Entrevista ao historiador Valério Arcary criar PDF versão para impressão
22-Set-2006

"O PT É UM APARELHO EM DECOMPOSIÇÃO"
valerioNesta entrevista preparada para o seu próximo livro, No Olho do Furacão, o historiador Valério Arcary explica o fenómeno que levou ao apodrecimento moral do aparelho central do PT, envolvido e devorado por sucessivas crises de corrupção, ao mesmo tempo que Lula conseguia sobreviver à crise. Apesar de todo o sucedido, Valério Arcary diz-se optimista em relação às perspectivas da esquerda: "Há mais de uma década que a situação brasileira não era tão prometedora quanto agora, apesar do governo Lula", diz, dando como exemplos a reorganização sindical, com centenas de sindicatos saindo da CUT e criando a Conlutas e a Intersindical, e reorganização política com a Frente do PSOL, PSTU e PCB em apoio a Heloísa Helena. Valério Arcary é professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo, (CEFET/SP), doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), membro do Conselho Editorial da Revista Outubro, e membro do PSTU.

Como pôde acontecer o apodrecimento moral do aparelho central do PT, e porque Lula sobreviveu à crise?

Ensina a sabedoria oriental que o peixe morre pela boca. Já o Padre Antonio Vieira dizia que o peixe apodrece pela cabeça. A sabedoria popular brasileira alerta que a cabeça não é imune à pressão do chão que os pés pisam. Quando o publicitário Duda Mendonça, que inventou o "Lulinha paz e amor" confessou seus pecados - os depósitos de milhões em dólares em contas no exterior -, ironia da história, enfiou uma adaga no coração da direção do PT. Foi o ápice da crise, e Lula no Planalto tremeu. Mas, a oposição burguesa não queria e a oposição de esquerda ainda não podia iniciar um movimento de massas para derrubá-lo. PSDB e PFL sabiam que uma investigação séria sobre Caixa dois podia ter conseqüências devastadoras para o regime, como na Argentina. Todos financiaram suas campanhas nos últimos vinte anos com Caixa dois (saco azul). A oposição de esquerda, PSTU, PSOL e PCB, por sua vez, tentou uma prova de força nas ruas, porém, mesmo se reuniu mais gente que os atos convocados pela CUT, a UNE e, lamentavelmente, pela direção do MST, não reuniu forças suficientes para uma campanha que deixasse Lula no canto do ringue. A experiência de massas com o governo Lula demonstrou ter ritmos mais lentos do que gostaríamos. Uma contextualização histórica é indispensável. Só uma perspectiva mais ampla permitirá explicar como o partido político que foi a expressão eleitoral do movimento operário sindical e da maioria dos movimentos sociais brasileiros nos anos oitenta, se transformou, a partir de sua mais alta direção, irrecuperavelmente, em minha opinião, neste espantoso aparelho em decomposição. A crise tem uma dimensão moral, mas a explicação da crise é político-social.

Caixa dois, financiamento dos partidos de aluguel nas eleições de 2004, enriquecimento pessoal. Qual seria a explicação para a direção do PT ter ido tão longe?

Só há dois campos de avaliação do que aconteceu. A moral que descarrega nas costas dos incriminados a culpa, e a política, que questiona a estratégia reformista-eleitoral. A explicação moral reduz o episódio à irresponsabilidade dos dirigentes diretamente envolvidos. A tática do Partido estava correta, a direção foi genial, a transformação possível do Brasil dependia da ampliação dos programas sociais compensatórios, rezando para que economia mundial não entrasse em depressão grave. A única lição política do episódio do mensalão apresentada surgiu da boca de Palocci, que depois teve que morder a língua, e se resumia à conclusão bizarra de que a tática de alianças no Congresso foi errada. Descobriu que deveriam ter feito um bloco com o PMDB e não com o PTB, PP, e PL. Ninguém, contudo, foi informado porque os deputados do PMDB, famosos por sua volúpia de orçamento e cargos, seriam incorruptíveis. Este delírio escapatório é incrível. Uma explicação política mais séria atingiria toda a direção do PT e colocaria toda a estratégia de Lula/Zé Dirceu dos últimos anos em questão. Não surpreende que Lula, Tarso Genro e Marco Aurélio Garcia tenham preferido a explicação moral. Há sempre uma dimensão moral e, claro, uma responsabilidade pessoal e intransferível dos dirigentes que operaram a política. Mas, convenhamos, se não fosse Delúbio, seria outro tesoureiro. Se não fosse o Genoíno, seria outro presidente. E ninguém com um mínimo de senso ignora que, na direção do PT, o peso da autoridade de Lula era tal, que seria impossível que ele tivesse sido mantido à margem das iniciativas de Zé Dirceu. Lula deve sua sobrevivência política ao silêncio de Zé Dirceu. É a versão petista da ormetá siciliana. Uns precisam ser sacrificados para que o aparelho sobreviva. Se ele abrisse a boca, teria sido o fim do Governo Lula em 2005, e não haveria campanha pela reeleição.

