Nuno Sena (1): "O cinema independente é mais livre de constrangimentos comerciais" criar PDF versão para impressão
24-Abr-2008

 

O Esquerda.net entrevistou Nuno Sena, um dos programadores do IndieLisboa sobre a história deste festival que já vai na sua quinta edição, os seus objectivos e a razão do seu sucesso. Nuno Sena foi assistente da direcção do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual/IPACA (depois ICAM) entre Abril de 1996 e Junho de 1998; dirigiu o Departamento de Exposição Permanente da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema entre Agosto de 1998 e Junho de 2003 e integrou a direcção e o comité de programação do doclisboa entre 2004 e 2006.

Entrevista de Olímpio Alves

Nuno Sena. Foto de Olímpio AlvesComo surgiu o nome "Indie" para o Festival?

O nome "Indie Lisboa" nasceu do aproveitamento de uma expressão que existe em termos internacionais há alguns anos, chamado Independent Cinema. Trata-se de uma ideia que na Europa é um pouco diferente da dos Estados Unidos.

Quando adoptamos a expressão foi essencialmente para falarmos de um cinema que fosse autónomo, mais livre relativamente a uma série de constrangimentos, sobretudo de carácter comercial, que por vezes formatam excessivamente o campo cinematográfico, seja documentário, seja ficção.

A nossa ideia é de um cinema livre desse tipo de constrangimentos, disponível para arriscar, para descobrir, e que tenha assim uma relação mais directa, mais viva com o tempo presente, com a altura em que é feito e com o espaço em que esses filmes acontecem.

É um termo que para nós serve sobretudo como um "chapéu de chuva" muito genérico de todos os tipos de cinema e todos os filmes que o Festival pode e quer apresentar.

Como acha que os espectadores portugueses vêem o cinema independente?

Em primeiro lugar, vêem pouco. De facto, no mercado português existem grandes estrangulamentos em relação a uma oferta cinematográfica muito mais plural, muito mais diversificada do que aquela que em Portugal temos oportunidade de ver nas salas de cinema.

Há poucos distribuidores, o mercado de sala está excessivamente concentrado em poucos exibidores.

O Indie nasce por isso, para tentar colmatar essa lacuna, dar a ver outros filmes, filmes que não chegavam ou que circulavam pouco no mercado português. A ideia é promover esta cultura do cinema independente, um cinema que se afaste mais dos "constrangimentos" dos filmes mais comerciais.

É claro que no cinema independente existem vários géneros e modos de produção que até estão próximos do cinema popular ou de grande público, mas este Festival nasce essencialmente para proporcionar uma melhor "qualidade de vida" a todos os espectadores portugueses que tinham até então pouco ou mais reduzido acesso à produção de cinema independente.

No final da primeira edição do Festival em 2004, qual foi o balanço que fizeram?

A primeira edição era decisiva para o futuro do Festival, porque há várias histórias de Festivais de Cinema em Portugal que tiveram apenas uma edição isolada, que, por várias razões, não conseguiram passar da primeira edição.

Sabíamos que era um pouco o tudo ou nada, porque o sucesso da primeira edição iria determinar a viabilidade do festival. A primeira edição foi muito recompensadora, a vários níveis. Teve um óptimo retorno do público, com um bom eco da comunicação social, ficámos com a ideia de que havia uma dinâmica na programação que interessava às pessoas, e que essa era a grande mais-valia que o festival tinha para oferecer.

O festival partia também de uma situação, diria eu, privilegiada, porque arrancava num momento em que se tinha acabado uma experiência de três anos no Cine 222 em Lisboa, organizada pela Zero em Comportamento, que é a organizadora do Indie, o que permitiu conhecer melhor o público com que estamos a trabalhar, que é o público mais fiel e mais numeroso do festival ainda hoje.

Foi importante essa experiência de três anos, que acabou por servir de tubo de ensaio do Indie para comprovar que existe um desejo de filmes, um desejo de cinema num público muito alargado que não estava completamente saciado.

E agora, com quatro edições realizadas, qual o balanço?

