Desigualdade: um bloqueio ao desenvolvimento criar PDF versão para impressão
15-Mar-2008
Nuno TelesA realidade do pós-segunda guerra mundial mostra que o período entre 45-73, marcado pela redução das desigualdades, foi aquele durante o qual o crescimento económico foi maior, enquanto o aumento das desigualdades nas últimas décadas foi acompanhado por taxas de crescimento medíocres. Um padrão confirmado pela comparação entre diferentes países. São os países mais desiguais os que menos crescem.

Uma das ideias recorrentes do discurso económico mais ortodoxo é a da naturalização das desigualdades de rendimento. Estas seriam o resultado natural da diferença entre aqueles que mais e melhor trabalham e das apostas ganhas por aqueles que mais arriscam. A desigualdade seria mesmo desejável. Uma desigualdade inicial superior na repartição de rendimento permitiria que os mais ricos investissem na economia, dai resultando, num futuro mais ou menos longínquo, um maior crescimento económico que, por sua vez, tenderia a beneficiar todos. Um efeito conhecido como "trickle-down". No entanto, como assinalava recentemente o economista Robert Frank em artigo no New York Times, a realidade do pós-segunda guerra mundial mostra que o período entre 45-73, marcado pela redução das desigualdades, foi aquele durante o qual o crescimento económico foi maior, enquanto o aumento das desigualdades nas últimas décadas foi acompanhado por taxas de crescimento medíocres. Um padrão confirmado pela comparação entre diferentes países. São os países mais desiguais os que menos crescem.

Não é difícil entender algumas das causas que estão por detrás destas forte correlação entre igualdade e desenvolvimento. Uma distribuição do rendimento mais igualitária, ao passar obrigatoriamente pela valorização dos rendimentos do trabalho face aos rendimentos do capital, favorece o aumento e alteração da estrutura de consumo. O consumo conspícuo, normalmente de bens importados, é reduzido em detrimento de um aumento do consumo de bens e serviços básicos promotores do tecido económico local. O resultado é uma mais robusta procura que conduzirá a um aumento do investimento e do crescimento económico.

Por outro lado, uma sociedade mais igual consegue criar mais facilmente o enquadramento institucional favorável ao desenvolvimento. Níveis de rendimento mais igualitários proporcionam um acesso mais amplo à saúde e educação, condição para uma força de trabalho motivada e capaz. Finalmente, e de acordo com um estudo publicado na American Sociological Review por dois investigadores da Universidade de Harvard, maiores níveis de desigualdade conduzem a maiores níveis de corrupção. A desigualdade, não só favorece o desequilíbrio de poder entre ricos e pobres, como corrói a crença de que as instituições fundamentais da sociedade são justas, sabotando a legitimidade social das regras instituídas. Sociedades, com elevados graus de conflitualidade, onde as instituições determinantes para o progresso económico funcionam mal, são pois o resultado.

Além de suportar taxas de pobreza dramáticas, Portugal é hoje o país mais desigual da Europa Ocidental - o quinto da população mais rico tem rendimentos 6,8 vezes superiores ao quinto mais pobre. O combate à desigualdade de rendimento, que se manifesta não só na divisão deste entre trabalho e capital, mas também na discrepância salarial, é por isso urgente. Não só como um bem em si mesmo, mas também como forma de ultrapassar a actual estagnação económica.

Nuno Teles

 
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