Quando Henry Kissinger opina criar PDF versão para impressão
14-Abr-2008
immanuel_wallerstein.jpgQuando Henry Kissinger opina num artigo de opinião no Washington Post, convém prestar atenção. A coisa tem mensagem. Kissinger sempre se apresentou como o supremo proponente "realista" da política imperialista norte-americana. Mas também teve sempre o cuidado de não se distanciar demasiado da classe política conservadora.

Por isso, quando ele opina, está a dizer-nos não só para onde a política se dirige mas também a empurrá-la ligeiramente para um caminho "realista", em conjunto com os aliados que tem no seio da administração. Está a preparar-nos para uma mudança política. Desta vez escreveu sobre o Paquistão. Que está a querer dizer-nos?

Para começar, chama a atenção para a parada dos Estados Unidos no Paquistão. É uma potência nuclear incapaz de manter o controlo interno e que, por conseguinte, se pode "transformar no jóquer da política internacional". Toda a gente sabe isso, diz ele, mas "o remédio provou ser ilusório". A política norte-americana recente tem sido favorável a uma coligação entre Mushfarraf e as facções civis - um "objectivo louvável" mas pouco "prático". Eleições num país que não tem sociedade civil "agudizam" as crises em vez de as resolverem. Ao que parece, as eleições redundam muitas vezes na eleição das pessoas erradas.

Para Kissinger, há apenas forças "feudais" em jogo no Paquistão - grandes latifundiários na província de Sindh (o partido de Bhutto), comerciantes no Punjab (partido de Sharif) e militares. A luta entre eles é como a das cidades-estado italianas durante o Renascimento - alianças instáveis e nenhum sentido do "bem geral". No fim, os árbitros são os militares. E então? Qualquer tentativa por parte dos Estados Unidos de "manipular" o processo político tem grandes probabilidades de "sair pela culatra". A "evolução do processo político imediato está fora do nosso alcance".

Sim, Musharraf tem sido um aliado leal e os Estados Unidos não se podem dar ao luxo de se dissociarem dele, porque seria o mesmo que mandar uma mensagem errada a outros aliados leais. Mas, ao mesmo tempo, cabe a Musharraf - "não a nós" - lidar com os resultados das eleições. Resumindo, ele está por sua conta. Os Estados Unidos não têm de se preocupar com a política paquistanesa, apenas com as chamadas "questões de segurança nacional" - como o controlo das armas nucleares e a resistência aos terroristas (radicais islâmicos).

O realismo, ao que parece, não é um guia de acção muito detalhado. Informa-nos acerca dos limites do que os Estados Unidos podem fazer. A evolução democrática - um "objectivo importante" - está numa "escala temporal diferente" da segurança nacional. Portanto, adie-se. Em vez disso, os Estados Unidos deviam fazer um acordo com quem ganhar - se conseguirem.

O artigo de opinião de Kissinger foi publicado na mesma semana em que o Almirante Fallon se demitiu do comando das forças americanas no Médio Oriente. Parece que terá dito, demasiadas vezes e demasiado alto, que a intervenção militar dos Estados Unidos no Irão não é possível, como "possibilidade" prática. Outro "realista"? Parece que o Almirante Mullen, Presidente da Junta de Chefes de Estado Maior, também tem dito a mesma coisa, embora de forma mais discreta. E parece que o antecessor de Mullen, o General Pace, também disse a mesma coisa.

Bush e Cheney querem insistir publicamente que a opção militar está em cima da mesa, mesmo que na realidade não esteja. Parecem acreditar que isto irá assustar os iranianos e apaziguar os israelitas. O problema é que já ninguém acredita em Bush e Cheney, mesmo em relação aquilo que dizem poder vir a fazer, e provavelmente querem mesmo fazer.

O militarismo machista não está a resultar para os Estados Unidos, hoje em dia. O realismo como alternativa imperialista assemelha-se bastante a uma táctica desesperada. Mas haverá outras tácticas para os Estados Unidos no Médio Oriente?

Immanuel Wallerstein

15 de Março de 2008

Tradução de Juliana Pereira

 
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