Cinco anos de carnificina criar PDF versão para impressão
18-Mar-2008
Rui BorgesCheney está em Baghdad para avaliar os 5 anos de presença americana no país e preparar o terreno para que esta dure muitos mais anos. Protegido pelos muros de betão armado da Zona Verde informou o mundo de que o Iraque nunca esteve tão seguro. Talvez por isso a visita, como todas as visitas dos altos dignitários americanos, tenha acontecido de surpresa.

O avião de Cheney terá eventualmente aterrado fazendo a célebre manobra do saca-rolhas, uma descida numa espiral apertada para evitar os ataques de mísseis, e a deslocação entre o aeroporto e a Zona Verde, sabe-se de fonte segura, foi feita de helicóptero. Esta nova era de tranquilidade viu ontem morrerem mais de 40 pessoas num atentado em Karbala, um pequeno número tendo em conta algumas estimativas que apontam para mais de um milhão de iraquianos mortos desde o início da guerra. O número de soldados americanos mortos chegará muito em breve aos 4 mil. Já o sofrimento que se abateu sobre o povo iraquiano será mais difícil de quantificar. Um país com as suas infra-estruturas básicas destruídas onde uma grande parte da população não tem acesso a água ou electricidade, com uma taxa de desemprego de 40%, um povo brutalizado por um quotidiano de violência e morte que já criou perto de 5 milhões de refugiados, dificilmente encaixam numa história de sucesso.

Dizem alguns dos que ainda apoiam a ocupação que é preciso ter em conta os progressos políticos do país. Há hoje no Iraque um governo eleito e um parlamento. Talvez achem abusivo dizer que o processo político iraquiano foi construído nas celas de Abu Ghraib e no massacre de Falluja. O resultado é que nesta nova democracia não se vota em ideias mas em seitas religiosas. O aparelho de estado iraquiano está nas mãos de várias máfias e tem como base de sustentação milícias e esquadrões da morte que asseguram que cada um se mantém fiel à sua seita.

Aqueles que ainda apoiam a ocupação tentarão sempre encontrar o lado positivo da carnificina. No entanto quem defende o indefensável tem muitas vezes que optar pelo silêncio ou pelo ridículo e no caso do ministério da defesa americano a escolha vai claramente para a segunda opção. No seu site oficial publicou ontem a incrível notícia de que a produção dos aviários da pequena localidade de Abu Lukah está a voltar ao seu nível pré-invasão. Uma ternura. O imperialismo é afinal feito de pequenos nadas.

Rui Borges

 
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