A nova geração de biocombustíveis é outro desastre ambiental criar PDF versão para impressão
19-Abr-2008
Carro movido a etanol. Foto de Jeffrey Beall, FlickrPara além da regeneração de óleos alimentares usados, não existem biocombustíveis sustentáveis. Mesmo a fonte mais produtiva - o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil central - cria uma dívida de carbono que leva 17 anos a ser paga.

Por George Monbiot, publicado originalmente no Guardian


Um relatório publicado a semana passada pelo Citibank, e até agora ignorado pelos média, refere as "genuínas dificuldades" de aumentar a produção do petróleo, "particularmente após 2012"1. Apesar de estar previsto, nos próximos quatro anos, o início de 175 grandes projectos de extracção, "permanece o medo de que a maioria desta nova oferta seja contrabalançada por elevados níveis de declínio". A indústria do petróleo tem ridicularizado a noção de que a oferta de petróleo já tenha chegado ao máximo, mas "recentes evidências da incapacidade de aumentar a produção tendem a mudar o ónus da prova aos produtores", à medida que eles se mostram incapazes de responder ao brutal aumento de preços. "A produção global de hidrocarbonetos essencialmente decaiu desde meados de 2005, ficando na linha dos 85 milhões barris por dia".

A questão é complicada, como sempre, pela recusa do cartel da OPEP de aumentar a produção. O que mudou, diz o relatório, é que os países fora da OPEP já não conseguem responder aos sinais dos preços. Significa isto que a produção de petróleo nesses países já atingiu o seu pico? Se é assim, o que pretendem os nossos governos fazer?

Há nove meses, pedi ao governo britânico que me enviasse a sua avaliação das reservas globais de petróleo. Os resultados surpreenderam-me: não há nenhuma2. Ele baseava-se exclusivamente numa só fonte externa: o livro publicado pela Agência Internacional de Energia. A omissão tornou-se estranha, mesmo quando li o livro e descobri que se tratava de uma áspera polémica, dizendo que aqueles que questionam o futuro das reservas de petróleo são fatalistas que não mostram evidências robustas para apoiar as suas conclusões3. Apesar de os membros da OPEP terem um grande interesse de exagerar as suas reservas para aumentar as suas quotas, a AIE confiou nas avaliações que eles apresentam sobre as reservas futuras.

Na semana passada tentei de novo e recebi a mesma resposta: "o governo concorda com as análises da AIE de que as reservas globais de petróleo (e de gás) são suficientes para sustentar o crescimento económico para o futuro próximo."4 Talvez não tenham notado que a AIE está agora a recuar. O Financial Times diz que a agência "admitiu que tem prestando insuficiente atenção às restrições da oferta uma vez que crescem as evidências de que o petróleo está a ser descoberto mais lentamente do que se esperava... as taxas de declínio natural para os campos descobertos são um segredo bem guardado da indústria do petróleo, e a AIE está preocupada de que os dados de que dispõe actualmente não estejam actualizados."5. E se os dados se demonstrarem errados? E se as reservas confirmadas pela OPEP forem mentira? Que planos de contingência tem o governo? Não há respostas.

A Comissão Europeia, pelo contrário, tem um plano; mas este é um desastre. Reconhece que a "dependência do sector dos transportes em relação ao petróleo... é um dos problemas mais sérios da insegurança de oferta de energia que a UE enfrenta"6. Em parte para diversificar as fontes de combustível, em parte para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa, ordenou aos Estados-membros que garantam que, em 2020, 10% do petróleo queimado pelos nossos carros seja substituído por biocombustíveis. Isto não vai resolver a questão do esgotamento do petróleo, mas pelo menos vai por a questão em perspectiva, ao causar um problema ainda maior.

Para ser justo com a Comissão, ela reconheceu agora que os biocombustíveis não são a panaceia verde. O seu projecto de directiva estabelece regras para que os biocombustíveis não sejam produzidos através da destruição de florestas primárias, pastagens antigas ou zonas húmidas, uma vez que isto poderia provocar um aumento líquido das emissões de gases de efeito de estufa. Nem qualquer ecossistema rico em biodiversidade deve ser danificado para os fazer crescer7.

Parece bem, mas há três problemas. Se os biocombustíveis não podem ser produzidos em habitats virgens, têm de ser confinados à terra agrícola existente, o que significa que todas as vezes que abastecemos o carro estamos a tirar comida da boca das pessoas. Isto, por sua vez, aumenta o preço dos alimentos, o que encoraja os agricultores a destruir os habitats primitivos - florestas primárias, pastagens antigas, zonas húmidas e o resto - para cultivar mais alimentos. Podemos congratular-nos por permanecer moralmente puros, mas os impactos são os mesmos. Não há saída para isto: num planeta finito com reservas de alimentos apertadas ou se compete com os esfomeados ou desbrava-se novas terras.

O terceiro problema é que a metodologia da Comissão acabou de ser destruída por dois novos estudos. Publicados na revista Science, eles calculam os custos totais de carbono da produção de biocombustíveis8 9. Quando a alteração do uso do solo (directa ou pela substituição da produção de alimentos) é levada em conta, todos os principais biocombustíveis causam o aumento maciço de emissões.

Mesmo a fonte mais produtiva - o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil central - cria uma dívida de carbono que leva 17 anos a ser paga. Como as maiores reduções de carbono devem ser feitas agora, o efeito líquido desta cultura é exacerbar as alterações climáticas. A pior fonte - a substituição da floresta tropical em zonas húmidas pelo óleo de palma - tem uma dívida de carbono de cerca de 840 anos. Mesmo quando se produz etanol do milho cultivado na "parte de pousio" da terra arável (o que na UE é chamado de set-aside e nos EUA de reserva de conservação), leva 48 anos a reparar a dívida de carbono. Os factos mudaram. Vai a política segui-los?

