A Páscoa da direita criar PDF versão para impressão
25-Mar-2008
Cecília HonórioA escola é ciclicamente tratada como um lugar de violência pela comunicação social... Mas podia-se ter aproveitado o evento para discutir o que vale a pena: para saber do que se está a falar quando se fala de indisciplina e de violência, que não são a mesma coisa, por exemplo; para perceber que as escolas precisam como pão para a boca de equipas multidisciplinares e em rede, de turmas mais reduzidas nas áreas metropolitanas, de desfazer os guetos sociais e culturais...

A violência em meio escolar é um mito pegajoso que deixa nódoas em toda a gente, alunos, professores, famílias... Para que serve, então?

De que vale repetir o que os estudiosos da matéria dizem?[1] De que vale o aviso para os riscos destas imagens das escolas como meios violentos? Riscos de descrédito para a imagem social da escola e dos professores.

O que importa que os dados do programa Escola Segurança, acompanhados pelo Observatório de Segurança das Escolas, revelem uma redução relevante do número de ocorrências no ano lectivo de 2006/2007 face ao ano lectivo anterior?

De que vale a realidade? De repente, estamos na Páscoa, os governantes vão de férias, e parte do povo também, e o país desperta com a cena de pancadaria entre uma professora e uma aluna. O CDS vibra de excitação, o PSD responsabiliza o governo que trata mal os professores, os neo-ideólogos da educação mandam postas de pescada e a Confap vem lembrar aos pais que devem dar educação aos filhos... Nesta curta estação dos parvos, o argumentário foi à altura.

O que é que a larguíssima maioria de professores pensa quando vê as imagens? Comigo, isto não acontecia.

Sérgio Niza diz que não conhece criança ou jovem que, tratado com respeito, não respeite. É verdade. Mas entenda-se, mesmo que a adolescente em causa desconheça em absoluto o que isso do respeito seja, há no filme muitas cartas fora do baralho, e não existe nem Estatuto do Aluno nem Regulamento Interno de escola que permitam que professores e alunos aprofundem o contacto físico por conta de um telemóvel.

A cena é feia, é certo, e ultrapassa todos os procedimentos previstos nestas situações, também é certo. A escola é ciclicamente tratada como um lugar de violência pela comunicação social, como as estações do ano, já se sabe. Mas podia-se ter aproveitado o evento para discutir o que vale a pena: para saber do que se está a falar quando se fala de indisciplina e de violência, que não são a mesma coisa, por exemplo; para perceber que as escolas precisam como pão para a boca de equipas multidisciplinares e em rede, de turmas mais reduzidas nas áreas metropolitanas, de desfazer os guetos sociais e culturais que trazem de fora ou que elas próprias reproduzem, por exemplo. Certo é que o que importa não se discutiu.

Mas a quem é que isto serve, então? Aos professores e professoras não serve e à escola pública democrática menos ainda. Depois de diabolizados pela Ministra são agora coitadinhos açoitados pelos jovens monstros? Esta não é a sua realidade quotidiana nem o maior dos problemas que têm em mãos.

A coisa servirá ao Ministério da Educação para mostrar que estava no bom caminho com o autoritarismo sancionado pelo novo Estatuto do Aluno, que vai bem mais longe neste campo que o Estatuto do Aluno da lavra do PSD? Pelo menos, eles voltaram a aparecer. Valter Lemos e a Ministra tiveram, aliás, um momento único, a uma voz.

O mito é isto mesmo, falsificação. Aqui, ela assenta numa pretensa fractura entre a direita intolerante com a violência e a esquerda permissiva. E se o vídeo e o folclore que se lhe seguiu serviram para alguma coisa foi para a Páscoa política da direita. A direita que sonha que o cheque ensino e a liberdade de escolha das escolas acabarão com a violência porque os meninos maus serão, naturalmente, separados dos meninos bons, e acabarão por se auto-exterminar...

Cecília Honório



[1] Por exemplo, os trabalhos de João Sebastião, Ana Tomás de Almeida, Joana Campos, entre outros, são referências incontornáveis.

 
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