António Pires de Lima e as “competências relacionais” criar PDF versão para impressão
27-Fev-2008
eduardo_pereira.jpgHá muito negócio que não se faz de acordo com as regras" e "que se agiliza de acordo com as relações" que se mantêm com os centros de decisão política, frisou o dirigente do CDS... Em conclusão, António Pires de Lima afirmou, enfaticamente, que "o poder político é uma condição fundamental para que o poder económico possa florescer". Dito assim, sem tirar nem pôr!

António Pires de Lima, dirigente nacional do CDS-PP, teve na semana passada um momento profundamente revelador. Decorria mais uma conferência do ciclo "Olhares cruzados sobre o Porto", promovido pela Universidade Católica e pelo jornal Público. Em debate estavam o desemprego e o empobrecimento da Região Norte, e o antigo vice-presidente e (até há bem pouco tempo) deputado do CDS, actual presidente do Conselho Nacional do mesmo partido e presidente da Unicer, era um dos convidados.

Este alto responsável do CDS, para além de considerar que não haverá maneira de o desemprego descer de forma sustentada durante os próximos anos, resolveu deixar alguns recados aos empresários da região Norte. Criticou-os por almoçarem "em casa ou na cantina da fábrica, enquanto os de Lisboa vão todos ao mesmo restaurante". E, para maior clareza, explicou que para os empresários é importante investir naquilo que, sofisticadamente, designou de "competências relacionais", ou seja: investir em pessoas capazes de "abrir portas" nos corredores do poder. "Há muito negócio que não se faz de acordo com as regras" e "que se agiliza de acordo com as relações" que se mantêm com os centros de decisão política, frisou o dirigente do CDS, que navegou depois ao de leve pelos temas da descentralização e da regionalização, criticando a falta de centros de decisão política na região. Em conclusão, António Pires de Lima afirmou, enfaticamente, que "o poder político é uma condição fundamental para que o poder económico possa florescer". Dito assim, sem tirar nem pôr!

Ouvimos estas declarações de Pires de Lima e lembramo-nos de algumas decisões recentes. Lembramo-nos que o edifício que hoje alberga o Casino Lisboa deverá, no final da concessão do jogo, reverter para a propriedade do grupo Estoril Sol, por força de uma alteração legislativa "cirúrgica" feita a pedido da própria Estoril Sol e decidida por Telmo Correia, ministro do CDS-PP no último governo de coligação com o PSD, num processo agora em investigação. Lembramo-nos também do chamado caso Portucale, envolvendo o abate de 2500 sobreiros e o licenciamento de um empreendimento turístico do Grupo Espírito Santo, na sequência de um despacho assinado pelo mesmo Telmo Correia e por outros dois ministros, durante a vigência do mesmo Governo, e pelo qual foram constituídos arguidos três directores do GES e três funcionários do CDS-PP, incluindo o seu director financeiro de então, Abel Pinheiro. Lembramo-nos, ainda, que o PSD foi recentemente condenado a pagar uma coima, por ter recebido um financiamento ilegal da empresa de construção Somague, durante a campanha eleitoral autárquica de 2001.

Lembramo-nos destas e de outras histórias e percebemos que as declarações de António Pires de Lima são a confissão despudorada de que uma parte importante do poder político vive hoje uma relação promíscua com o poder económico. Frequentemente, é o poder político que se subordina ao económico, quando o imperativo democrático seria precisamente o contrário. E percebemos ainda quão débil é o consenso em torno da regionalização, quando afinal constatamos que, para alguns, a regionalização será sobretudo uma forma de se aproximarem dos "corredores do poder", para mais facilmente "abrirem portas". Por certo, não é essa a regionalização de que o Norte e o país realmente precisam.

Eduardo Pereira

Membro da Assembleia Municipal de V. N. Gaia e da Assembleia de Freguesia de Vilar de Andorinho, eleito pelo Bloco de Esquerda

Opinião publicada no jornal O Comércio de Gaia

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.