Da ministra aos sindicatos – uma lição para todos criar PDF versão para impressão
14-Mar-2008
João Teixeira LopesParece claro que a Ministra já não existe. Todos os seus passos terão doravante uma sombra. A realidade (neste caso a gigantesca manifestação de professores) produz efeitos ficcionais (a Ministra deixa de existir) que, por sua vez, endurecem a realidade (a Ministra é um fantasma no Governo)! Complicado? Digamos então de forma brutal: a crença quebrou-se. Ninguém acredita na legitimidade deste Governo na área da Educação (como na da Saúde).

Todavia, não se pense que a manifestação interpela apenas o Governo. É verdade que os sindicatos revelaram um arguto conhecimento do difuso mal-estar docente. Estão de parabéns. Daí a «indignação»: misto de revolta, de saturação e de exigência de dignidade. Os professores voltaram a existir. Ninguém os pode ignorar no jogo social e político. Urge, por isso, que o Partido Comunista deixe de instrumentalizar os sindicatos de professores, na lógica de «purificação» e purga que apenas deixa intactos os indefectíveis. O que passa actualmente no Sindicato dos Professores do Norte, com o aparelho comunista de garras afiadas no assalto à direcção é inverso do que a manifestação demonstrou na sua alegria, abertura e largueza de horizontes. Os sindicatos perderão se reproduzirem lógicas partidárias estritas e terão tudo a ganhar se souberem por vezes comportar-se como movimentos sociais. Não há um slogan único: a rua rima com a diversidade.

Importa, além do mais, contra-atacar nas propostas. Generalização da educação de infância pública; monodocência coadjuvada através de equipas de professores (com especiais valências nas áreas artísticas) no 1º ciclo; territorialização dos curricula, com parte dos programas a serem construídos pelas comunidades locais, sem perder de vista a espinha dorsal que os unifica; planos de avaliação baseados em objectivos definidos pelas próprias escolas e agentes educativos; redução das turmas, em particular nas duas grandes áreas metropolitanas; estímulos adicionais às escolas situadas em contextos socio-económicos deprimidos; promoção da educação intercultural e multilingue, com a criação de uma rede de mediadores; redução do sofrimento dos professores através de formas criativas de ocuparem e gerirem o seu próprio tempo e espaço; dinamização da auto-organização dos estudantes; inovação pedagógica sem resvalar para o experimentalismo oco.

Acima de tudo: fomentar a participação de professores, alunos, pais e funcionários como riqueza democrática e procura de novos entendimentos. Recusar os formalismos da participação ritual, impessoal e burocrática. Ultrapassar a lógica de mercado e a deriva administrativa. Viver a escola como espaço público.

João Teixeira Lopes

 
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