor.”

No meu filme "Morte de uma nação", feito em 1994, há uma cena a bordo de um avião a voar entre o nordeste da Austrália e a a ilha de Timor. Está a decorrer uma festa, dois homens de fato brindam-se com champanhe. "Este é um momento único na história", exulta Gareth Evans ministro dos negócios estrangeiros da Austrália, "é verdadeiramente único na história." Ele e o seu homólogo indonésio, Ali Alatas, celebravam a assinatura do Tratado do Estreito de Timor, que permitiria à Austrália explorar as reservas de petróleo e gás no fundo do mar de Timor Leste. O prémio final eram "zilhões de dólares" como disse Evans.

O conluio da Austrália, escreveu o professor Roger Clark, uma autoridade mundial em direito marítimo, "é como adquirir material a um ladrão... o facto é que eles não têm direito histórico, nem legal, nem moralmente sobre Timor Leste e os seus recursos". Por baixo deles jazia uma pequena nação que sofria uma das mais brutais ocupações do século XX. A fome imposta e o assassínio extinguiram um quarto da população: 180 000 pessoas. Proporcionalmente, esta foi uma carnificina maior do que a do Cambodja sob Pol Pot. A Comissão de Verdade das Nações Unidas, que examinou mais de 1 000 documentos, relatou em Janeiro que os governos ocidentais partilharam responsabilidades pelo genocídio; pela sua parte a Austrália treinou a Gestapo da Indonésia, conhecida como Kopassus, e os seus políticos e a elite jornalistíca divertiram-se com o ditador Suharto, descrito pela CIA como um assassino em massa.

Actualmente a Austrália gosta de de se apresentar como um salvador e generoso vizinho de Timor Leste, depois da opinião pública ter forçado o governo de John Howard a enviar uma força de manutenção da paz há seis anos. Timor Leste é agora um Estado independente, graças à coragem do seu povo e à tenaz resistência dirigida pelo movimento de libertação Fretilin, que em 2001 conquistou o poder político nas primeiras eleições democráticas. Nas eleições regionais do ano passado 80% dos votos foram para a Fretilin, dirigida pelo primeiro ministro Mari Alkatiri, um "nacionalista económico" convicto, que se opõe à privatização e à interferência do Banco Mundial. Um muçulmano secular num país largamente católico romano ele é acima de tudo um anti-imperialista que enfentou as exigências arrogantes do governo de Howard para uma partilha injusta dos benefícios do petróleo e do gás do Estreito de Timor.

A 28 de Abril último, uma secção do exército de Timor Leste amotinou-se, ostensivamente devido a pagamentos. Uma testemunha, a repórter de rádio australiana Marianne Keady, revelou que oficiais americanos e australianos estavam envolvidos. A 7 de Maio Alkatiri descreveu os motins como uma tentativa de golpe e disse que "estrangeiros e forasteiros" estavam a tentar dividir a nação. Um documento que escapou da Força de Defesa Australiana revelou que o "primeiro objectivo" da Austrália em Timor Leste é "procurar acesso" dos militares australianos àqueles que podem exercer "influência sobre os decisores de Timor Leste". Um "neo-con" de Bush não diria melhor.

A oportunidade para "influenciar" chegou a 31 de Maio, quando o governo Howard aceitou um "convite" do Presidente de Timor Leste, Xanana Gusmão, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos Horta - que se opõe ao nacionalismo de Alkatiri - para enviar tropas para Dili, a capital. Isto foi acompanhado por reportagens tipo "os nossos rapazes vão salvar" na imprensa australiana, juntamente com uma campanha difamante contra Alkatiri como um "ditador corrupto". Paul Kelly, antigo editor do Australian de Rupert Murdoch, escreveu: "Esta é uma intervenção altamente política... A Austrália está a operar como uma potência regional ou um hegemonista político que modela a segurança e o futuro políticos." Tradução: A Austrália, como o seu mentor em Washington, tem um direito divino a mudar o governo de outro país. Don Watson, redactor dos discursos do antigo primeiro-ministro Paul Keating, o mais notório apologista de Suharto, escreveu incrivelmente: " A vida sob uma ocupação assassina podia ser melhor que a vida num estado falhado..."

Ao chegar com uma força de 2 000 militares um brigadeiro australiano voou directamente de helicóptero para o quartel general do líder rebelde, Major Alfredo Reinaldo - não para prendê-lo por tentar derrubar um primeiro ministro eleito democraticamente mas para cumprimentá-lo efusivamente. Como outros rebeldes, Reinado foi treinado em Canberra. Diz-se que John Howard está contente com o título de "vice-xerife" do Pacífico Sul, atribuído por George W. Bush. Recentemente ele enviou tropas para uma rebelião nas Ilhas Salomão e oportunidades imperiais acenam em Papua Nova Guiné, Vanuatu e outras pequenas nações insulares. O xerife aprova.

 
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