O visto e o revisto: Espasmos de uma caneta antes de se lhe acabar a tinta criar PDF versão para impressão
11-Fev-2008
Alice BritoSão atletas da palavra. Arquitectos da convicção. Falam tão séria e sinceramente que até parece ser verdade o que dizem.
Convencem-nos da bondade das suas acções, todas para o nosso bem, desde a compra dos submarinos, ao abate dos sobreiros, até à generosa oferta do casino de Lisboa à sociedade Estoril-Sol.

Convencem-nos, piedosos, de que não percebemos patavina de economia, de ecologia, de política, dos negócios que outorgam obviamente a nosso favor, idóneos que juram ser, no porte, na assertividade do discurso sisudo, na solenidade conferida pelos cargos que ocuparam, ocupam, e planeiam ocupar.

Como não entendemos nada de coisa nenhuma, sugerem-nos que os deixemos a eles, cuidar de nós, do nosso bem-estar e do progresso que se adivinha.

Querem-nos gado de olhar bovino e manso, todos em fila ordeira à espera de um eterno semáforo libertador.

Querem-nos quietos, calados, mutilados de sentidos, sem boca e sem nariz, não vá o cheiro a bafio do seu discurso, acordar memórias de outros tempos.

E é assim nesta paisagem quieta do país que somos, que organizam o saque sistemático, e antes da debandada, nas vésperas, tiram milhares de fotocópias, - convém sempre ser proprietário de alguma informação - assinam despachos velozes e urgentes - ao que consta 300 - e tomam medidas sérias, para que num golpe de rins conclusivo e eficiente se assegurem e progridam negócios, negociatas, favores e outros brindes adjudicados a felizes contemplados nas tômbolas de todos os poderes.

Quando descobertos, ofendem-se, gesticulam, peroram, grasnam desculpas e desmentidos, numa palavra, cretinizam-nos, os factos ali à mão de semear, e eles a assegurarem-nos de que não foi assim.

Foram assinados 300 despachos na véspera da partida, por um dos agentes daquela rapaziada que todos os dias nos entra em casa a clamar por rigor, por medidas contra o crime, contra a insegurança, contra a corrupção, contra a pobreza; estas criaturas, verdadeiros sacerdotes do populismo, contam com o torpor deste país, edificado numa indiferença genuína, a que os arquivamentos e prescrições processuais, acrescidos de ineficácias, incompetências e sabe-se lá mais o quê, dão o selo de garantia à impunidade.

Este é o país que aguentou um dos fascismos mais longos do mundo; que fez e desfez o 25 de Abril; que votou em Durão Barroso e assistiu perplexo à sua escapadela Europeia; que não votou em Santana Lopes e mesmo assim levou em cima com o desvario Santanista.

Este é o país em que Sócrates, tão vocacionado para projectos, projectou ser 1º ministro e conseguiu ser primeiro-ministro; um país que paga aos Mellos e outros bancos de lucros suspeitos o que tem e o que não tem; aqui se aconchegam os bancos nas profundezas do dinheiro e das isenções fiscais, neste país que ostenta na sua geografia de poderes sempre os mesmos cromos: avós, filhos, netos, gerações calçadas na facilidade e na opulência e também na desvergonha proteccionista do Estado, que nunca lhes vira as costas.

É neste país que um ministro assinou 300 despachos na véspera da saída, certamente pensando que como de costume nada lhe acontecerá. De facto cada época age e pensa como pode. Somos em cada tempo o que é possível ser. Mas às vezes tornamo-nos no que é impossível ou improvável.

Alice Brito

 
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