O medo é ridículo, o medo é fogo posto criar PDF versão para impressão
23-Mar-2008
Natasha NunesEnquanto a violência grassa pelo Tibete, o PCP encolhe os ombros. Segundo o seu secretário-geral: "Está cada vez mais claro que estes incidentes têm como objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos".

Os disparos, as detenções e a tortura de que têm sido alvo os defensores da autonomia do Tibete nos últimos dias não são novidade. Desde o início da ocupação em 1959 até à actualidade que os meios de comunicação social e as organizações não governamentais, com acesso ao terreno ou às informações vindas da diáspora, divulgam a brutalidade e a boçalidade com que as autoridades chinesas cuidam dos oposicionistas tibetanos a que conseguem lançar a mão. No que concerne aos protestos recentes, tanto a existência de feridos como a ocorrência de mortes entre os civis manifestantes foram até já reconhecidas por Pequim.

Porém, enquanto a violência grassa pelo Tibete, o PCP encolhe os ombros. Segundo o seu secretário-geral: "Está cada vez mais claro que estes incidentes têm como objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos". Nem numa altura em que diversas vozes da comunidade internacional aproveitam a crise de Lhasa para intimar Hu Jintao a encarar de frente a questão da privação de liberdade de expressão na China o PC tem uma palavra sobre direitos humanos no território, uma posição sobre o perene desrespeito pelos direitos humanos, que tem sido característica do regime em causa. Ao invés, mantém a apologia duma governação que, de comunista, para além do nome, só tem mesmo a rememoração dos mais trágicos erros do socialismo real. Seria inverosímil se fosse inédito. A questão é que não é. Aquando dos acontecimentos de Tianamen a não resposta foi a mesma. Ipsis verbis. Entre 1989 e 2008 parece ter-se ficado pelo mesmo.

Infelizmente. Porque uma esquerda que se quer avançada não pode ficar acantonada nas leituras estáticas do tempo histórico nem se pode dar ao luxo de ignorar que o combate contemporâneo pelo socialismo requer abertura, coragem e ousadia. Porque a contenda pela igualdade não se esgota na reivindicação pela democracia económica, pelo contrário, acentua-se quando se compromete com as causas justas e com as lutas emancipatórias dos outros. Não pode fechar os olhos perante a iniquidade explícita da governação chinesa só porque ela se denomina a si própria de comunista em epíteto.

Natasha Nunes

 
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