"Destino Manifesto"?* criar PDF versão para impressão
14-Abr-2008
uri_avnery.jpgEm Maio próximo, Israel vai comemorar o seu 60º aniversário. O governo trabalha febrilmente para converter a data numa ocasião de alegria e júbilo. Num momento em que tantos problemas sérios aumentam por falta de fundos, 40 milhões de dólares foram destinados às festas do aniversário. Mas a nação não pensa em celebrações. Israel vive tempos sombrios.

Não falta quem culpe o governo por tantas sombras. O refrão é "Não temos agenda", "Eles só pensam na própria sobrevivência." (A palavra "agenda" está na moda nos círculos políticos em Israel, pronunciada como em inglês e já pôs de lado a palavra em hebraico, perfeitamente adequada.)

É difícil não culpar o governo, com Ehud Olmert a discursar sem parar, pelo menos um discurso por dia. Hoje numa convenção de empresários da indústria, amanhã num jardim de infância; e sempre repete o mesmo nada. Não há agenda nacional, nem agenda económica, nem agenda cultural. Nada. Coisa alguma.

Quando chegou ao poder, Ehud Olmert apresentou algo que tinha nome de agenda e parecia agenda: "Hitkansut", palavra intraduzível que significa, aproximadamente, "contratar", "convergir", "reunir". Parecia estar prevista para ser uma operação histórica: Israel cederia parte significativa dos territórios ocupados, desmontaria as colónias ao leste do Muro de Separação e anexaria as colónias entre a Linha Verde e o Muro.

Hoje, dois anos e uma guerra depois, nada restou; até a palavra foi esquecida. O jogo da moda na cidade é "negociar" com a Autoridade Palestina, negociação que, para começar, é completa farsa. Como actores de palco, que bebem de copos vazios, todos os partidos fingem que há negociações em andamento. Eles reúnem-se, abraçam-se, sorriem, posam para fotos, combinam novas reuniões, dão conferências de imprensa, fazem declarações - e nada, absolutamente nada, acontece.

A quem interessa a farsa? Cada um dos participantes tem os seus próprios interesses: Olmert precisa de uma agenda para preencher o vácuo. George Bush, pato manco, presidente que já não preside e nada deixará à posteridade, além de ruínas, ruínas por todos os lados, precisa mostrar pelo menos um grande feito, por fictício que seja. O pobre Mahmud Abbas, cuja sobrevivência depende de sua habilidade para mostrar ao seu povo algum feito político, pendura-se às próprias ilusões com toda a energia que lhe resta. E a farsa continua.


MAS ERRAM OS QUE PENSEM que o governo não tem agenda e que o Estado de Israel não tem agenda. Claro que há uma agenda, mas é uma agenda oculta. Mais precisamente: a agenda é inconsciente.

Há também quem diga que a ideologia morreu. Outro erro. Não há sociedade sem ideologia, e não há ser humano sem ideologia. Quando não há ideologia nova, é a ideologia velha, que continua activa e operante. Quando não há ideologia consciente, há alguma ideologia inconsciente, que pode ser muito mais potente - e muito mais perigosa.

Por quê? Porque, se é ideologia consciente, pode-se analisar a ideologia, ela pode ser criticada, desmascarada. É muito mais difícil lutar contra ideologias inconscientes, que dirigem a agenda sem jamais aparecerem. Por isto é tão importante localizar, expor e analisar a ideologia inconsciente que, hoje, ainda rege o Estado de Israel.

Se se interroga Olmert, ele nega incansavelmente que não tenha agenda. Diz que a agenda existe e é excelente: fazer a paz (actualmente chamada de "status permanente"). E não qualquer paz, mas uma paz baseada em "Dois Estados para dois povos". Sem esta paz, Olmert já decretou, "o Estado está acabado".

Neste caso, por que não há negociação? Por que a farsa continua? Por que continuam a construir colónias, também a leste do Muro, em áreas que eles mesmos dizem que devem ser parte do território palestino? Por que o governo ordena e executa dúzias de incursões militares e civis, diariamente, sem parar, acções que nos afastam cada vez mais da paz, todos os dias?

