Radiografia da invasão criar PDF versão para impressão
20-Mar-2008
Project for the New American Century (Projecto para um Novo Século Norte-Americano)Afinal, quais foram as verdadeiras razões pelas quais os EUA invadiram o Iraque há cinco anos, na noite de 19 para 20 de Março?
... este grupo [uma coligação de nacionalistas agressivos, neoconservadores e líderes da direita cristã] viu o Iraque como o caminho mais fácil para estabelecer os Estados Unidos como a potência dominante na região, com implicações estratégicas de carácter global para possíveis futuros competidores.
Análise de Jim Lobe, publicado pela IPS


Segundo a história oficial, abandonada há muito, o programa de armas de destruição maciça do regime do presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003) e a possibilidade de que as cedesse à rede terrorista Al Qaeda era uma ameaça para os Estados Unidos e os seus aliados.

Jamais se encontrou a menor evidência sobre a existência dessas armas.

Outra teoria menciona o desejo de libertar o Iraque da sangrenta tirania de Saddam Hussein, criando assim um irresistível precedente democratizador que se propagaria por todo o mundo árabe.

Esta linha de argumentação foi adoptada pelo governo do presidente norte-americano, George W. Bush, quando se tornou evidente que a história oficial era insustentável. Este enfoque parece ter sido a obsessão do hoje ex-subsecretário da Defesa Paul Wolfowitz.

Outras explicações preferem concentrar-se na enigmática psicologia de Bush, particularmente no que diz respeito à relação com o seu pai, o ex-presidente George Bush (1989-1993).

Alguns crêem que quis envergonhá-lo por não ter tomado Bagdade em 1991, após a fulminante vitória contra Saddam Hussein na guerra do Golfo, motivada pela invasão iraquiana do Kuwait, um pequeno emirato rico em petróleo e amigo dos Estados Unidos.

Outros dizem que quis "terminar o trabalho" não concluído pelo seu pai e há quem pense que procurou vingar a suposta tentativa de assassinato contra o ex-presidente planificada pelo regime iraquiano após a derrota, ainda que a verosimilhança de tal complot seja altamente questionável.

Não deveria abandonar-se completamente esta explicação. Bush assegurou que foi ele quem tomou a decisão final e, por outro lado, nenhum funcionário de alto nível do seu governo foi capaz de explicar quando, e muito menos por que, se deu luz verde à invasão do Iraque.

Há a questão do petróleo. Actuou o governo de Bush em nome da indústria petrolífera, desesperada por pôr as suas mãos no crude iraquiano, o que não podia fazer por causa das sanções económicas que proibiam as companhias norte-americanas de fazer negócios com Bagdade?

É uma teoria atractiva.

Bush e o vice-presidente Dick Cheney tiveram durante anos uma relação muito estreita com os "barões do petróleo". Nas suas memórias, o ex-presidente da Reserva Federal (banco central) dos Estados Unidos, Alan Greenspan, assegurou que a "a guerra do Iraque teve muito que ver" com o crude.

A esquerda é o sector mais inclinado para esta explicação, particularmente aqueles que converteram em sua favorita a consigna de não derramar sangue em troca de petróleo.

No entanto, existe escassa evidência, ou nenhuma, sobre o interesse das grandes petrolíferas numa guerra que se decidiu de forma unilateral e que corria o risco de desestabilizar a região do mundo mais rica em hidrocarbonetos, onde se encontram aliados dos Estados Unidos como a Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos.

O instituto da Universidade Rice que tem o nome do ex-secretário de Estado dos EUA, James Baker III, um homem que representou e encarnou os interesses petrolíferos durante toda a sua vida, formulou uma clara advertência antes da invasão do Iraque.

Se Bush tinha que enviar tropas para o Iraque, qualquer que fosse a razão, assinalou, devia de qualquer forma abster-se de o fazer a menos que se cumprissem duas condições: que a acção fosse autorizada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e que nada sugerisse que o motivo fosse a aquisição do crude iraquiano por parte das petrolíferas norte-americanas.

Isto não implica dizer que o petróleo esteve fora dos cálculos do governo de Bush, mas num sentido muito diferente ao sugerido pela consigna de não trocar sangue por hidrocarbonetos.

O petróleo, no fim de contas, é indispensável para o funcionamento das economias e das forças armadas modernas.

E a invasão enviou uma mensagem clara ao resto do mundo, especialmente a potenciais rivais estratégicos como a China, a Rússia e até a União Europeia, sobre a capacidade dos Estados Unidos para conquistar, quando o desejar, rápida e eficazmente um país rico em petróleo no coração do Médio Oriente e no Golfo Pérsico (ou Arábico).

Dessa forma, talvez persuadisse essas potências menores de que desafiar os Estados Unidos atentaria contra os seus interesses de longo prazo, mesmo que não afectasse o seu abastecimento de energia no curto prazo.

O desenvolvimento desse poder poderia ser a forma mais rápida de formalizar uma nova ordem internacional, a de um mundo unipolar, baseada na esmagadora superioridade militar dos Estados Unidos, sem paralelo desde os tempos do Império Romano.

Esta visão foi a que alimentou, em 1997, o Projecto para um Novo Século Norte-Americano, obra de uma coligação de nacionalistas agressivos, neoconservadores e líderes da direita cristã que incluía nas suas fileiras vários então futuros funcionários do governo de Bush.

Já em 1998 colocaram a necessidade de uma "mudança de regime" no Iraque e, nove dias depois dos ataques em Nova Iorque e Washington de 11 de Setembro de 2001, advertiram que qualquer "guerra contra o terrorismo" que deixasse de lado a eliminação de Saddam Hussein seria inevitavelmente incompleta.

Em perspectiva, fica claro que este grupo, fortalecido pelo triunfo eleitoral de Bush em 2000 e consolidado após os atentados de 2001, viu o Iraque como o caminho mais fácil para estabelecer os Estados Unidos como a potência dominante na região, com implicações estratégicas de carácter global para possíveis futuros competidores.

Para os neo-conservadores e a direita cristã, os mais ansiosos e entusiastas a respeito da guerra contra o Iraque, Israel também seria beneficiado pela invasão.

Os representantes da linha dura neo-conservadora já tinham assinalado num documento de 1996 que derrubar Saddam Hussein e instalar no seu lugar um líder pró-ocidental era a chave para desestabilizar os inimigos árabes de Israel ou de submetê-los à sua vontade.

Isto, argumentaram, permitiria a Israel "escapar" do processo de paz no Médio Oriente e conservar o território ocupado palestiniano, e sírio, que desejassem.

Na sua opinião, eliminar Saddam Hussein e ocupar o Iraque não só fortaleceria o controlo dos territórios árabes por parte de Israel, mas também ameaçaria a sobrevivência da arma árabe e islâmica mais formidável contra o estado judeu: a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Ao inundar o mercado com petróleo iraquiano, liberto das quotas de produção fixadas pela OPEP, o preço dos hidrocarbonetos cairia a pique para os seus níveis históricos mais baixos.

Pelo menos, assim pensavam há cinco anos atrás.

 
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