Moram em Portugal ao fim de semana criar PDF versão para impressão
28-Fev-2008
João Teixeira LopesAlgumas aldeias e vilas ficam sem homens adultos durante esse tempo. O trabalho desenvolvido no âmbito do Livro Negro da Pobreza no Distrito do Porto permite-nos afirmar, com segurança, que desde 2005, último ano do período temporal anteriormente referido, esta forma de emigração aumentou consideravelmente.

Este parte, aquele parte

E todos, todos se vão

Rosalia de Castro

Durante a década de 90 convencemo-nos que deixáramos de ser uma sociedade semi-periférica, dada a tendência de convergência com alguns dos indicadores europeus e uma sensação difusa de melhoria do nível de vida. Descobrimo-nos, cada vez mais, como país pós-colonial, de imigração, onde culturas diferentes coexistiam num mesmo território, redefinindo identidades, pertenças e fronteiras simbólicas. No auge de uma série de obras de regime, assentes em grandes trabalhos de construção civil, víamos o país colorir-se de diversidade. Estaríamos, segundo alguns, a viver o fim do surto emigratório português.

Nada de mais ilusório: não só, silenciosamente, prosseguiram os fluxos de saída, como, em muitas regiões, particularmente marcadas pelas deslocalizações, pelo desemprego, pela derrocada dos modelos de produção industrial tradicional (Baixo Tâmega, Vale do Ave, Vale do Sousa...), o virar do século marca nova debandada. Os dados oficiais revelam aumentos consistentes de saídas entre 2001 e 2005 para o Reino Unido (+47%), Espanha (+40%), Suíça (+24%), Luxemburgo (+13%), mas também Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Holanda, Irlanda e Andorra.

No caso de Espanha verificam-se autênticos movimentos pendulares: os homens saem Domingo à tarde dos povoados e regressam Sexta pela madrugada, depois de uma árdua semana na construção civil, na agro-pecuária, na indústria transformadora e nos serviços de limpeza, hotelaria e restauração. Algumas aldeias e vilas ficam sem homens adultos durante esse tempo. O trabalho desenvolvido no âmbito do Livro Negro da Pobreza no Distrito do Porto permite-nos afirmar, com segurança, que desde 2005, último ano do período temporal anteriormente referido, esta forma de emigração aumentou consideravelmente.

Estas gentes não vivem no mesmo país do Engenheiro Sócrates. Não conheceram novas oportunidades, nem estágios, nem certificações. São jovens adultos, na sua maioria (apenas 30% tinham 45 ou mais anos), pouco escolarizados e sem especial qualificação profissional que prolongam e reproduzem as histórias de dificuldades dos seus pais, embora lhes tenham prometido um futuro risonho. Deles nunca o Governo fala. Não existem. São como que invisíveis. Moram em Portugal ao fim de semana. Chegam cansados e partem cedo.

João Teixeira Lopes

 
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