Ministra sem educação criar PDF versão para impressão
05-Mar-2008
Miguel ReisValentim Loureiro ofereceu à ministra da Educação uma caravela em ouro, "para ultrapassar todas as dificuldades no alto mar em que está a viver". É um daqueles apoios que um político sério preferia evitar. Mas o estilo trauliteiro desta equipa ministerial, com Valter Lemos ao leme e Maria de Lurdes Rodrigues na proa, mostra que o elogio é merecido.

Desrespeito por decisões dos tribunais, alergia ao diálogo e à busca de consensos, fazer primeiro e perguntar depois, tudo serve na caça às bruxas movida contra os professores, o bode expiatório de todos os problemas do ensino. Mais do que uma caravela, este ministério é um autocarro sem travões que faz pontaria a tudo o que mexe. Só que desta vez têm a resposta que merecem. De Norte a Sul do país multiplicam-se os protestos de rua e o dia 8 de Março vai com certeza ficar marcado como a maior manifestação de professores alguma vez realizada em Portugal.

Essa proeza o governo não esperava e o autocarro logo começou a deitar fumo a mais. Afinal o director das escolas já pode ser um professor e a lei do ensino especial vai sofrer alterações. Pequenas coisas que querem dizer uma: precisamos de recuar mas sem perder a face, sem deixar cair a ministra e preservando o essencial das propostas. E o essencial agora é concentrar todas as energias na avaliação de desempenho dos professores.

Mas a obsessão leva à mentira. Primeiro a Ministra disse que não conhecia a ficha de avaliação que o Conselho Executivo da escola EB23 Correia Mateus de Leiria propõe que seja adoptada pelo Conselho Pedagógico, e que prevê, vejam só, nota negativa para os professores que verbalizem com os colegas as suas críticas ao sistema educativo. Confrontada com a evidência, lá veio dizer que o Conselho Pedagógico tinha recusado essa medida. Mas logo a seguir ficámos a saber que não só o Conselho Pedagógico da dita escola ainda não tinha reunido, como a Presidente do Conselho Executivo se prepara para defender aí a sua proposta, sem sequer ter sido contactada pelo Ministério da Educação. A Ministra mentiu. Mas mais do que uma mentira o que assusta é que a Ministra não se interessou pelo assunto, tratou-o com ligeireza e satisfez-se com uma explicação obtida não se sabe onde. Afinal, a defesa da liberdade de expressão nunca foi o ponto forte deste governo. E o autocarro que atropela professores e sindicatos é bem mais atencioso com quem os manda calar.

Para o governo tudo se resume à birra dos "malandros" que se fartam de avaliar alunos, mas não querem eles próprios ser avaliados. Na verdade, o governo deixou de defender o seu modelo concreto de avaliação. Não precisa ou não sabe. Porque de um lado estão os professores, que não querem ser avaliados, e do outro está o governo que quer avaliá-los. O modelo de avaliação não é para discutir, mas para ser aplicado com "tranquilidade". Quem está contra, é contra a avaliação.

Lógica perversa, mas já muito gasta: ou estás comigo, ou estás contra mim. Só que a maior parte dos professores concorda com a avaliação. São os sindicatos a dizê-lo mas também os movimentos. O que não admitem é um processo que entra a meio do ano lectivo para ser imediatamente aplicado, de forma atabalhoada e com medidas de duvidosa legalidade. E o mais grave está no conteúdo da proposta: quem tem o poder de avaliar é o director e os coordenadores de departamento que são por si nomeados, e já não eleitos, porque o governo já tratou disso com o novo diploma de gestão. Depois, imagine-se, uma teia infindável de critérios, com fichas e mais fichas, colocando os próprios professores avaliadores à beira de um ataque de nervos, pois terão que desinvestir nas suas aulas para assistirem às aulas de muitos outros. No final, a classificação de excelente só pode ser atribuída a uma percentagem muito limitada de docentes, mesmo que muitos a mereçam.

O que este governo quer fazer é tudo menos socialista. Fabricou artificialmente professores de primeira e de segunda, impede muitos professores de chegar ao topo da carreira, impõe directores todo-poderosos nas escolas e põe professores a vigiar professores. Há aqui algo de militarista, mas a motivação talvez seja mais de índole financeira, poupando-se muito dinheiro em salários. E como notou bem Ramiro Marques em entrevista ao JN , os alunos ficam a perder.

Miguel Reis 

 
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