“Não é consigo! É com o outro!” criar PDF versão para impressão
08-Abr-2008
Uri Avnery"Ei! Tire as mãos de cima de mim! Não! Não é consigo! É com o outro!" - a voz da rapariga no cinema, naquela piada antiga.
"Ei! Tire as mãos de cima do Tibete!" - ouve-se um coro internacional, aos gritos - "Mas não tire as mãos de cima da Chechénia! Nem tire as mãos de cima da terra dos bascos! E deixe as mãos em cima da Palestina!" E não é piada.

Como todo o mundo, apoio o direito de ser independente, que é direito do povo tibetano, ou, no mínimo, o direito que os tibetanos têm à autonomia. Como todo mundo, condeno os actos do governo chinês naquela região. Mas, diferente de todo mundo, não participo das manifestações públicas.

Por quê? Porque sinto uma sensação incómoda, de que alguém insiste em algum tipo de lavagem cerebral contra o meu cérebro; de que estamos presos num exercício de hipocrisia.

Um pouco de manipulação não me incomoda. Afinal, não é por acaso que os tumultos tenham começado, no Tibete, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim. Por mim, tudo bem. Um povo que lute por mais liberdade tem direito de usar qualquer ocasião que surja para fazer avançar a sua luta.

Apesar de os norte-americanos estarem evidentemente a explorar em benefício próprio a luta dos tibetanos, eu apoio os tibetanos. É claro que a CIA planeou e organizou os tumultos, e a média dos EUA comanda uma campanha internacional. Tudo isto é parte da luta clandestina entre os EUA, a superpotência reinante, e a China, a superpotência desafiante - versão nova do "Grande Jogo" que se disputou na Ásia central no século 19, entre o Império Britânico e a Rússia. O Tibete é um trunfo no mesmo jogo.

Estou pronto, até, para esquecer o facto de que os gentis tibetanos agiram em pogrom contra chineses inocentes, mataram mulheres e homens, queimaram casas e lojas. Excessos detestáveis sempre há, nas lutas de libertação.

Tudo isto é sabido. Nada disto é determinante. O que realmente me incomoda muito é a hipocrisia da imprensa mundial. Som e fúria - e imagens do Tibete. Em milhares de editoriais e entrevistas televisionadas, chovem maldições e desaforos contra "o mal"; "o mal" é a China. Como se os tibetanos fossem o único povo do planeta cujos direitos à independência estivessem a ser feridos por violência brutal; como se bastasse que Pequim tirasse as mãos de cima dos monges vestidos de amarelo-açafrão, para o mundo voltar a ser perfeito, o melhor dos mundos.

Não há dúvidas de que os tibetanos têm direito à autodeterminação, de viver a própria cultura, de promover suas instituições religiosas e de evitar que qualquer colonizador os afogue.

Mas os curdos na Turquia, Iraque, Irão e Síria não têm os mesmos direitos? E os que vivem no Sahara Ocidental, cujos territórios estão ocupados por Marrocos? E os bascos que vivem na Espanha? E os corsos, no litoral da França? E a lista é longa.

Por que a imprensa mundial ‘adopta' uma luta de independência e tão cinicamente ignora outra luta de independência? O sangue de algum tibetano será mais vermelho que o sangue de mil africanos no Congo Leste?

Outra vez, tento e tento encontrar resposta satisfatória. Em vão. O enigma resiste.

Immanuel Kant pregava que todos agíssemos "como se o princípio de nossa acção devesse ser convertido em lei universal da natureza." (Era alemão e filósofo; por isto, falava língua muito mais complicada.) O modo de ver o problema tibetano segue esta regra? Agimos conforme esta regra, em face da luta pela independência de todos os demais povos oprimidos do mundo?

Não. De modo algum. Não.

Por que, então, a imprensa internacional discrimina e cria diferenças entre as muitas lutas de libertação que hoje se disputam, em todo o mundo?

Há alguns aspectos a considerar:

- O povo que luta para ser independente cultiva alguma cultura exótica?

- Os tibetanos são atraentes, no sentido de "sexy", do ponto de vista da imprensa?

- O movimento é liderado por alguma figura carismática, do tipo que "atrai audiência" e que a imprensa adora?

