Noite e Nevoeiro criar PDF versão para impressão
25-Fev-2008
Alice BritoDizem os entendidos que raptar uma pessoa, e posteriormente conduzi-la a uma prisão num outro continente, é uma prática que não prima pela facilidade. Requer uma infra-estrutura básica, constituída por pequenas denúncias, delações consistentes, traições inesperadas, brutalidades metálicas, e sobretudo cumplicidades múltiplas e renovadas, a que a noite, o nevoeiro e a indecência oculta nos bastidores de alguns regimes democráticos, emprestam funcionalidade.

Nos confins do ano de mil novecentos e quarenta e um, Hitler promulga um decreto que ficará conhecido pelo - Nacht und Nebel (Noite e Nevoeiro).

Através deste normativo prescrevia-se o rápido desaparecimento dos opositores, semeados um pouco por toda a parte, naquela Europa exausta por ocupações e vilipêndios sucessivos.

O decreto era transparente: todos os que se opusessem ao III Reich deveriam ser imediatamente conduzidos a prisões situadas na Alemanha, sendo que quer a detenção, quer o transporte, operar-se-iam à noite, por forma a facilitar a inexistência de provas do desaparecimento.

O desaparecimento era, aliás, equacionado como solução que optimizaria o fim de qualquer resistência, sem a contrapartida onerosa do nascimento de heróis ou mártires a serem relembrados.

Rapto, rapidez, eficácia, noite, sigilo, silêncio, cumplicidades nebulosas, eram os condimentos básicos, do "Nacht und Nebel" procedimento, que seria mais tarde afincadamente prosseguido pelas infames ditaduras do Chile e da Argentina, também elas praticantes zelosas da indústria de desaparecidos.

Evoca-se aqui esta legislação sórdida pela simetria procedimental e material que transparece entre o que então fazia um Estado canalha e o que agora faz um outro Estado, que se auto referencia como "pátria da democracia".

Dizem os entendidos que raptar uma pessoa, e posteriormente conduzi-la a uma prisão num outro continente, é uma prática que não prima pela facilidade. Requer uma infra-estrutura básica, constituída por pequenas denúncias, delações consistentes, traições inesperadas, brutalidades metálicas, e sobretudo cumplicidades múltiplas e renovadas, a que a noite, o nevoeiro e a indecência oculta nos bastidores de alguns regimes democráticos, emprestam funcionalidade.

O resto, o que se passa no universo inseguro e atónito do raptado, é possível adivinhar: um pânico suado, o coração a crescer no peito e a estourar de presságios sempre aquém da realidade perversa que se vai cumprindo, com a pequena e a grande tortura a monitorizarem a subida de todos os patamares da agonia, calcando pontos nevrálgicos e impensáveis.

Sabe-se, portanto, que é absolutamente necessário planificar o crime: conhecer os hábitos do raptado, equacionar a hora e a situação em que o sequestro deverá ocorrer, ter uma ou várias viaturas disponíveis para o rapto, arregimentar os algozes que ficam na retaguarda, tratar de burocracia relacionada com os aviões, o espaço aéreo, as rotas a seguir, os pontos de abastecimento de combustível, as autorizações governamentais dos países amigos para as escalas, enfim, preparar um universo de detalhes cuja infalibilidade permitirá o êxito.

Difícil esta arquitectura da atrocidade. Aliás, mais trabalhosa do que propriamente difícil, se se contar com a subserviência gelatinosa de alguns países, para proceder ao abraço atlântico da tortura .

Estamos na fase agónica do Bushismo que tem inapelavelmente os seus dias contados.

Quando a Administração Americana mudar, pode ser que assistamos à espiral descendente da iniquidade, e que um dia possamos saber exactamente que países, vergonhosamente, se prestaram cônscios a estes favores.

Países que agora se fazem desentendidos e recusam a verticalidade de inquéritos sérios.

Alice Brito

 
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