Qual seria a explicação política?

O projeto reformista no Brasil não demonstrou sua viabilidade. O Governo Lula foi um Governo eleito pela esperança de reformas, mas fez contra-reformas. Vinte anos de regime democrático são um intervalo histórico suficiente para um balanço isento e equilibrado. Na Europa do pós-guerra o projeto reformista começou a ser colocado em prática com os partidos social-democratas e os PC's ainda na oposição: Adenauer na Alemanha e De Gaulle na França nos anos cinqüenta. O medo da revolução nos anos posteriores à derrota do nazi-fascismo acelerou a negociação de concessões. No Brasil a burguesia não está disposta a ceder. E a direção lulista não estava disposta a lutar. Podem conviver uns com os outros, mas não podem evitar que a crise social se agrave e não puderam evitar a crise política do ano 2005. O PT já saiu semidestruído pela crise, e Lula será desmoralizado diante da história, será uma questão de tempo. É preciso disposição de luta revolucionária para arrancar reformas. A questão de fundo é que a maioria da direção do PT escolheu o caminho de social-democratização - a adaptação eleitoral aos limites político-jurídicos do regime democrático - que já tinha sido trilhado na América Latina por muitos outros, até por organizações que encabeçaram revoluções democráticas, como os Sandinistas. No Brasil este projeto eleitoral reformista "a frio", ou seja, sem mobilização de massas, exigiu no lugar da luta popular por reformas, uma máquina profissional enorme que só poderia ser construída com doações empresariais. Máquinas eleitorais podem ganhar eleições usurpando a confiança das massas, mas não podem mudar o Brasil. A criatura devorou o criador. Seu apetite era insaciável. Delúbio tem a cara da crise. Mas, é uma injustiça que entre para a história como o nome da crise. O nome da crise do PT é Lula.

O nome da crise do PT é Lula porque ele foi o responsável pela estratégia política?

Lula sempre dirigiu o PT. Seu papel é, freqüentemente, subestimado. Lula não queria há muitos anos um PT de militantes socialistas organizados. Não queria ser pressionado. Foi Lula quem viabilizou, com o auxílio inestimável de Zé Dirceu, que o PT fosse se transformando em uma máquina eleitoral. Se, mesmo os partidos que se formaram na severidade das condições da luta armada contra ditaduras - como a FSLN, os Tupamaros ou a Farabundo Marti - quando aceitaram transformar-se em partidos eleitorais descobriram-se vulneráveis diante da pressão política e social da democracia liberal, fica mais fácil compreender que o PT, que já nasceu muito mais vulnerável (com ambigüidades programáticas; um regime interno em que a vigilância sobre a direção era quase impossível; e pouca transparência em matéria financeira) seria, com o tempo, presa fácil das pressões corruptoras endêmicas do capitalismo periférico, e do Estado brasileiro. O PT foi devorado pelas pressões dos grandes grupos capitalistas, pelo Estado e pela lógica da governabilidade do regime democrático. As relações dos governos com os grupos empresariais foram construídas, no Brasil, por acordos que favorecem ou dificultam negócios, alguns por dentro e outros por fora da lei. A moeda do financiamento eleitoral foi usada à exaustão. O canibalismo entre o PT nos governos e o PT como partido apoiado nos movimentos sociais começou nas prefeituras. A voracidade do aparelho da Articulação engoliu o PT da militância muito antes de Lula ter sido eleito. Mas, em Brasília, a pressão burguesa sobre o PT foi muito maior. A terrível ironia da história é que foram as necessidades da governabilidade no Congresso que levaram ao esquema da transferência de dinheiro público para contratos fictícios com as empresas de publicidade de Belo Horizonte.

O Estado devorou o Partido?

