A crise financeira como bola de neve criar PDF versão para impressão
15-Fev-2008
Nuno TelesA dimensão da actual crise financeira não pára de aumentar. As últimas notícias alertam para a possível implosão de um tipo de empresas muito pouco conhecido, mas essencial ao funcionamento dos mercados financeiros, as seguradoras monoline. A principal actividade destes agentes financeiros é assegurar o valor dos títulos de dívida emitidos por outras empresas.

Ora, na ânsia de também beneficiarem com a bolha imobiliária norte-americana estas empresas começaram a "segurar" activos financeiros, altamente complexos, que incluíam hipotecas do sector de crédito imobiliário de alto risco (subprime). Com a crise destes activos, iniciada no Verão passado, as seguradoras monoline enfrentam agora perdas colossais. Mas os problemas não ficam circunscritos a estas empresas. Com a crise destas últimas, o risco associado aos activos garantidos por elas irá aumentar automaticamente, afectando a generalidade dos mercados de crédito.

A preocupante realidade das seguradoras monoline ilustra assim muito bem como funcionam hoje os mercados financeiros e os riscos neles encerrados. Graças aos processos de liberalização, desintermediação e privatização dos anos oitenta e noventa, o número de agentes e de produtos financeiros multiplicou-se. Uma maior complexidade e opacidade das transacções acompanhou assim a integração destes mercados. Só percebendo estes processos, podemos explicar como uma crise que começou num pequeno mercado de crédito - o subprime - tenha criado um grau de incerteza de tal ordem que resultou numa crise de liquidez generalizada.

Os diferentes actores destes mercados deixaram de confiar nos mercados. Entretanto, esta crise de liquidez parece já ser uma crise de solvabilidade. Nas últimas semanas, as principais instituições financeiras internacionais revelaram perdas astronómicas. Estamos, pois, perante um dominó, cujas próximas peças parecem estar na economia real. Com as condições de crédito mais dificultadas, o consumo (grande motor do crescimento norte-americano) e o investimento irão naturalmente ressentir-se. O necessário ajustamento prevê-se doloroso. Ao contrário das últimas grandes crises financeiras, situadas em espaços geográficos mais ou menos localizados (Sudoeste asiático, Turquia, Argentina, Rússia), esta crise afecta o centro da economia mundial, os EUA, e a esfera que comanda o seu destino, a finança. As implicações globais são certas.

A real gravidade desta crise é ainda difícil de diagnosticar. Contudo, face ao pouco optimista cenário, importa recuperar as propostas de regulação financeiras para o centro do combate político. Propostas como a taxação das transacções financeiras (a famosa taxa Tobin), o fim dos paraísos fiscais, a regulação da actividade dos diferentes actores financeiros e a construção de um quadro institucional internacional, democrático, estabilizador da economia mundial, ganham hoje particular relevância. Face às recentes intervenções "curativas" dos bancos centrais - injecções de liquidez e descida das taxas de juro -, é urgente impor um conjunto de regras e mecanismos redistributivos que não só previnam futuras crises, mas também quebrem o desmesurado poder que a insaciável e longínqua esfera financeira detém sobre as nossas vidas.

Nuno Teles

 
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