Nuno Sena (3): "Um festival de cinema independente tem de reflectir sobre o mundo em que é feito criar PDF versão para impressão
24-Abr-2008

Nuno Sena. Foto de Olímpio AlvesNa conclusão da entrevista, Nuno Sena chama a atenção para dois filmes que abordam questões como a precariedade de emprego, os fluxos migratórios entre países com níveis de desenvolvimento muito diferenciados, a exploração da mão de obra ilegal: "Import Export", de Ulrich Seidl, e "It´s A Free World", de Ken Loach.

Entrevista de Olímpio Alves

O cinema influencia a política ou a política influencia o cinema?

Eu diria que as duas vão a par e essa é evidentemente uma das razões de ser do festival, é que a produção contemporânea tem de reflectir algo sobre o tempo que vivemos, tem de reflectir as questões, as dificuldades, questionar o meio circundante.

Penso que um festival de cinema que se pretende independente tem de ser capaz de reflectir sobre o mundo em que é feito, e portanto as escolhas de programação também reflectem isso. Este é um festival que programa muitos filmes de carácter político por uma razão muito simples: a produção independente de cinema é uma produção de carácter militante, se calhar não no sentido tradicional, mas numa militância com questões de cidadania ou uma participação activa nas questões de cada sociedade e no tempo em que ela vive. Neste Festival fazemos escolhas políticas nos filmes que mostramos, queremos que sejam filmes interpolantes e podem sê-lo enquanto retrato de uma sociedade.

Este ano, dentro deste âmbito, temos dois filmes que são quase o espelho um do outro, do Ulrich Seidl, "Import Export" e o filme "It´s A Free World" do Ken Loach. Ambos falam de questões que são sobretudo das cidades europeias desde o princípio do século XXI, precariedade de emprego, fluxos migratórios entre países com níveis de desenvolvimento muito diferenciados, exploração do trabalho precário, exploração da mão de obra ilegal.

São duas visões muito desencantadas daquilo que podia ser só visto pelo lado positivo, a facilidade de circulação de pessoas e bens dentro do território europeu, a liberdade ilusória que esconde os constrangimentos de uma real menor liberdade. Ambos os filmes reflectem isso, essencialmente os novos pobres na sociedade europeia são os imigrantes.

O filme do Ken Loach é sobretudo sobre uma imigração vinda da Ásia e dos países da antiga europa do Leste, o filme do Ulrich Seidl centra-se nos fluxos migratórios entre a Aústria e a Ucránia e é uma visão muito, muito cruel, daquilo que são supostamente as grandes conquistas europeias do alargamento do espaço Europeu, onde nestes dois filmes é demonstrado o reverso, retratando estas realidades sem qualquer complacência. São filmes fortes em termos cinematográficos e tematicamente relevantes.

O Indie é uma "janela" para o mundo?

Essa visão tem estado sempre presente, a ideia de que um festival de cinema é cada vez mais também isso, uma experiência de mergulho em realidades culturais diferentes da nossa.

Este é um Festival com uma clara vocação universal e em que as questões, não por acaso estamos no Ano Europeu do Diálogo Intercultural, se põem de forma particularmente viva e aguda. O festival acaba por ser também uma experiência de viagem por outras geografias, outras experiências de vida, e acaba por funcionar como um mediador entre culturas, entre experiências e entre realidades bastante diferentes daqueles que em Lisboa o português do século XXI estará habituado. É importante olhar o outro, pensar também pela cabeça do outro ajuda-nos a situar-nos melhor como pessoas, como cidadãos.

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.