A crise do capitalismo brasileiro é o pano de fundo da crise do PT. Não há muito espaço para reformas distribuidoras de renda "a frio" em um país em que a economia anda de lado há um quarto de século - o PIB cresceu pouco mais que 70%. Os dirigentes do PT que assumiram a administração das prefeituras e aceitaram governar nos limites da lei e da ordem, sem se apoiar na luta e organização popular, precisavam controlar o seu próprio partido que, pelas bases sociais em que se apoiava, ameaçava se transformar em oposição aos governos que elegeu. A grande maioria dos líderes dos governos locais, e a maioria dos parlamentares passaram a responder a outros interesses: negociavam com os grupos empresariais, com olhos na suas carreiras eleitorais. Santo André foi, com seus mistérios sinistros, um desenlace previsível. A luta política durante o Governo Erundina, em São Paulo entre 1988 e 1992, foi sintomática do que estava por vir. No resto do país, em diferentes ritmos e processos mais ou menos degenerados, a dinâmica foi, infelizmente, a mesma. O Estado transformou milhares de militantes da Articulação e das outras correntes petistas que assumiram as administrações, muito permissíveis às pressões de ascensão social pessoal em uma sociedade de baixa mobilidade, na melhor das hipóteses, em funcionários acomodados em cargos de confiança. Na pior, em aventureiros dispostos a se aproveitar da oportunidade para melhorar de vida. O mau exemplo contagia. Esta composição social do PT é pouco permeável à força dos argumentos, e muito pressionado pela força dos interesses.

Muitos se perguntam se o governo Lula com uma política macro-econômica neoliberal, e cercado pelas denúncias de corrupção, não seria o enterro da esquerda por um longo período.

Meu argumento poderá chocar, mas creio que devemos olhar a realidade pela perspectiva inversa. Há mais de uma década que a situação brasileira não era tão prometedora quanto agora, apesar do governo Lula. O paralelo histórico mais produtivo deveria ser feito com o final dos anos setenta, e não com o começo dos anos sessenta: a esquerda já começou a ser reconstruída, não está na iminência de ser destruída. Reorganização sindical com centenas de sindicatos saindo da CUT e criando a Conlutas e a Intersindical, e reorganização política com a Frente do PSOL, PSTU e PCB em apoio a Heloísa Helena. O Brasil não está de costas para a América Latina. Se a vaga de lutas que sacode o continente neste início de século, como reação aos ajustes neoliberais da década passada, foi retardada no Brasil em função das esperanças no processo eleitoral de 2002, e a recuperação cíclica da economia mundial deixou para trás os anos duros da recessão entre 2000 e 2003, não parece provável que o refluxo nas lutas sociais urbanas que vem desde a eleição de Collor em 1990, venha a se manter por muito mais tempo. Não bastará, por suposto, que o descontentamento de massas venha a se traduzir em disposição de luta. Um novo humor nos destacamentos mais organizados dos trabalhadores urbanos, contudo, poderá fermentar a construção de novos instrumentos sindicais e políticos que se coloquem como um ponto de apoio para as lutas que virão. As pressões que despedaçaram a esquerda brasileira, um ano depois da posse do Governo do PT, antecipam questões estratégicas que se colocarão à escala internacional para todas as forças que se reivindicam anti-capitalistas. Quando partidos de base operária e popular e programas social-liberais chegam ao poder, o lugar político das forças socialistas deverá ser do lado da governabilidade, ou na oposição?

Qual a relação entre a crise e as pressões eleitoralistas?

As campanhas eleitorais no Brasil dos últimos vinte anos foram ficando muito caras, por muitas e complexas razões. Os partidos improvisados pelo Capital a partir do fim do regime militar (PFL; PMDB; PSDB; PTB; etc...) tinham pouca implantação popular, em um país em que a ampla massa do povo tem poucas referências ideológicas, e temiam a força social dos movimentos sindicais e populares que se expressava no PT. O país tem, não esqueçamos, dimensões continentais. Nos anos noventa as campanhas ficaram absurdamente dispendiosas, na escala de dezenas de milhões de dólares. Era, no fundo, só uma questão de tempo para que o PT evoluísse do financiamento legal dos monopólios - em prática desde 1994 - para um sistema de caixa dois, a exemplo dos partidos tradicionais. São as regras do jogo impostas pela estratégia eleitoralista. Pressões sociais em sociedades muito desiguais nunca devem ser subestimadas: os que se deixam confundir, politicamente, assimilam os métodos da política burguesa - em que tudo são mercadorias, incluindo o voto - e, finalmente, se rendem a um modo de vida de ostentação. É o que confessam os principais líderes petistas quando, de maneira até grotesca, invocam absolvição porque estavam agindo de acordo com as "regras do jogo". Quem pretendia o sucesso eleitoral, mesmo em uma situação em que a classe trabalhadora estava na defensiva, precisava, em coerência, moderar o discurso político e procurar fontes de financiamento milionárias que não podiam ser conseguidas na própria classe trabalhadora. Depois de aceitar o dinheiro contabilizado e tendo vencido as eleições de 2002, era só um passo a transferência de recursos arrecadados para os partidos aliados nas eleições de 2004, e o sistema de mensalão para assegurar maioria no Congresso. O enriquecimento ilícito dos dirigentes era, na seqüência, previsível.

