A escola não rende criar PDF versão para impressão
03-Abr-2008
João RomãoGraças a um telemóvel, uma onda de violência escolar ocupou o lugar mediático da avaliação dos professores mas não tirou a escola do centro das atenções nem os professores do centro do alvo. Além de não renderem, parece que os professores não têm autoridade.

O telemóvel não é apenas mais um objecto presente nas salas de aulas, porque introduz uma alteração na relação dos alunos com esse espaço: se antes estavam isolados do exterior, os telemóveis introduziram a possibilidade de contacto e comunicação permanentes com quem está lá fora. O mesmo se passa quando as aulas se fazem com computadores ligados à internet, com o messenger e o hi5 a substituírem os sms.

As aulas constituem um exercício colectivo de aprendizagem, coordenado por um professor de acordo com objectivos e metodologias definidos, e pressupõem a predisposição dos alunos para conseguir, em cada aula, algum resultado: as aulas têm que render.

Os mesmos alunos que reivindicam a utilização de telemóveis nas aulas compreendem com facilidade que não os podem utilizar, por exemplo, nos treinos de futebol (nem vale a pena falar na natação) das equipas onde jogam: se usarem telemóveis não treinam bem, se não treinarem bem não rendem e se não renderem não serão um dia como o Cristiano Ronaldo.

Não é preciso o treinador usar de grande autoridade para os jovens jogadores compreenderem a nefasta influência da utilização de telemóveis sobre o seu rendimento futebolístico.

O que os ditos jovens não compreendem é que os telemóveis prejudiquem o seu rendimento na sala de aula. Na realidade, muitos deles não compreendem - ou não aceitam - que se tenha que atingir algum objectivo numa aula. Uma frase do conhecido vídeo da disputa de um telemóvel entre professora e aluna é disto esclarecedora: "A velha vai cair", ouve-se a certa altura entre os alunos: eles não vêm ali uma professora, alguém responsável por coordenar um trabalho colectivo de aprendizagem, mas alguém com quem se confrontam e que tratam pejorativamente.

Resolver a questão dos telemóveis ou perseguir criminalmente actos de indisciplina escolar não resolve os problemas essenciais da motivação para a aprendizagem, da valorização do conhecimento e da relação dos jovens com as práticas educativas e os professores.

As iniciativas políticas das autoridades nacionais na matéria - o governo e o Procurador Geral da República, pelo menos - vão em todos os sentidos menos os essenciais: preocupam-se com a hierarquização dos bons e maus professores, com os castigos a aplicar ao mau comportamento dos alunos e até com a sua criminalização. Não se preocupam com as razões da sua desmotivação e do seu fraco rendimento (evidente, por exemplo, nos estudos internacionais sobre aprendizagem da matemática).

A escola não é como o Cristiano Ronaldo. Não rende. Não investe em mais salas e professores para haver turmas mais pequenas, não questiona o seu próprio modelo de funcionamento (excesso de horas lectivas, ausência de actividades alternativas nas áreas cultural e artística, fraco contacto com a realidade exterior à escola, etc.) e não procura soluções que motivem os alunos a participar activamente no processo educativo. A render...

O problema não é só da escola: o desemprego e a precariedade de milhares de jovens qualificados dificulta a compreensão de que a educação escolar é relevante para a carreira profissional das pessoas.

Esses jovens querem coisas que rendam, como jogar à bola, como o Cristiano Ronaldo. Cresceram em tempos de facilitismo consumista e só conhecem resultados concretos e imediatos. Os resultados que se conseguem com a formação escolar têm pouco de concreto e ficam à distância de um mais que incerto futuro.

João Romão

 
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