O balanço é positivo em todos os capítulos, não quero dizer com isto que estejamos satisfeitos. À partida, para cada edição existe esta ambição, da equipa que faz o festival, de melhorar sempre qualquer coisa, torná-lo mais interessante, mais estimulante, mais diversificado e conseguir trazer qualquer coisa de novo.

Eu penso que esta edição é mais parecida com a do ano anterior, porque efectivamente já estabilizou as suas secções principais e há sobretudo a tentativa de apurar esta receita, de melhorar a qualidade dos seus ingredientes, utilizando esta metáfora gastronómica, para conseguir fazer a melhor edição do Indie Lisboa. E, para isso, penso que há essencialmente uma melhor qualidade de organização e também uma melhor qualidade de programação.

Acho que este é um ano interessante porque temos três excelentes retrospectivas. dedicadas aos cineastas Johnnie To, José Luis Guerín e à cinematografia romena. Julgo que são os nomes mais fortes que este festival já teve até ao momento na sua secção Herói Independente.

Portanto é essencialmente a ambição de conseguir superar a edição anterior, não só quantitativamente - claro que também é isso, se queremos chegar a um público mais alargado - mas também de fazer uma selecção ainda mais criteriosa, fazer novas apostas, ir à procura de novos talentos, dar visibilidade a trabalhos ainda pouco divulgados.

Como tem sentido a adesão dos cineastas portugueses a este Festival?

A relação que temos com o cinema português é muito importante, porque obviamente estamos a trabalhar em Portugal, a fazer um Festival para um público português, mas também para melhorar a qualidade da relação desse público com o seu cinema, o cinema nacional.

Desde a primeira edição, temos tido sempre um número importante de filmes portugueses, sem ter tido a necessidade de baixar o "nível" qualitativo, de forma a termos um número maior de filmes portugueses. Temos tentado também encontrar filmes portugueses inéditos de jovens cineastas, ou de cineastas mais veteranos mas que partilham de uma certa ideia que o cinema português precisa de estar a fazer um cinema interessante, estimulante e com potencial internacional ao nível de um cinema de autor.

Penso que está a ser conseguido. Já tivemos filmes portugueses em competição na secção Internacional, tanto nas curtas como nas longas metragens.

Este ano, felizmente, voltou a acontecer, mas o cinema português tem de valer por si próprio. Temos tido esta posição desde o princípio. Uma das missões do festival é encorajar, promover e contribuir para uma maior projecção dos cineastas portugueses quer nacionalmente, quer internacionalmente.

E internacionalmente, qual tem sido a projecção do Festival?

Há vários indicadores que nos levam a crer que o Festival tem tido a sua visibilidade internacionalmente. Há um dado, o mais objectivo possível, que tem a ver com o número de inscrições provenientes do estrangeiro. As inscrições dos filmes nacionais tem crescido, é um facto, mas as inscrições internacionais têm crescido numa proporção ainda mais acentuada.

Este ano recebemos 3000 filmes; 2500, 2600 são provenientes do estrangeiro. Comparando com os 500 da primeira edição, tivemos um aumento muito elevado.

Quando nos deslocamos a outros festivais e falamos com colegas, organizadores e cineastas do meio internacional, já demonstram saber o que é o IndieLisboa e têm uma impressão muito positiva.

Já tínhamos tido no ano passado, e voltamos a ter este ano várias programações feitas em eventos internacionais, nomeadamente noutros festivais de cinema em que o IndieLisboa tem o espaço para apresentar um conjunto de filmes que fizeram parte do festival.

Acha que o público português está a ficar mais exigente para com o festival?

Nós sentimos isso. Aliás, essa exigência começou logo no primeiro ano, porque existe sempre uma expectativa muito grande sobre a sua programação. No entanto, essa exigência acaba por ser o seguro de saúde do Festival. Isto porque sentimos que as pessoas acham que é um festival importante para a cinematografia em Portugal, o que nos leva a investir mais, pois esse é o retorno do nosso trabalho, nesta relação saudável que podemos estabelecer com os espectadores.


 
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