Por trás do telemóvel do Carolina Michaëlis criar PDF versão para impressão
28-Mar-2008
Eduardo PereiraA defesa da escola pública como local de formação académica, de sociabilização e de desenvolvimento da cidadania, obriga a procurar estratégias novas para desafios novos. Não é fácil, mas é esse o esforço que a democracia exige e ao qual se dedicam muitos professores, alunos, funcionários e encarregados de educação, que combatem o preconceito.

Confesso a minha incomodidade perante as reacções causadas pela divulgação do vídeo no qual uma aluna de 15 anos exigia a uma professora que esta lhe restituísse o seu telemóvel.

Que a aluna em causa se excedeu, perdendo qualquer razão que de início pudesse eventualmente ter, é algo que não merece contestação. Que o seu comportamento (e o de grande parte da turma) foi censurável, é algo que ela própria já reconheceu. O meu incómodo começa quando constato que, a muitos opinadores de serviço, estas evidências bastaram para embarcar numa cruzada contra aquela aluna (houve quem viesse exigir a sua expulsão da escola e até quem lhe chamasse "delinquente" e "criminosa"!), sem sequer cuidar de saber tudo o que é anterior ao início do tal vídeo e que seria importante para perceber como um conflito sobre um telemóvel pôde descambar naquilo que todos vimos. Havia ou não um historial de conflito entre aquela professora e aquela turma e, em particular, aquela aluna? O telemóvel estaria a perturbar a atenção de toda a turma, ou apenas da aluna em causa? Ou, talvez, apenas perturbasse a atenção da professora? Como foi que o telemóvel, que a aluna tão ciosamente protegia, chegou às mãos da professora? Terá sido apreendido à força? São pormenores, claro. Mas há quem diga que é neles que se escondem Deus e o Diabo.

O meu incómodo cresce ao constatar como, a mesma ignorância sobre pormenores que permite a demonização da aluna, é usada para, inversamente, inocentar a professora de qualquer possível erro. Quando o desconhecimento leva alguém a tomar partido por uma das partes de um conflito, isso tem um nome: chama-se preconceito. No caso, o preconceito (infundado e injusto para todos os envolvidos, como os preconceitos sempre usam ser) é o de olhar a escola pública como um local disfuncional, onde imperam apenas a violência, o facilitismo e a incompetência. Nesta cacofonia, ninguém ouviu as vozes avisadas que lembraram como um telemóvel é hoje um objecto pessoal e íntimo para muitos adolescentes ("quase uma extensão do próprio corpo", ouvi alguém afirmar numa televisão); ninguém se lembrou que a adolescência é sempre impelida a testar os limites das regras que lhes impõem; nem ninguém se questionou sobre a possível relevância do facto de a professora em causa ter passado os últimos anos (quantos?) sem funções docentes. Pormenores, sempre pormenores.

O meu incómodo é, enfim, total, perante a instrumentalização deste episódio por parte dos partidos de direita, que clamam pela autoridade dos professores e pelo respeito que lhes é devido e assim procuram reforçar a sua campanha por uma escola mais repressiva, mais autoritarista e menos democrática. A partir daqui, não abordo mais o caso passado na escola Carolina Michaëlis, precisamente porque recuso a sua instrumentalização. O respeito que me merecem todos os intervenientes no caso, assim me obriga. Mas a estratégia da direita obriga a lembrar algumas coisas básicas. Na verdade, a autoridade do professor não é, hoje, um princípio que se baste a si mesmo, mas sim algo que nasce do reconhecimento, por parte dos alunos, da razoabilidade e da competência do professor. Na eventual ausência destes pressupostos, questionar civilizadamente a autoridade do professor seria uma atitude de cidadania que a escola deveria saber reconhecer. Quanto ao respeito, é uma estrada de dois sentidos: para se ser respeitado, é preciso começar por respeitar. E nenhuma estratégia repressiva substitui o esforço de entender a origem dos conflitos para os poder mediar. A defesa da escola pública como local de formação académica, de sociabilização e de desenvolvimento da cidadania, obriga a procurar estratégias novas para desafios novos. Não é fácil, mas é esse o esforço que a democracia exige e ao qual se dedicam muitos professores, alunos, funcionários e encarregados de educação, que combatem o preconceito.

Eduardo Pereira

Membro da Assembleia Municipal de V. N. Gaia e da Assembleia de Freguesia de Vilar de Andorinho, eleito pelo Bloco de Esquerda
Opinião publicada no jornal O Comércio de Gaia

 
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