Eu, Precário/a, acuso o Governo! criar PDF versão para impressão
07-Abr-2008
Mariana AivecaSerá em nome do imenso grito de revolta que mora dentro de cada um e cada uma, de viverem no fio da navalha todos os meses, de adiarem a sua vida a cada dia que passa, que acusaremos Sócrates na próxima quinta-feira.

Acusaremos em nome de todos os “Manueis”, “Marias”, “Ricardos”, “Veras” ou “Martas.

Acusaremos em nome de todos os arquitectos, engenheiras, enfermeiros, formadoras, actores, jornalistas, professores, operadoras de call centers, investigadores, de ter a irrecusável responsabilidade de ter aumentado a precariedade.

Os números da precariedade do 4º trimestre de 2007 mostram o que o Código Bagão Félix, adubado com a “audácia” dum governo chamado de “socialista” foi capaz de produzir: 900,1 mil trabalhadores por conta própria, sendo a esmagadora maioria falsos recibos verdes, 648,8 mil contratados a termo, 187,9 mil outros vínculos que não efectivos e 66,6 mil de subemprego invisível, tudo isto resultando em 1.839.400 trabalhadores precários.

Nestes números cabem por exemplo, os e as trabalhadoras a falsos recibos verdes dos Centros Novas Oportunidades, da RTP Porto, da PT, da Reitoria da Universidade do Porto, do Teatro S. João, do BPI, do Milenium/BCP, dos CTT, do Público, JN, DN e Expresso, e, de praticamente todas as Câmaras Municipais do país.

Nestes números cabem os duplamente precários/as das ETT, onde se vive o mais vil ambiente de trabalho, onde os direitos ficam à porta e a lei da “rolha” é a lei vigente.

Estas empresas que escolheram para “seu” provedor nada mais nada menos que o “ilustre porta-voz do PS” Vitalino Canas, quiçá como prémio da sua posição expressa, aquando da aprovação da lei do trabalho temporário numa declaração de voto em que se pode ler: “Por isso, é com inquietação que contacto que, em aparente contraciclo, o novo regime do trabalho temporário é mais restritivo do que aquele que o PS apresentou inicialmente…. Não é de esperar que perante estes obstáculos as empresas optem por soluções habilidosas bem menos transparentes sem grandes hipóteses de fiscalização?”

Não espanta pois que as ETT o tenham escolhido, elas sabem que terão um “ilustre” aliado que até queria uma lei mais “flexível”, e que tem todas as condições para lhes aconselhar como dar a “volta” à lei. É o PS no seu melhor!

Mas esta interpelação tem a exigência inequívoca: A garantia tem que ser dada à maior parte da juventude portuguesa que tem as suas vidas em suspenso.

O governo tem que dizer claramente ao que vem quando propagandeia que vai combater a precariedade.

Qual é o plano concreto? Que metas tem para este combate? Que prazos para a sua concretização? Que “ASAE” vai pôr no terreno?

Está o governo disponível para passar os contratos a termo a terem a duração de apenas um ano?

Está o governo disponível para obrigar TODAS as empresas a passar a efectivos os trabalhadores/as a recibo verde, e, que ocupam postos de trabalho permanente começando pela sua própria casa?

Está o governo apostado em obrigar as empresas e o Estado a contratarem para os seus quadros os trabalhadores/as que necessitam, ao invés de recorrerem ás ETT como forma de se desresponsabilizarem dos encargos sociais?

É este governo do PS que põe num autêntico limbo o que de melhor o país conseguiu produzir. Uma geração qualificada, …. Mas ignorada, descrente no futuro, e, que até o Ministro da Ciência diz com toda a “lata” que não há muito desemprego.

Se este não for o compromisso de nada servem as lágrimas de crocodilo que Sócrates tão bem sabe encenar e, a acusação manter-se-á… Eu precário/a… vos acuso senhores do PS.

Mariana Aiveca

 
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