Publicidade ao álcool no desporto: um bom princípio ou um bom negócio? criar PDF versão para impressão
03-Abr-2008
José SoeiroA AR aprovou por unanimidade uma resolução, apresentada ao tempo por Durão Barroso, sobre a prevenção do alcoolismo que falava sobre a necessidade de se impedir a publicidade ao álcool no desporto. Todos consideraram um bom princípio. Mas quando se tratou de votar uma proposta do Bloco para concretizar esse impedimento, quase todos recuaram: não se podia perturbar o negócio.
Decidimos agora insistir nessa proposta. Porquê?

Sempre gostei de beber umas cervejas com os amigos. Nesse aspecto, sou dos que acham que até os excessos fazem parte da vida. Em relação às drogas - o álcool como o tabaco, o café como o haxixe - devemos ter toda a informação, todas as garantias de segurança sobre o que consumimos e toda a responsabilidade de saber o quê, quando e como consumimos. Isso significa que devemos, simultaneamente, rejeitar o proibicismo (que clandestiniza o consumo e proíbe a informação) e olhar de frente para as questões de saúde pública, rejeitando a manipulação.

Neste ponto, distinguimo-nos bem do liberalismo conservador. Este impõe uma moral e vive demasiado bem com a hipocrisia. Faz grandes declarações sobre a "droga" e o "alcoolismo" mas as políticas públicas só podem ir até onde começa o negócio. É aí que se traça, para os liberais, o limite de qualquer bom princípio. Por exemplo: a Assembleia da República aprovou por unanimidade uma resolução, apresentada ao tempo por Durão Barroso, sobre a prevenção do alcoolismo que falava sobre a necessidade de se impedir a publicidade ao álcool no desporto. Todos consideraram um bom princípio. Mas quando se tratou de votar uma proposta do Bloco para concretizar esse impedimento, quase todos recuaram: não se podia perturbar o negócio.

Decidimos agora insistir nessa proposta. Porquê?

A publicidade joga com as nossas sensações, representações mentais e mecanismos de associação. Quando consumimos um produto não consumimos apenas o produto, mas todos os significados que lhe associamos. O que acontece com o álcool e o desporto é que as cervejeiras querem associar o seu produto à identidade nacional - que tem na selecção de futebol, como sabemos, o seu mais adorado símbolo - e à imagem saudável dos desportistas, porque sabem que essa é uma forma de anular algumas características menos interessantes do produto e um meio eficaz para induzir consumo. O tabaco, aliás, faria o mesmo: pôr as marcas de cigarros nas camisolas da Selecção seria uma forma eficaz de associar o tabaco àqueles heróis, que são ainda por cima um símbolo de saúde e capacidade física. Acontece que o tabaco não pode fazê-lo, por razões que se percebem, motivo pelo qual concentrou as suas atenções e recursos na Fórmula 1.Faz todo o sentido a publicidade ao tabaco ser proibida - como é inquestionável que todos aqueles que querem fumar devem poder fazê-lo livremente.

Quando, em 2004, o Bloco propôs esta medida, ela foi rejeitada com o argumento de que poria em causa o Euro. Laurentino Dias, actual Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, falava da necessidade do dinheiro do álcool para financiar o desporto, mas não deixava de assumir que se tratava de um princípio razoável aquilo que o Bloco propunha. A maioria contornou então o assunto mudando o Código da Publicidade timidamente: a publicidade ao álcool associada ao desporto seria proibida em eventos desportivos onde os menores participassem. Ou seja, tudo se mantinha exactamente na mesma, no que aos grandes clubes e à selecção diz respeito. Em relação aos outros limites, as cervejeiras arranjaram uma forma de contornar a lei: se é proibido ter anúncios fora de determinado horário, por exemplo, anuncia-se então uma cerveja sem álcool que faz, na verdade, publicidade à marca.

Em geral, o argumento contra a proibição da publicidade ao álcool no desporto é hipócrita e covarde. Hipócrita porque num país com os problemas associados do alcoolismo que o nosso tem, todos percebem a necessidade de se dissociar o álcool do desporto e de limitar a manipulação publicitária, mas os que mais apocalipticamente o dizem são os que se encolhem nestas alturas. Covarde porque a única razão para não fazê-lo tem a ver com o peso económico do lobby das cervejeiras. Mas, neste ponto, já sabíamos o essencial. Por mais que declarem ser um bom princípio, PS e PSD estão sempre dispostos a trocar um bom princípio por um bom negócio. Essa é, aliás, a sua natureza.

José Soeiro

 
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