Segundo o próprio governo, e ao contrário do que nos diziam antes, ninguém está a pensar em paz para 2008. No máximo, talvez, algum "acordo de prateleira" (invenção israelita, para dar nome a um tipo de acordo que se faz para ser deixado na prateleira, "até que as condições amadureçam"). Noutras palavras, só há negociações que não levem a nada, para fazer acordos que nada signifiquem. E já começaram a dizer que nem isto será possível, nem em 2008 nem em futuro previsível.

Não há como fugir da conclusão inevitável: o governo de Israel não trabalha pela paz. E tampouco há oposição efectiva, que trabalhe pela paz, nem no Parlamento nem nos média.

O que isto significa? Que não temos agenda? Não. Isto significa que, por trás da agenda fictícia que aparece nos média, há outra agenda, uma agenda oculta, uma agenda que ninguém vê.


A AGENDA OCULTA não visa a paz. Por quê?

A sabedoria convencional diz que o governo de Israel não quer a paz porque teme os colonos e os que os apoiam. A paz de que se fala - a paz de Dois Estados para Dois Povos - exige a remoção de dúzias de colónias, inclusive as que abrigam os líderes políticos e ideológicos de todo o movimento. Isto será como declarar guerra a 250 mil colonos israelitas, descontados os que sairiam voluntariamente, interessados na generosa indemnização. O argumento mais repetido ultimamente é que o governo não é suficientemente forte para este tipo de confronto.

Segundo a fórmula que está na moda, "os dois governos - israelita e palestiniano - são fracos demais para construir a paz. A paz, portanto, tem de ser adiada, até que surjam lideranças mais fortes, nos dois lados". E há quem inclua aí a administração Bush - porque presidente em final de mandato tampouco consegue impor a paz.

O facto é que as colónias são o sintoma; não são o problema. Além do mais, por que o governo de Israel continua a construir colónias? Por que não pára de construir? Se as colónias israelitas em territórios palestinianos são o principal obstáculo à paz, por que continuam a crescer? E por que há novas colónias sendo construídas hoje, disfarçadas, chamadas de "periferias" das colónias já existentes?

Evidentemente, as colónias também são apenas um pretexto. Há algo muito mais profundo, que explica por que o governo de Israel - e todo o sistema político israelita - rejeita a paz. Aí está, activa, a agenda oculta.


ONDE ESTÁ o coração da paz? Está numa fronteira. Quando dois povos que vivem em áreas contíguas fazem a paz, eles demarcam, antes de tudo, a fronteira entre ambos.

E aí está, precisamente, o que o establishment israelita não quer fazer, porque a demarcação desta fronteira contraria o ethos básico da empreitada sionista.

Sim, é verdade: o movimento sionista já traçou mapas, em vários momentos da história. Depois da I Guerra Mundial, o movimento submeteu à conferência de paz o mapa de um Estado judeu, que ia do rio Litani, no Líbano, a El-Arish, no deserto do Sinai. O mapa de Vladimir Ze'ev Jabotinsky, que se converteu em emblema do Irgun, copiava as fronteiras do Mandato Britânico nas duas margens do Jordão. Israel Eldad, um dos líderes do "Grupo Stern", distribuiu durante muitos anos um mapa do Império de Israel que ia do Mediterrâneo ao rio Eufrates e incluía toda a Jordânia e o Líbano, além de partes da Síria e do Egipto. O seu filho, Arieh Eldad, ultra-direitista, hoje no Parlamento, não desistiu deste mapa. Depois da Guerra dos Seis Dias, o mapa dos ultra-direitistas passou a incluir todas as ‘conquistas', as colinas de Golan e toda a península do Sinai.

