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15-Abr-2008
Rui BorgesO acordo sobre a avaliação dos professores anunciado pela Plataforma de Sindicatos de Professores e pelo ministério foi anunciado pelos dois lados como uma vitória. No ministério deve certamente respirar-se um enorme alívio.

Poucas semanas depois da maior manifestação de professores de sempre que mostrou o total isolamento de Maria de Lurdes Rodrigues a ministra continua no seu gabinete e novamente a assinar acordos com os sindicatos. Quem de facto mais perdeu foram os professores e a escola pública.

Ao centrar o acordo na questão da avaliação (e já aqui no esquerda.net foram analisados os seus contornos) os sindicatos acabam por deixar passar a mensagem que os comentadores mais reaccionários sempre apregoaram: é que os professores, os malandros, não querem prestar contas do seu trabalho. Numa tirada de finíssima perspicácia João César das Neves dizia há algumas semanas atrás no DN que os professores passam a vida a avaliar alunos (uma opção que revela o puro sadismo que guia as intenções dos professores) mas quando chega a sua vez fogem com o rabo à seringa.

O problema deste acordo é que faz esquecer que saíram cem mil professores à rua não por causa da avaliação mas porque o governo está a destruir a escola pública. A avaliação faz obviamente parte do estratagema. Mas também o novo estatuto da carreira docente com a divisão em duas categorias, a sobrecarga de trabalho burocrático, a imposição aos professores de actividades de entretenimento dos alunos, o estatuto do aluno e o novo modelo de gestão escolar.

Significativamente o novo modelo de gestão foi aprovado na sexta-feira. É de todas as medidas do ministério a que representa a maior machadada no funcionamento democrático das escolas. No entanto o silêncio sobre o assunto foi total. Sindicatos e ministério só tiveram olhos para a avaliação nestes últimos dias. Se ambos passaram a acreditar nos comentadores da direita e pensam que os professores de facto só não querem ser avaliados, então o seu desfasamento com a realidade é bem maior do que se podia imaginar.

As mobilizações espontâneas que antecederam a manifestação de 8 de Março deixaram certamente muitos dirigentes sindicais inquietos. Afinal este tipo de manifestações não faz parte do guião habitual. Talvez por isso tenha havido tanta pressa em definir um acordo três dias antes dos plenários nacionais que iriam analisar os problemas da escola pública, elaborar propostas para reverter a actual direcção das políticas educativas e decidir novas formas de luta. Um dos resultados deste acordo pode ser a desmobilização dos professores e o esvaziamento dos plenários com a aprovação de moções mornas adaptadas às circunstâncias. Assim, na perspectiva de alguns, tudo ficaria no seu devido lugar. Mas como o acordo só vai ser assinado na quinta-feira talvez nem tudo esteja perdido. A persistência e espírito de resistência dos professores podem muito bem levar a que no fim do dia de hoje Mário Nogueira descubra que deu um monumental tiro no pé.

Rui Borges

 
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