A vitória relativa dos sindicatos e a derrota relativa dos professores criar PDF versão para impressão
13-Abr-2008
João Teixeira LopesCertamente que a luta vale a pena. E que o Governo recuou. E que a avaliação perde carga punitiva e é consideravelmente aligeirada nos seus procedimentos iniciais, de pura inspiração kafkiana. Mas, uma vez mais, os sindicatos desperdiçaram, de uma assentada, a maior manifestação de sempre e o movimento porventura mais alargado que alguma vez se conseguiu.

De novo, o medo superou a ousadia. De novo, a pressa dos dirigentes sindicais em apresentarem resultados palpáveis - uma espécie de bandeja com os louros da vitória - fez esquecer o fundamental. Mário Nogueira já ganhou o lugar de futuro Secretário-geral da CGTP e isso parece bastar.

Esta era a ocasião para avançar e não apenas para resistir. Esta era a oportunidade para os sindicatos perceberem a importância da informalidade que se gerou no protesto nacional, muito para além dos mecanismos burocráticos de participação. Impunha-se, por um lado, discutir até ao osso a profissão docente e os novos desafios da escola pública. Exigia-se, por outro, uma ruptura face a velhos atavismos e corporativismos que degradam o movimento sindical docente (bem distintos dos que a Ministra denuncia). Esta era a ocasião para furar a espuma dos dias e começar a entender a rapariga do telemóvel, bem para alem do acontecimento e da imagem que se tornou icónica e que, de alguma forma, deixou de ter autor e de nos pertencer, entrando no imaginário colectivo e criando efeitos na realidade. A rapariga do telemóvel não é a criminosa que Mário Nogueira julga, ao apoiar a delirante vaga de criminalização dos comportamentos escolares desviantes iniciada por um Procurador populista e precipitado. É uma jovem no limiar do século XXI e não apenas uma estudante. É alguém moldado por pressões socializadoras múltiplas e contraditórias, em que a família e a escola perderam grande parte do seu poder normativo e de enquadramento. Incapazes, os sindicatos, de perceberem que nada se resolve com a punição criminal ou com mais da mesma escola (a tal que está em crise).

Mas sem dúvida que algo poderia mudar se as escolas públicas, os professores e os sindicatos se comprometessem a combater todas as práticas de recrutamento selectivo de jovens, as tais que escolhem os discentes de origens sociais favorecidas, de molde a obterem melhores resultados, capazes, assim, de catapultarem as escolas no famigerado ranking. Ou a segregação em turmas, concentrando, tantas vezes, os alunos com piores classificações, insucesso e vulneráveis ao abandono.

Tudo morreu na avaliação (ou nos pormenores da sua aplicação). Mas é a avaliação, apenas, o que fez sair à rua cem mil professores indignados?

João Teixeira Lopes

 
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