Todos os partidos praticaram o Caixa dois nos últimos vinte anos?

Todos os partidos orgânicos do capital tiveram caixa dois, porque a burguesia preferiu, prudentemente, ir financiando os candidatos sem declarar quanto e para quem fazia doações, em função das projeções das pesquisas. Todas as grandes empresas têm um caixa dois. Mantiveram uma parte da sua liquidez em dólares para se preservar das instabilidades da moeda brasileira e para fugir do fisco. O domínio do Capital sempre foi a associação legal e ou ilegal, portanto, sempre imoral, da riqueza com o poder. Todos os partidos comprometidos com o regime democrático-eleitoral e, por isso, financiados pelo capital, foram aliciados pela força do dinheiro. O esquema do publicitário de Minas que se uniu ao tesoureiro do PT já tinha funcionado ao serviço do PSDB. As empresas que fornecem produtos e serviços ao Estado, ou que dependem de concessões do Governo - bancos, empreiteiras, agências de publicidade, etc... - são as maiores contribuintes dos partidos. Por isso, também, a tentativa de impeachment do Lula em 2005, foi uma iniciativa marginal. Todos têm o rabo preso. Além disso, o governo americano interveio na crise, enviando o John Snow em Agosto para declarar que estavam muito satisfeitos com Lula.

Quais são as causas de fundo deste triste episódio político do mensalão?

As forças de resistência política no PT tinham sido destruídas. Não havia, em conseqüência, mais reservas morais significativas. A direção do PT, ou seja, o grupo em torno de Lula, conseguiu vencer, peremptoriamente, uma luta política interna sobre os destinos do PT. Quando da vitória eleitoral em 2002, Lula e Zé Dirceu já estavam confiantes de que poderiam fazer uma Reforma como a da Previdência sem explodir o PT. A desmoralização ideológica e as pressões sociais hostis já tinham transformado o PT em um aparelho impermeável. Mas, não foi fácil para eles. O ascenso do final dos anos 70 construiu e estruturou o PT em menos de cinco anos. Precisaram de quinze anos para acabar de domesticá-lo. Esta luta teve várias etapas. Houve muitos combates internos na história do PT, desde a condução da luta nas Diretas em 1984, passando pelo tipo de oposição que deveríamos fazer ao Governo Sarney entre 1986 e 1989, pelo tipo de governo que se deveria impulsionar nas Prefeituras em 1988, o tipo de intervenção na Constituinte, até o tipo de oposição que deveríamos fazer a Collor. Algumas destas disputas eram táticas, de baixa intensidade, mas pré-anunciavam diferenças de estratégia e de princípios. A Articulação, entretanto, logrou dividir a oposição de esquerda que resistia nos anos oitenta. Não houve, por exemplo, maior escândalo interno quando da expulsão da Convergência Socialista em 1992. A resignação foi aumentando com o tempo. Por quê a Articulação ficou em maioria e a esquerda do Partido em minoria? Essa vitória política nos remete a questões de fundo, e nos remete à questão das relações de força entre as classes. Em períodos defensivos, as correntes moderadas e mais adaptadas ao capitalismo serão sempre mais influentes que as posições mais radicais. Não há atalhos para que as posições revolucionárias conquistem influência de massas.

A realidade brasileira destes primeiros cinco anos do século XXI contrasta com a instabilidade de outros países da América Latina.

