A Digna Marcha da Indignação criar PDF versão para impressão
14-Mar-2008
José Maria CardosoA manifestação dos professores do passado dia 8 de Março, como que por desígnio de coincidência, dia mundial de emancipação da mulher, demonstrou que a contestação soltou-se das amarras do temor, que a indignação libertou-se em palavras de revolta e que o movimento do respeito pela nobreza de ser professor está imparável.

Desabrochou a revolução de uma classe que não admite ser humilhada nem aceita a imposição tirana de quem quer maltratar a sua paixão que é educar.

Vimos colegas que nunca pensávamos que alguma vez se estreassem nestas agitadas andanças. Descobrimos por muitos deles que nunca há idade para dizer que isso não é para a minha idade. Encontramos amigos de lições passadas com a satisfação de quem está presente. Confidenciamos amarguras de aulas incompreendidas e enaltecemos momentos compartidos. Cumprimentamo-nos com um "brilhozinho nos olhos" numa fusão de emoção, raiva e clamor. Percebemos que a força de cada um potenciava a energia de todos, mesmo dos que não estavam. Mas, acima de tudo, vivemos momentos de exaltação contagiante num sentimento de orgulho colectivo de ser professor. É esta imagem gravada na retina da vaidade que impulsiona a intenção de nunca permitir que destruam o contento da profissão. Mexeram com a nossa dignidade enquanto exercício do estímulo pessoal de ensinar, aprendendo. Tiveram a justa resposta de uma classe que se uniu por contra-maré, como que aproveitando o despótico bater da onda para avolumar o tsunami da objecção. A única virtude desta desastrada politica ministerial foi a de despertar a adversidade juntando a insatisfação. Espero que tenham aprendido a lição porque senão temos muitas mais aulas para dar e, como sempre, gostamos de cumprir o planificado.

Faça-se avaliação do que é avaliável, com quem é avaliado e com meios exequíveis para avaliar. Não podemos continuar com o cultivo da irresponsabilidade da crise permanente da escola numa espécie de laboratório fértil de experiências governamentais que lixiviam o passado, implantam o hipotético e têm fé no futuro, sem nunca se analisar o que, por que e para que, se fazem as reformas. É por isso que o nosso país, não por fatalidade ou afogo do destino, mas por um conjunto de inoperâncias que evidenciam um estado de acintosa inércia do Estado, está neste estado.

Exige-se promover uma reflexão sobre o exercício da actividade docente, sobre o que estamos ou queremos construir e sobre uma modernidade social de exigência de adaptação a novas realidades. É indispensável repensar o paradigma do professor articulando a sua formação e acção nos contextos autênticos de exercício da profissão, de modo a transformar a escola numa real necessidade de valorização global ascendente. A escola é insubstituível para o "eu" enquanto pessoa, imprescindível para o "nosso" enquanto comunidade e produtiva para todos enquanto conhecimento colectivo.

Importa agora encontrar o caminho, caminhando com passos certos e determinados numa plataforma de convergência de todos quantos partilham a necessidade de defender a educação como um garante da escola pública, democrática e inclusa. Não podemos vacilar nem aceitar as cedências circunstanciais de adiamentos temporários, as propaladas benesses do embuste da autonomia ou as intoleráveis experimentações que utilizam os professores contratados como "as cobaias" do processo.

A luta continua e é de todos e não podemos trair a digna marcha da indignação.  

José Maria Cardoso - Professor

 
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