Francisco Louçã: As lições que os professores nos dão criar PDF versão para impressão
10-Mar-2008
Francisco LouçãA resposta da ministra à manifestação de professores é muito ilustrativa da sua incapacidade em resolver qualquer problema na educação: é irrelevante o número, diz ela. Só que o número indica que dois terços dos professores de todo o país se manifestaram em Lisboa. Nunca em toda a história política moderna tinha uma profissão com esta dimensão social mobilizado a grande maioria dos seus profissionais para combater uma política.

O que a manifestação demonstrou é que a paixão da educação está nas escolas, nas professoras e professores, e que a ministra e a política do governo são o problema. Foram as escolas inteiras que estiveram na manifestação e o governo ficou isolado.

Mais: estiveram na manifestação mais membros do PS do que jamais se juntarão no comício do próximo sábado. A manifestação foi a segunda moção de censura ao governo em 2008: depois da que o Bloco levou ao parlamento, os professores trouxeram a censura para a rua.

Assim, ao procurarem o maior contacto com a população, com os pais, com os estudantes, e com todas as pessoas que sentem a crise social em Portugal, os professores demonstraram ter a capacidade de mobilização que muda os dados da política.

Importa agora encontrar o caminho para vencer o governo. Para isso, impõe-se uma plataforma de convergência de todos quantos partilham a necessidade de salvar a educação. Essa plataforma pode assentar em três exigências.

Sensatez, em primeiro lugar. O governo tem de recuar no projecto de desagregar o ensino especial, mantendo-o para todas as crianças com deficiência que exijam um acompanhamento profissional. Tem de abandonar o projecto de destruir o ensino da música, qualificando os conservatórios em vez de os abafar.

Qualificação, em segundo lugar. O governo deve ser forçado a integrar na carreira os professores contratados, que são muitas vezes esquecidos. A precariedade e vulnerabilidade destes milhares de professores é um atentado contra a escola.

Avaliação, em terceiro lugar. A avaliação tem de se fazer para responder a problemas. E o problema das escolas é o insucesso, não são os professores. Em vez de uma avaliação para perseguir os professores, do que precisamos é de uma avaliação que fixe objectivos da escola no combate ao insucesso escolar, que meça os progressos. Uma escola em que os alunos passam de 7 a matemática para 10 é uma escola que melhora e que responde às dificuldades. Mas esse projecto deve ser definido pelas escolas, mobilizando os seus professores e as suas melhores capacidades, em vez de os discriminar e atacar. Mudar a política exige vencer o governo na questão fundamental da definição do projecto do desenvolvimento da educação.

Por tudo isto, o Bloco agenda uma iniciativa legislativa que obriga o parlamento a pronunciar-se sobre a anulação do modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues. Porque não se pode aceitar que tudo fique em discussões sem consequências. Na próxima semana, a ministra responde a uma interpelação - mas uma interpelação termina sem conclusão e sem votação. Logo depois, o parlamento reunirá por uma sessão inteira por exigência do Bloco, e votará sobre a política da educação. Assim, a moção de censura dos professores chegará ao parlamento, e todos os deputados socialistas terão de ser pronunciar sobre se apoiam Maria de Lurdes Rodrigues e José Sócrates no seu projecto de perseguição aos professores, ou se ouvem a voz da democracia.

Francisco Louçã

 
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