Mas pode ser diferente... criar PDF versão para impressão
12-Set-2006

daniel_arruda.jpgPor vezes Portugal é um país que me causa estranheza. Por tudo aquilo que é tradição. Por sermos um país de brandos costumes, do triste fado, da fatalidade, do conformismo e da inércia. Mas o que me causa mais estranheza é a ausência de iniciativa que caracteriza grande parte da nossa "intelectualidade" e da nossa classe política. De iniciativa e de originalidade. Em Portugal raramente se age. Reage-se. Reage-se ás conjunturas económicas, ás situações internacionais, aos problemas em geral. No entanto somos diariamente bombardeados pelos opinion makers e pelos pseudo empresários deste país com as questões da modernidade empresarial, de como as coisas se passam lá fora. Competitividade, pró actividade, e tantos outros chavões distribuídos gratuitamente de forma a que tudo isto pareça normal para o cidadão comum, àquele que se preocupa em sobreviver mais um mês com um salário de miséria ou um subsídio de desemprego que para o mês que vem já pode não existir. Mas mais que parecer normal é suposto parecer uma fatalidade.

Mas não é de todo uma fatalidade como o Bloco tem tentado mostrar ao longo dos tempos com diversas iniciativas parlamentares que vão desde o trabalho por turnos até ás leis de higiene e segurança no trabalho passando, como é normal e natural, pelas questões da segurança social e de tantas outras. Até hoje foi essencialmente no plano parlamentar que a actividade se fez, embora na actividade no local de trabalho também se tenha levado á prática estas propostas quer através dos activistas sindicais, quer através dos membros de CT's ou de Comissões de Higiene e Segurança no Trabalho.

No início deste mês no entanto deu-se uma viragem pois as propostas do Bloco estão definitivamente na rua, com a Marcha do Emprego. Mas não é da Marcha propriamente dita que vou falar pois já muitas linhas foram escritas sobre este tema. É mesmo sobre as reacções que esta despertou, antes de agora mesmo durante a iniciativa. De repente as questões laborais passaram a estar na ordem do dia. É a tal questão da reacção que falava no início do texto. A inércia é em Portugal, e especialmente no sector empresarial e político, desporto nacional. Por isso não se age. Para quê? É apenas necessário manter o Status Quo e promover a ideia de que as coisas são mesmo assim e deverão ser piores ainda a bem da competitividade nacional ou numa linguagem mais simples, da carteira de alguns. Por isso têm aparecido artigos e comentários nos jornais para os mais diversos gostos. Exemplos disso são as opiniões de José Manuel Fernandes no Público ou mais recentemente no Jornal de Notícias através de Camilo Lourenço em que este contesta a redução do horário de Trabalho defendida por António Chora, coordenador da CT da Autoeuropa, esquecendo-se, penso que propositadamente, que esta redução efectiva que aconteceu na Autoeuropa, salvou 800 postos de trabalho.

É esta a política que o BE defende. Uma política de criação de emprego. Este é apenas um exemplo do pânico que grassa pelas hostes dos fazedores de opinião em Portugal. Muitos mais se poderiam apontar. Por exemplo João César da Neves que, na linha de uma célebre frase de Daniel Bessa aquando das últimas eleições legislativas, afirmou que o desemprego poderia ser profilático, veio na semana passada afirmar no DN que a miséria e a falta de condições de vida poderiam ser o interruptor que faltava para que a economia do país entrasse no bom caminho, pois é nessas alturas que aprendemos a gerir melhor as nossas coisas.

Mas não se pense que é apenas no ramo empresarial e de fazedores que este pânico se manifesta. Quem assistiu ás rentrées políticas dos diversos partidos pode certamente constatar que houve um fio condutor do PSD ao PCP. Esse fio condutor foram as questões ligadas aos trabalhadores, a segurança Social á cabeça mas também e mais uma vez a competitividade foram os temas dos discursos da rentrée. Marques Mendes propôs até um pacto de regime.

Medo do Papão? Parece que sim. Afinal há na esquerda quem saiba ser inovador e pode pôr assuntos na agenda do dia. Pergunto eu então, porque não um pacto social da esquerda com os trabalhadores, estudantes e pequenos e micro empresários que levasse á queda do código de trabalho, ao fim dos supra numerários, ao aumento real dos salários, pela alteração das regras do subsídio de desemprego e contra as alterações da Segurança Social que aí vêm. Se uma Marcha pelo Emprego incomoda muita gente, um verdadeiro movimento social, despolitizado no sentido controleirista do termo, talvez pudesse pôr a nu todas as fragilidades dos sound bytes que nos têm obrigado a ouvir ao longo dos tempos. Não se pode deixar apenas nas mãos dos políticos aquilo que é uma tarefa de todos nós, porque o capital não dorme. O Capital tem muitas armas que nós povo não temos. Tem capacidade para nos brindar com pseudo associações com poder político que nós nem imaginávamos existir, como é o caso da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Património (APFIPP), e que fez manchete no DN de 2ª Feira passada, e que no essencial vem abrir caminho para as propostas de Marques Mendes apresentadas na 3ª Feira e que não são mais nem menos que um desmembramento da Segurança Social, retirando-lhes os contribuintes e enchendo os cofres de instituições privadas que não visam a coesão social mas sim o lucro fácil a qualquer preço.

O pontapé de saída está dado. Saibamos jogar este jogo numa perspectiva positiva, aglutinadora pois pelas reacções não é fácil perceber que a razão está do lado de quem trabalha, daqueles que aspiram a uma vida melhor. Eles estão com medo do papão. Só falta o povo saber que o papão é ele e que pode vencer mais que uma batalha. Pode até vencer a guerra.

 
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