O capitalismo brasileiro perdeu o impulso de crescimento em 1980. O principal fator de coesão social de uma das sociedades mais injustas do mundo se perdeu. Nos últimos vinte e cinco anos, no entanto, o Brasil só "explodiu" duas vezes: nas Diretas em 1984 e, em menor medida, no Fora Collor em 1992. Nos últimos cinco anos, Argentina, Bolívia, Equador, e Venezuela viveram situações revolucionárias, mas o Brasil não. Compreender as razões desta desigualdade de ritmos é uma das chaves de interpretação do destino do PT. Veremos como um segundo Governo Lula - confirmadas as projeções de reeleição - ou mesmo um Governo Alkmim, conseguirá manter a estabilidade social e política, se o ano que vem se abrir uma recessão mundial. De qualquer forma, o Brasil é uma sociedade que se move mais "lentamente" que nossas vizinhas latino-americanas. Nas duas vezes em que milhões foram às ruas para derrubar governos, as "explosões" resultaram em vitórias usurpadas, portanto, muito parciais: as massas mobilizadas - uma aliança da classe trabalhadora urbana com a juventude, setores médios plebeus, mas com liderança direta ou indireta de dissidências burguesas - derrubaram os governos odiados, Figueiredo e Collor, mas não conquistaram eleições imediatas. A concertação burguesa conseguiu fechar as crises impondo Sarney e Itamar. Na primeira grande crise de dominação, o MDB de Ulysses foi o fiador da estabilização. Mas, na segunda, o PT de Lula foi uma das forças que assegurou a governabilidade para a posse de Itamar. As amplas massas - um arco de forças sociais exploradas e oprimidas muito heterogêneo - não queriam se arriscar em uma via de ruptura. Em 1992, a juventude recém descobria a sua força, mas tinha poucas referências políticas. Setores médios apoiavam as concentrações de rua contra a corrupção de Collor, mas desconfiavam de seus aliados populares. Os trabalhadores se uniram ao povo nas ruas, mas sem bandeiras próprias, e temiam as represálias de uma possível radicalização. Em ambas circunstâncias, recessões severas tinham castigado nos anos anteriores um dos países de crescimento mais dinâmico no meio século que foi de 1930 a 1980. Desde 1980, os destinos político-sociais da América Latina e do Brasil estiveram estreitamente associados às flutuações dos ciclos da economia mundial. Veremos se o impacto de uma recessão mais grave que a de 2000-2003, que explica em alguma medida a vitória eleitoral do PT em 2002, poderá ou não colocar em movimento de novo essa imensa juventude, o proletariado e seus aliados sociais nas classes médias empobrecidas. Procurarão expressão política, se quiserem lutar, mas não acredito que o PT será esse instrumento.

Muitos comentaram sobre a burocratização do Partido.

A burocratização explica tanto a adaptação política ao regime democrático, quanto o contrário. É bom lembrar que o eleitoralismo explica, também, a burocratização. Todos os partidos de esquerda têm sua evolução condicionada pela situação na luta de classes, e o PT não foi diferente. Nos anos oitenta, a burocratização do PT era ainda pouco significativa, mas o partido, depois do fim da ditadura, já começou a sofrer pressões sociais hostis. No movimento sindical era, inclusive, muito mais grave, desde os anos oitenta. Mas, enquanto o ascenso das lutas populares era forte, foi possível resistir às pressões. O PT não foi ao Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo/Sarney, e não assinou a Constituição de 1988. O tema da burocratização dos partidos de trabalhadores assalariados em sociedades urbanas permanece um fenômeno polêmico. Ao analisar a socialdemocracia de cem anos atrás, Lenin recorreu ao conceito de aristocracia operária para tentar explicar a crescente diferenciação social no mundo do trabalho na passagem do século XIX para o XX, e tentar compreender porque uma maioria das bases eleitorais da social-democracia apoiou seus respectivos governos, quando do início da guerra de 1914. No entanto, é menos lembrado que Lenin previu que esse apoio seria efêmero, mesmo entre os setores da classe trabalhadora que obtiveram concessões na etapa histórica anterior. A "aristocratização" de um segmento da classe operária era compreendida pela esquerda marxista como um fenômeno, essencialmente, econômico e social, enquanto o agigantamento do aparelho sindical e das frações parlamentares absorvidos pelo Estado era discutido como um processo, essencialmente, político-social. Aristocracia operária e burocracia sindical-parlamentar não eram identificadas como o mesmo fenômeno social, porque a aristocracia operária - um segmento relativamente privilegiado, considerando-se as condições materiais e culturais de existência da maioria da classe trabalhadora - permanecia sendo um setor de classe. Já a burocracia dos aparelhos que se apóiam nos trabalhadores seria uma casta exterior ao proletariado. A experiência do PT e da CUT é uma confirmação quase caricatural deste prognóstico. A aristocracia operária sofre com o desemprego e a queda do salário médio. A burocracia sindical-parlamentar permanece imune.

O PT era o partido dos setores organizados da classe trabalhadora. A crise de 2005 diminuiu essa influência, mas o peso de Lula entre os setores desorganizados parece ter aumentado.

