Eólicas em Lisboa – Caso-estudo para Marketeers da política moderna criar PDF versão para impressão
28-Mar-2008
Bernardino ArandaDescrevi no meu último artigo como o EXPRESSO fez uma notícia de primeira página baseada em premissas erradas.
Para quem não leu, basicamente dizia-se que Lisboa iria ser povoada de torres eólicas gigantes - daquelas que se vê da A8 - e dava-se voz à oposição que naturalmente se alarmava com o projecto megalómano.

Esclareci eu que não se tratavam dessas torres, mas sim de micro-eólicas, sem impacto visual maior do que um candeeiro de iluminação com uma ventoinha na ponta.

O Gabinete Municipal do Bloco de Esquerda, explicou em demoradas reuniões, com todas as forças políticas, de que este era apenas um evento de sensibilização ambiental: iriam ser colocadas entre 6 a 15 destas micro-eólicas, durante cerca de 6 meses, em locais criteriosamente indicados pelos serviços da câmara para que, apesar de tudo, o ruído da ventoinha incomodasse o mínimo possível. Locais onde o ruído ambiente é já superior ao que esta micro-turbina alguma vez poderá realizar.

Foi também informado que a empresa que promove o evento, pagaria todas as despesas e pagaria todas as taxas de ocupação de via pública.

Finalmente, explicou-se que a empresa iria suportar um road-show pelas escolas de Lisboa, com conteúdos desenvolvidos pelo município em parceria com a Quercus, para sensibilizar as crianças para a questão das energias renováveis. Ao mesmo tempo, para os adultos, iriam realizar-se duas conferências sobre energias renováveis e micro-geração.

A recepção das outras forças políticas foi muito boa. O projecto foi elogiado, foi reconhecido que se pensava que se tratavam de torres eólicas gigantes e António Eloy - colaborador próximo de Helena Roseta - foi mesmo "mais avançando" e sugeriu que se instalasse de facto uma torre eólica no Parque Florestal de Monsanto.

Só na própria reunião de câmara, nos apercebemos sem margem para dúvidas que a proposta iria chumbar.

Não é preciso ser nenhum génio para perceber que o problema não era o ruído, ou o impacto visual, ou o facto de tudo ser pago por uma empresa (não se pôs, por exemplo a maior árvore de natal da Europa, paga pelo BCP, no Terreiro do Paço?); o problema não era com o conteúdo do evento, nem tão pouco - obviamente - com uma posição ideológica contra as energias renováveis. O problema era ser uma proposta de José Sá Fernandes e do Bloco de Esquerda.

O falacioso artigo do Expresso gerou toda uma catrefada de comentários e opiniões, em blogues e jornais, contra "mais uma loucura do Zé e do Bloco", contra as supostas torres que se querem montar no topo das colinas e que vão tornar a vida dos lisboetas num inferno de ruído. Essa onde mediática deu o sinal aos políticos que reduziram a politica àquilo que sai nos jornais: a proposta era para chumbar.

Numa manobra arriscada, de quem não se conforma, com o chumbo de uma simples mas importante proposta de sensibilização ambiental, por motivos tão "politiqueiros", retirámos a proposta, como tantas vezes aliás, acontece em reuniões de Câmara... E Sá Fernandes lembrou que na verdade, pela natureza da proposta, esta nem sequer carecia de ser aprovada pela câmara, pois estava no âmbito das suas competências.

Caiu o Carmo e a Trindade. A câmara da RTP que estava presente puxou pela teatralidade do momento: Ruben de Carvalho rasgou as vestes. O pior atentado à democracia de todos os tempos! Nunca durante todo o mandato de Carmona Rodrigues, com tudo o que aconteceu, vi o PCP tão exaltado como neste "dramático" caso das 15 micro-eólicas. O PSD, por seu turno, abandonou a sala. O referido António Eloy fala no seu blogue em "trapaça democrática" e "golpada", que "prejudicará seriamente o Bloco, conforme responsáveis do mesmo já me manifestaram em privado".

O gabinete municipal do Bloco, emitiu ontem um comunicado de imprensa a informar que se iria estudar um novo modelo de concretização da ideia, tendo em conta os contributos que foram apresentados pelas várias forças políticas.

Bernardino Aranda

 
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