O embaixador da coacção criar PDF versão para impressão
11-Set-2006

Pedro SoaresO cargo de embaixador dos EUA em Portugal está entregue a Alfred Hoffman, um dos principais agentes imobiliários da Florida, fervoroso apoiante de George W. Bush na campanha presidencial e habitual responsável das finanças de várias campanhas do Partido Republicano.
Li, incrédulo, as declarações deste diplomata a propósito dos voos e dos centros de detenção secretos da CIA, concedidas ao "Público" em entrevista publicada no passado Sábado. Seriam seguramente passíveis de investigação criminal em qualquer país civilizado, não fora o senhor Hoffman estar protegido pela imunidade diplomática e consular prevista nas convenções internacionais.

Para além da já esperada defesa da política da administração Bush de rapto, transporte em voos secretos da CIA e interrogatório em prisões também secretas de alegados suspeitos de ligações a redes terroristas, o embaixador teorizou sobre a diferença entre tortura e coacção, expressando que no primeiro caso seria ilegal, mas que coacção é prática comum nos EUA...

De facto, é comum que as autoridades judiciais determinem medidas de coacção a certos arguidos de modo a garantir o decurso do processo penal. No entanto, não é normal considerar que assédio sexual possa ser considerado coacção e não tortura, tal como defendeu o senhor Hoffman, bem como entender que as prisões deverão permanecer secretas e, consequentemente, que estes detidos fiquem sujeitos à mais abjecta discricionaridade da CIA, sem qualquer capacidade de defesa efectiva nem sequer de apoio de organizações internacionais humanitárias.

Mais extraordinário ainda é que uma das suas missões como embaixador americano é conseguir um consenso com os países europeus sobre esta matéria!

A total clareza e inteira prestação pública de todas as informações sobre os voos secretos da CIA é uma exigência com que os governos europeus devem ser confrontados pelas respectivas opiniões públicas. Estão em causa, em primeiro lugar, direitos humanos e não pode ser com total impunidade e eventual complacência, senão mesmo colaboração, de governos europeus que a administração Bush utiliza território europeu para chocar este autêntico ovo da serpente.

Não são conhecidos os critérios da escolha de uma personalidade deste nível para embaixador em Portugal. Mas, mais do que lamentar quem nos calhou na rifa, é preciso reconhecer que o senhor Hoffman é bem o espelho do pensamento da administração Bush.

 
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