Muita gente acredita que há uma forma de evitar estes problemas: fazendo os biocombustíveis não das próprias culturas, mas dos seus resíduos. Se o combustível para transporte pode ser feito a partir de palha ou erva ou lascas de madeira, não há implicações para o uso do solo e não há o perigo de espalhar a fome. Até há pouco tempo, eu próprio acreditava nisto10.

Infelizmente a maioria dos "resíduos" agrícolas não é nada disso. É o material orgânico que mantém a estrutura do solo, os nutrientes e a reserva de carbono. Um documento do governo dos EUA propõe que, para ajudar a atingir as suas metas de biocombustíveis, 75% dos resíduos anuais das culturas devem ser colhidos11. De acordo com uma carta publicada na Science no ano passado, colher os resíduos das culturas pode aumentar a taxa de erosão do solo 100 vezes12. A nossa dependência do carro, por outras palavras, pode levar ao esgotamento do solo, assim como ao esgotamento do petróleo13.

Remover os resíduos das culturas significa substituir os nutrientes que contêm por fertilizantes, o que causa maiores emissões de gases de efeito de estufa. Um documento recente do Prémio Nobel Paul Crutzen sugere que as emissões do óxido nitroso (um gás de efeito de estufa 296 vezes mais poderoso que o CO2) resultantes dos fertilizantes azotados anulam todas as poupanças de carbono dos biocombustíveis, mesmo sem contabilizar as alterações de uso do solo14. As culturas de segunda geração, como as árvores e o switchgrass (uma gramínea de crescimento rápido), também não resolvem o problema: como outras culturas energéticas, elas substituem tanto a produção de alimentos como as emissões de carbono. O switchgrass, mostra um novo estudo publicado na Science, cria uma dívida de carbono de 52 anos15. Alguns propõem que se fabriquem biocombustíveis de segunda geração com erva colhida em prados naturais com resíduos municipais, mas se já é muito difícil produzi-los de pastagens simples, muito mais é a partir de uma mistura. Para além da regeneração de óleos alimentares usados, não existem biocombustíveis sustentáveis.

Todas estas soluções complicadas são apresentadas para evitar uma simples: reduzir o consumo do combustível nos transportes. Mas isso requer o uso de uma mercadoria diferente. As reservas globais de coragem política parecem, infelizmente, estar esgotadas há já algum tempo.

12 /2/08

Tradução de Luis Leiria

1 Citi, 4 de Fevereiro de 2008. Industry Focus: Oil Companies - International.

2 Ver http://www.monbiot.com/archives/2007/05/29/what-if-the-oil-runs-out/

3 International Energy Agency, 2005. Resources to Reserves: Oil & Gas Technologies for the Energy Markets of the Future. Disponível electronicamente em: http://www.iea.org/textbase/nppdf/free/2005/oil_gas.pdf

4 E-mail do Energy Desk, Department for Business, Enterprise and Regulatory Reform, 8 de Fevereiro de 2008.

5 Dino Mahtani, 26 de Dezembro de 2007. Oil watchdog reworks reserves forecasts. The Financial Times.

6 Comissão das Comunidades Europeias, 23 de Janeiro de 1008. Proposta para uma Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho sobre a promoção do uso da energia de fontes renováveis, p8. Em http://ec.europa.eu/energy/climate_actions/doc/2008_res_directive_en.pdf

7 Comissão das Comunidades Europeias, 23 de Janeiro de 1008. Proposta para uma Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho sobre a promoção do uso da energia de fontes renováveis, Artigo 15. Em http://ec.europa.eu/energy/climate_actions/doc/2008_res_directive_en.pdf

8 Joseph Fargione, Jason Hill, David Tilman, Stephen Polasky, Peter Hawthorne, 7 de Fevereiro de 2008. Land Clearing and the Biofuel Carbon Debt. Science. Doi 10.1126/science.1152747.

9 Timothy Searchinger, Ralph Heimlich, R. A. Houghton, Fengxia Dong, Amani Elobei Jacinto Fabiosa, Simla Tokgoz, Dermot Hayes, Tun-Hsiang Yu, 7 de Fevereiro de 2008. Use of U.S. Croplands for Biofuels Increases Greenhouse Gases Through Emissions from Land Use Change . Science. Doi 10.1126/science.1151861.

10 Agradeço ao Jim Thomas do ETC Group por me pôr no lugar certo.

11 US Department of Energy e US department of Agriculture, Abril de 2005. Biomass as Feedstock for a Bioenergy and Bioproducts Industry: the Technical Feasibility of a Billion-Ton Annual Supply. Em http://www1.eere.energy.gov/biomass/pdfs/final_billionton_vision_report2.pdf

12 David Pimentel and Rattan Lal, 17 de Agosto de 2007. Carta: Biofuels and the Environment. Science.

13 Este termo foi utilizado por Alice Friedemann, 10 de Abril de 2007. Peak Soil: Why cellulosic ethanol, biofuels are unsustainable and a threat to America. Em http://www.culturechange.org/cms/index.php?option=com_content&task=view&id=107&Itemid=1

14 PJ Crutzen, AR Mosier, KA Smith and W Winiwarter, 1 deAgosto de 2007. N2O release from agro-biofuel production negates global warming reduction by replacing fossil fuels. Atmospheric Chemistry and Physics Discussions 7, pp11191-11205. Em http://www.atmos-chem-phys-discuss.net/7/11191/2007/acpd-7-11191-2007.pdf

15 Joseph Fargione et al, ibid.


 
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