A memória há-de ladrar-lhes… criar PDF versão para impressão
25-Mar-2008
Alice BritoA memória há-de ladrar-lhes ao ouvido, as recordações da guerra do embuste.
A consciência enluvada, protegida com a alegação de necessidades imperiosas e maciças para o bem da humanidade, há-de sentir cãibras dolorosas, num encolhe e distende alarve e descontrolado.

A memória há-de uivar-lhes num latido sinistro, as centenas de milhares de mortos que hão-de mirá-los com a lentidão do seu amplo olhar acusador.

É assim o olhar dos mortos, lento, pasmado, sussurrante, envolto na névoa do ressentimento pelo fim da vida, um fim gratuito, indecente, feito de ossos a voarem e de crateras a abrirem-se nos tecidos vivos que compõem os corpos com a alma a chocalhar lá dentro.

Os que se encontraram nas Lajes há 5 anos declaram hoje, enfáticos, não estar arrependidos.

A memória do descalabro criminoso desta guerra com a sua galeria de milhões de famintos, desalojados e deslocados feriu-lhes há muito o élan da cenografia açoriana que as câmaras cúmplices difundiram, soltando imagens da aliança entre chacais, mandatários de poderes pesados.

Nelas pontificaram Bush, os olhos pequenos e néscios a emprestarem crueldade ao sorriso apatetado, Tony Blair a envergar a eterna cara estanhada e alma blindada à prova de decência e de compaixão, Aznar e o seu bigode, vestindo a pose corajosa de forcado em fuga e finalmente o mordomo, íntimo, aberto, a espinha vergada sob o peso da bandidagem circundante, mais papista que qualquer papa de segunda ou de terceira, tanto faz, jurando ter visto, quem sabe cheirado, talvez apalpado ou até provado, as armas de destruição maciça, que Saddam, a quem o mesmo mordomo cerimonial e correcto havia vendido toda a espécie de armas, detinha, escondia, possuía.

A memória há-de picar-lhes os dias que hão-de vir, e há-de estar constantemente à espera deles, abatendo-se depois torrencial como uma tempestade maldosa e traiçoeira, a inquinar-lhes todas as horas.

A memória há-de ladrar-lhes aos ouvidos, fazendo eco das bombas que caíram e caiem desamparadas estropiando vidas, retirando do abrigo e quietude das casas famílias inteiras em debandada, promovendo a morte de crianças, esfaceladas e horrendas, que medo metem as crianças mortas no Iraque.

A memória, a nossa memória, há-de ranger-lhes os dentes. Contra ela, nada podem as toneladas de sintaxe dos seus discursos, as declarações de não arrependimento, a arrogância mole das Condoleezzas, dos Rumsfeld, dos Powell e outros, tantos, que se sentaram à mesa do bacanal da morte.

A memória, a nossa, há-se um dia acabar-lhes com a festança das vidas fáceis e colocá-los definitivamente do lado de lá da História que até agora tem encolhido os ombros, permitindo a barbárie.

Alice Brito

 
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