- A imprensa detesta aquele governo opressor?

- O governo opressor está incluído no campo pró EUA? Este ponto é importante, porque os EUA controlam grande parte da imprensa internacional, e as agências de notícias e redes de TV definem a agenda e o vocabulário da cobertura e dos noticiários.

- Há interesses económicos implicados no conflito?

- O povo oprimido conta com grandes oradores, competentes para atrair atenções e manipular a imprensa?

Considerados estes aspectos, os tibetanos são o máximo que se poderia desejar. Neles, reúnem-se condições ideais.

Enquadrados pela cordilheira do Himalaia, os tibetanos vivem numa das mais belas paisagens do planeta. Por séculos, chegar até lá foi, em si, uma grande aventura. A religião deles atrai curiosidade e simpatia. O discurso da não-violência é atraente e suficientemente elástico para encobrir as mais horrendas atrocidades, como o recente pogrom. O líder tibetano exilado, o Dalai Lama, é figura romântica, um rock-star da imprensa. O regime chinês é odiado por muitos - pelos capitalistas, porque é uma ditadura comunista; pelos comunistas, porque se converteu à religião do capital. O regime chinês promove um materialismo feio e rasteiro, o perfeito antípoda dos monges budistas, que consomem a vida em oração e meditação.

Quando a China implanta uma ferrovia até a capital do Tibete, por mil quilómetros de paisagem muito inóspita, o Ocidente não vê o muito admirável feito de engenharia e técnica, mas vê (até com bastante razão) um monstro de ferro que traz centenas de milhares de colonizadores chineses Han, para o território ocupado.

E, é claro, a China é um poder em ascensão, cujos sucessos económicos ameaçam a hegemonia dos EUA no mundo. Parte importante da periclitante economia norte-americana já pertence directa ou indirectamente à China. O grande Império Americano afunda-se inexoravelmente em dívidas, e a China pode vir a ser, em breve, poderoso emprestador de dinheiro. A indústria manufatureira dos EUA está de mudança para a China, levando com ela milhões de empregos.

Comparados a estes factores, o que teriam a oferecer, por exemplo, os bascos? Como os tibetanos, os bascos também vivem em território contíguo, parte na Espanha, parte na França. Os bascos também são povo antigo, com língua e cultura próprias. Mas os bascos não são exóticos e não atraem atenção especial. Não rezam em círculo. Não têm monges com mantos coloridos.

Os bascos não têm líder romântico, como Nelson Mandela ou o Dalai Lama. O Estado espanhol, nascido das ruínas da detestada ditadura de Franco, goza de grande popularidade no mundo. A Espanha está integrada na União Europeia, que está-não-está no campo de influência dos EUA, às vezes mais, às vezes menos.

A luta armada dos grupos bascos, clandestina, é considerada "terrorismo" por muitos, sobretudo depois de a Espanha ter cedido aos bascos uma considerável autonomia. Nestas circunstâncias, a luta de independência dos bascos não tem qualquer hipótese de obter apoio internacional.

Os chechenos poderiam estar em melhor posição. Os chechenos também são povo bem caracterizado, que por muito tempo foram oprimidos pelos czares do Império Russo, dentre os quais Stálin e Putin. Mas, infelizmente para eles, os chechenos são muçulmanos - e hoje, no mundo ocidental, a islamofobia ocupa o lugar que durante séculos esteve reservado ao anti-semitismo. Islão virou sinónimo de terrorismo; é visto hoje como religião de sangue e bandidos. Mais um pouco, e alguém revelará que os muçulmanos comem criancinhas e usam o sangue para assar pão pitta. (Na verdade, é a religião de muitos e diferentes povos, da Indonésia a Marrocos e do Kosovo a Zanzibar.)

Os EUA não temem Moscovo como temem Pequim. Diferente da China, a Rússia não tem ares de país que possa dominar o século 21. O Ocidente não tem interesse em reinventar a Guerra Fria, porque está a reinventar as Cruzadas contra o Islão. Os pobres chechenos, sem líder carismático e porta-vozes importantes, foram varridos das manchetes. Se depender da ‘opinião pública' e da imprensa, Putin pode bater o quanto queira nos chechenos; pode matar milhares e destruir cidades inteiras.