A representação da classe trabalhadora exige organização. Organização popular tem como condição liberdades democráticas. A possibilidade da organização é muito restrita na esmagadora maioria dos locais de trabalho e estudo. A metade dos trabalhadores está na informalidade, sem contrato e sem direitos. Nos bairros é mais fácil, mas não predomina a organização independente: há muitas Igrejas, vereadores e profissionais burgueses e pequeno-burgueses da política, etc... A expressão dos interesses coletivos, no Brasil, uma sociedade que se urbanizou em cinco décadas, portanto, muito aceleradamente, encontra imensos obstáculos. Por outro lado, o atraso cultural do país tem conseqüências políticas. Mesmo com uma presença maior das crianças nas escolas, temos ainda pelo menos 14,6 milhões de analfabetos. Os iletrados são, contudo, muito mais numerosos. O analfabetismo funcional - incapacidade de atribuir sentido ao texto escrito - está na escala das dezenas de milhões, talvez mais da metade dos brasileiros com mais de quinze anos. Da população de 7 a 14 anos que freqüenta a escola, pelo menos um em cada três não concluem o ensino fundamental. Na faixa de 18 a 25 anos, apenas 22% terminam o ensino médio e, mesmo em São Paulo, menos de 20% em idade escolar estão matriculados em cursos superiores. Não surpreende que a influência da esquerda urbana tenha se concentrado nos setores organizados. Que Lula esteja perdendo influência entre os setores organizados é muito significativo da perda de confiança no PT, e a crise da própria CUT. Ao mesmo tempo, Lula no Governo, ganhou popularidade entre os setores desorganizados. A força do aparelho do Estado explica essas novas bases sociais.

Até 2002, estes setores sociais organizados mantiveram o apoio ao PT, mesmo depois que Lula anunciou na Carta aos brasileiros que tinha "compromisso com os contratos", e conseguiu neutralizar a burguesia e atrair os votos dos setores desorganizados.

A massa do povo desorganizado foram os últimos eleitores de Lula. Não votaram no PT em 1989, 1994 e 1998. É bom lembrar que o PT percorreu um longo caminho para se transformar no partido majoritário nos setores organizados da classe trabalhadora. São necessários anos e até décadas para que a percepção de que a vida não vai mudar por inércia seja assimilada por milhões. A consciência de classe evolui mais lentamente que o apodrecimento da realidade social. Um intervalo de atraso, maior ou menor, em relação à situação objetiva é inevitável. No Brasil, o passado da maioria das famílias entre as décadas de trinta e setenta era uma história de mobilidade social ascendente. As ilusões de uma vida menos insegura ou mais confortável, pelo menos para alguns, sobreviveram às condições em que isso, historicamente, tinha sido possível. As expectativas reformistas permaneceram vivas, muito depois da crise de estagnação do capitalismo brasileiro ter se aberto. Lula foi, durante os últimos vinte anos, o porta-voz dessas ilusões. Era presumível que a maioria do povo trabalhador e das novas classes médias urbanas depositassem esperanças, depois das eleições da Constituinte de 1986, e da consolidação de um calendário eleitoral estável, com direito á alternância, no dinamismo de um país que sempre mudou muito lentamente, mas mudava para um pouquinho melhor. Uma maioria reconciliou-se com o resultado do Colégio eleitoral de 1985. Uma avalanche votou no PMDB do plano cruzado em 1986. Depois no PT, em São Paulo, com Erundina, para dizer basta a Sarney, um voto de protesto contra a superinflação, e por causa da invasão da CSN em 1988. O país se dividiu em 1989, mas, de novo, uma maioria arriscou em Collor. Confiaram em Fernando Henrique em 1994, pelo plano real, e ainda em 1998. Não obstante a pressão de inércia reacionária de um país culturalmente muito atrasado, onde o medo de represálias sempre foi muito efetivo para neutralizar a ação coletiva, a massa do povo foi evoluindo à esquerda, moderadamente, enquanto o PT e Lula giravam à direita, despudoradamente. Acabaram por se encontrar em 2002. Primeiro os setores organizados do proletariado e a juventude estudantil, mas, com o passar dos anos, também, as classes médias com alta escolaridade, porém empobrecidas e assalariadas, e, ao final, as maiorias populares desorganizadas.

A eleição de Lula foi anterior a um processo revolucionário como a eleição de Chavez na Venezuela, Gutierrez no Equador ou Evo Morales na Bolívia.

Todo este apoio popular foi atraído por um programa que assegurava que as mudanças seriam negociadas por dentro do regime democrático. Uma promessa com poucos riscos de confronto. Esta relação de confiança dos trabalhadores organizados com o PT e, sobretudo, com Lula foi sendo construída ao longo de vinte e cinco anos, mais acelerada no ABC e em São Paulo nos primeiros anos. Não houve desbordamento à esquerda do PT, porque não se abriu uma situação revolucionária. Estes vinte anos não passaram, no entanto, em vão. O governo Lula não passou em vão. A paciência das massas é enorme, mas tem limites.

A influência majoritária do PT nos setores organizados se manteve doze anos depois da derrota de 1989.

A etapa de aprendizado reformista sindical-parlamentar do povo brasileiro está chegando ao fim. Só a perspectiva histórica poderia explicar porquê será muito difícil para o PT e a CUT recuperarem a influência que estão perdendo. A crise da corrupção acelera o processo. Um amplo setor depositava pelo menos a esperança de que no Governo Lula não haveria escândalos. Descobriram que aqueles líderes que se apresentavam como os símbolos da ética na política eram, também, capazes das maiores vilanias. Por outro lado, são já vinte anos que o povo está esperando reformas que não vêm. Ninguém poderia responder, claro, em que medida as seqüelas de uma nova situação econômica mundial mais severa, que exigiria do futuro Governo um ajuste mais duro, seria suficiente para provocar uma reação. Pode ser que não. Nesse caso a barbárie tenderia a crescer. A dissolução das relações sociais já começou há tempos no Brasil. Há indicadores sérios de uma regressão social. Mas, por outro lado, ocorreu nesses mais de vinte anos de regime democrático-liberal, uma longa experiência de milhares de greves das mais variadas categorias que revitalizaram os sindicatos. Há muitas forças acumuladas e contidas na classe trabalhadora.

O fim da etapa de aprendizado sindical-parlamentar?

Sim, o começo do fim das ilusões ingênuas de que será possível mudar a vida colocando um voto nas urnas, ou negociando menos demissões na próxima campanha salarial. Muitos milhões, sobretudo, nos setores mais organizados acordam para a descoberta terrível de que a vida não está melhorando. Essa conclusão é duríssima. O pensamento "mágico" de que seria possível mudar a vida sem lutas, por temor às represálias, está desmoronando. Essa experiência está sendo incorporada e dificultará uma recuperação do PT. Mas, as ilusões reformistas não morrem sozinhas. Se não surgir uma nova esquerda sindical e política como ponto de apoio, se não se construir um alternativa sindical à CUT, se a Frente de Esquerda após as eleições não oferecer uma referência política, a desconfiança em relação ao PT poderia abrir o caminho da desmoralização. Nesse caso, os ajustes que o capital espera que sejam feitos encontrariam baixa resistência. Seria uma derrota histórica. Uma derrota mais séria dos trabalhadores e seus aliados é uma possibilidade, mas não creio que seja a mais provável.

Por quê a experiência política da sociedade brasileira evoluiu "lentamente", quando comparada à Argentina ou Bolívia?

O Brasil ocupa um lugar de sub-metrópole na América Latina. As crises que devastaram o continente nos atingiram, também, mas foram mais suaves. Há, por outro lado uma história político-social diferente. A expectativa do que seria um Governo Lula ajudou também a conter o mal estar social dentro do calendário eleitoral. Na Argentina, na Bolívia e no Equador não havia organizações como o PT e a CUT. Em uma outra perspectiva, o povo brasileiro já mediu forças com as classes dominantes nos anos oitenta, e pode querer fazê-lo outra vez. Nesse período aconteceu o aprendizado superior das greves gerais. Houve os comícios imponentes de Lula em 1989. A luta dos aposentados depois do plano Zélia/Collor comoveu o país. Sem esquecer a greve histórica dos petroleiros, a marcha do MST de 1987 sobre Brasília, um ano depois do massacre de Eldorado de Carajás, e tantas outras lutas populares. Mas, nesses combates parciais a classe trabalhadora brasileira sempre foi mais radical em suas ações que em suas reivindicações. Moveu montanhas, para reivindicar muito pouquinho. O horizonte de sua resistência defensiva era a defesa do salário devorado pela inflação, um pedacinho de terra para assentar famílias ou construir uma casa, ou, quando muito, mais verbas para educação e saúde. Somente por duas vezes, nesse intervalo histórico de vinte e seis anos, as massas populares conseguiram irromper na cena política com a força grandiosa de sua mobilização de ruas contra o poder, ameaçando o governo de plantão. Nessas duas vezes vislumbraram que poderiam mudar o país.

A memória das lutas históricas dos anos oitenta não se perdeu?