Não há o que impeça Putin de apoiar as exigências da Abkházia e da Ossétia do Sul para separar-se da Geórgia, país que enfurece a Rússia.

Se Immanuel Kant soubesse do que acontece no Kosovo, coçaria a cabeça, sem entender.

A província proclamou-se independente da Sérvia, e eu, antes de tudo, apoiei, de todo o coração, a independência dos sérvios. São povo de cultura própria (albanesa) e religião própria (Islão). Depois de o popular líder sérvio Slobodan Milosevic ter tentado expulsá-los da própria terra, o mundo levantou-se e passou a apoiar moral e materialmente aquela luta de independência.

90% dos cidadãos do novo Estado são kosovares albaneses, numa população total que chega a dois milhões. Os 10% de sérvios que lá vivem não querem ser kosovares. Querem que os territórios nos quais vivem sejam anexados à Sérvia. Respeitada a máxima de Kant, teriam algum direito de pregar a anexação?

Eu proporia um princípio moral pragmático: populações que habitem territórios definidos e tenham evidentes características de nação, devem ser independentes. Um Estado que aspire a exercer o seu poder sobre estas populações deve zelar para que as populações se sintam confortáveis, para que possam exercer plenamente os seus direitos, para que beneficiem de condições de igualdade e para que sejam tão autónomas quanto queiram ser. Em resumo: para que vivam de modo a não ter razão para desejar a independência.

O princípio aplica-se aos franceses no Canadá, aos escoceses na Grã-Bretanha, aos curdos na Turquia e em toda a parte, aos vários grupos étnicos na África, aos povos indígenas na América Latina, aos tamils no Sri Lanka e aplica-se em muitos outros casos. Todos devemos ter o direito de escolher entre a plena igualdade com autonomia, e a independência.

O que nos leva, é claro, à questão palestiniana.

Na disputa pela simpatia da imprensa mundial, os palestinianos não têm sorte. Pelos padrões objectivos, os palestinianos têm pleno direito à plena independência, exactamente como os tibetanos. Os palestinianos também vivem em território definido, são nação, há fronteiras claramente demarcadas entre a Palestina e Israel. É preciso ter mente muito pervertida, para negar estes factos.

Os palestinianos, contudo, têm sofrido muitos duros golpes do destino: o povo que oprime os palestinianos requisita para ele mesmo a coroa de vítima máxima, e única. O mundo simpatiza com os israelitas porque os judeus foram vítimas do mais horrendo crime que o ocidente jamais conheceu. Assim, cria-se na Palestina uma situação muito estranha: o opressor é mais popular do que a vítima da opressão. Quem apoie os palestinianos torna-se automaticamente suspeito de anti-semitismo e de negar o Holocausto.

Além disto, a grande maioria dos palestinianos são muçulmanos (ninguém presta atenção aos palestinianos cristãos). Dado que o Islão desperta medo e pavor no Ocidente, a luta dos palestinianos tornou-se automaticamente parte do "terrorismo internacional" - uma ameaça sinistra, disforme. Depois que Yasser Arafat e Sheik Ahmed Yassin foram assassinados, os palestinianos estão sem líder ou porta-voz que impressione o Ocidente - nem na Fatah nem no Hamas.

A imprensa internacional chora pelo povo tibetano, cujas terras estão a ser tomadas pelos colonos chineses lá ‘assentados'. Quem chora pelos palestinianos, cujas terras estão a ser tomadas também por colonos (israelitas) também ‘assentados'?

No burburinho planetário sobre o Tibete, os porta-vozes israelitas comparam-se eles mesmos - por estranho que pareça! - com os pobres tibetanos, não com os chineses ‘do mal'. A muitos, a comparação até parece muito lógica.

Se Kant fosse desenterrado, para dizer o que pensa sobre a questão palestiniana, diria: "Dêem aos palestinianos o que se deve dar a todos os povos. E nunca mais me acordem com perguntas idiotas."

Artigo publicado em 05/04/2008 na página de Gush Shalom [Grupo da Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1207434781/

Tradução do blog do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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