A consciência de classe avança e recua. Há uma luta político-ideológica permanente pela preservação das lições do passado. A burguesia prefere a amnésia popular, porque tem calafrios quando se lembra dos anos oitenta. A experiência das Diretas e do Fora Collor foi o que permitiu que o PT se transformasse em um partido de massas. Era o partido que simbolizava a luta contra a pobreza, a exploração e a corrupção. Em 1984, o PT se lançou com tudo, mas não foi decisivo, em 1992, quando poderia ter sido decisivo, não se lançou com tudo. Ensina a sabedoria anglo-americana que "The postman rings twice" (o carteiro bate na porta duas vezes). Não acredito que terão uma terceira chance.

Mas, todas as crises dos últimos vinte anos, inclusive a crise do mensalão, foram resolvidas nos limites do regime democrático.

Sim, mas, o regime foi se debilitando. O regime democrático paga um preço pela desmoralização política dos partidos. A massa do povo, incluindo os setores de massas mais organizados, aceitou os limites da democracia liberal que estabelece que a mudança deve ser esperada, disciplinadamente, de dois em dois anos. Poderia ter acontecido, talvez, um grande movimento pelo Fora FHC em 1999, mas o PT, conscientemente, fez abortar uma campanha que poderia ter se massificado, canalizando o protesto para as eleições de 2002. A grande mobilização de massas para derrubar governos odiados foi, portanto, excepcional. As massas populares e a juventude descobriram nas Diretas e no Fora Collor que sua ação era poderosa, mas, ficou claro, também, com a posse de Sarney e de Itamar, que era mais fácil se juntarem contra Figueiredo e contra Collor, do que se unirem a favor de um outro projeto. O socialismo, uma referência vaga para milhões, não era mais que uma aspiração de maior justiça, sem que o ódio ao capitalismo tivesse ainda amadurecido. Foram às ruas expressando o gigantismo de sua força, uma imensa maioria de pobres deserdados em um país enorme, urbanizado em pouquíssimas décadas, e muito jovem. Espreguiçaram-se, e as classes dominantes tremeram, improvisando rapidamente um recuo organizado.

 A crise do PT, mesmo com uma possível reeleição de Lula, enfraquece o regime?

O regime político fica mais vulnerável porque perde legitimidade. A promessa da alternância foi uma das maiores forças do regime. Será preciso uma reconstrução do PT para que o regime se revigore, mas a questão mais de fundo para a dominação burguesa é, insisto, a estagnação de longa duração do capitalismo brasileiro. A burguesia aceitou que a hora do fim do regime militar tinha chegado em 1984 e, depois, que Collor era um aventureiro a ser descartado. As massas, por sua vez, fizeram muito, mas para conquistar muito pouco. Não o fizeram, contudo, de forma independente. Em 1984, o PT e Lula cumpriram um papel progressivo na co-direção da luta final contra a ditadura, mas tinham influência minoritária. Em 1992, quando já possuíam influência majoritária, o lugar de Lula e do PT foi regressivo: coube a eles o papel de bombeiros ajudando a posse de Itamar, que era, fora de Minas Gerais, um ilustre desconhecido. A CUT, a UNE, o PT e Lula se construíram e legitimaram nesse processo, mas a classe trabalhadora não estava nem social, nem politicamente à frente da maioria popular explorada. Não dirigia, foi acaudilhada. Nem as diretas, nem o Fora Collor, foram construídas com reivindicações de classe. O programa que levou milhões à luta não era senão democrático. Não surpreende que os grandes combates se deram nos limites de alianças com dissidências burguesas, como o MDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves nas Diretas, e Quércia no Fora Collor. Admitamos que a burguesia brasileira demonstrou uma impressionante capacidade de adaptação e concertação. Suas frações mais lúcidas aceitaram sem pestanejar um acordo com o MDB e Tancredo Neves, e sacrificaram Collor, bem rapidinho, engolindo Itamar. Nas duas oportunidades, antes que milhões estivessem dispostos a ir às ruas, uma recessão terrível tinha se abatido sobre a nação. As duas recessões foram precipitadas por ondas de choque externo: a moratória mexicana de 1982 e a recessão mundial do início da década dos noventa. A classe trabalhadora e a juventude não toleraram o desemprego em larga escala, e o saqueio de seu padrão de vida, já por si, historicamente, muito baixo. Não esperaram o calendário eleitoral. Obtiveram vitórias parciais. As eleições diretas não vieram em 1985, mas Figueiredo não fez seu sucessor e o ciclo militar acabou. Não conquistaram eleições gerais em 1992, mas Collor caiu. Esperaram Lula até 2002. Sua paciência está se esgotando.

 
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