Mas estes mapas são desnecessários. Os sionistas não consideram mapas: só vêem um Estado sem fronteiras - em eterna expansão, que acompanha o poder demográfico, militar e político. A estratégia sionista é a estratégia das águas de um rio que corre para o mar. O rio serpenteia na paisagem, contorna obstáculos, vira à direita, vira à esquerda, às vezes corre na superfície, às vezes corre subterrâneo e, no caminho, recebe afluentes. No fim, chega ao destino.

Esta é a agenda real, inalterável, oculta, tanto consciente quanto inconsciente. Não se exigem decisões de percurso, formulações ou mapas, porque aquela agenda está inscrita nos genes do movimento sionista. Isto explica, dentre outros factores, o fenómeno descrito no "Relatório"1 assinado por Talia Sasson, Procuradora-Geral do Estado, em 2005, sobre as colónias israelitas: que todos os órgãos do establishment em Israel, o governo e os militares, sem qualquer coordenação, mas em cooperação miraculosamente efectiva, operavam para implantar e manter "colónias ilegais". Cada um dos milhares de funcionários públicos e oficiais militares que trabalharam durante décadas naquela empreitada sabia exactamente o que fazer, mesmo quando não havia nem instruções nem orientações directas.

Aí está a razão pela qual David Ben-Gurion se recusou a incluir qualquer menção a "fronteiras", na Declaração de Independência do novo Estado de Israel. Ben-Gurion jamais teve intenção, nem por um minuto, de satisfazer-se com as fronteiras fixadas dia 29/11/47 pela Assembleia Geral da ONU. Todos os seus sucessores pensavam como ele. Mesmo nos acordos de Oslo, só são delineadas "zonas", e não se demarcou um palmo de fronteira. O presidente Bush aceitou também este conjunto de ideias, quando propôs um "Estado palestino com fronteiras provisórias" - completa novidade na legislação internacional.

Também nisto, Israel assemelha-se aos EUA - fundado no litoral ocidental, e que não descansou enquanto não levou a fronteira até o Pacífico, na banda oposta do continente. A corrente incessante de imigração maciça, da Europa e "rumo ao oeste", ultrapassando todas as fronteiras e violando todos os acordos - e exterminando as populações nativas do continente americano -, incluiu uma guerra contra o México, e conquistou o Texas, e invadiu a América Central e Cuba. O slogan que os impulsionava e justificava todas as acções de invasão e conquista foi cunhado em 1845, por John O'Sullivan: Manifest Destiny, "Destino Manifesto"2.

A versão israelita do "Destino Manifesto" é o slogan de Moshe Dayan "Somos predestinados" (We are fated). Dayan, representante típico da segunda geração, fez, em toda a sua vida, dois discursos importantes. O primeiro, mais conhecido, é de 1956, junto ao túmulo de Roy Rutenberg de Nahal Oz, um kibbutz do qual se vê Gaza: "Diante dos olhos deles [dos palestinianos em Gaza], estamos de volta à nossa pátria-mãe, terra e cidades, onde eles viveram e onde viveram os ancestrais deles... Este é o destino de nossa geração, a escolha das nossas vidas - continuar a postos e armados, fortes e duros - ou eles vão arrancar as espadas das nossas mãos e a vida do nosso corpo." Não falava só da sua geração.

O segundo discurso, menos conhecido, é mais importante. Foi proferido em Agosto de 1968, depois da ocupação das colinas de Golan, para um esquadrão de jovens kibbutzniks. Quando lhe perguntei sobre este discurso, Moshe Dayan mandou gravá-lo todo nos Anais do Parlamento, procedimento muito raro em Israel.

Eis o que disse, falando à juventude: "Somos predestinados a viver em permanente estado de luta contra os árabes (...) Por séculos, no Retorno a Sion, trabalhamos para duas coisas: construir a terra e construir o povo. (...) É um processo de expansão, mais judeus e mais colónias (...) Este processo ainda não chegou ao fim. Nascemos aqui e aqui encontramos os nossos pais, que vieram antes de nós (...) Não temos o dever de completar o trabalho. O nosso dever é acrescentar a nossa parte, expandir a colónia até o máximo que nos permita a nossa habilidade, durante a nossa vida. (E) ninguém jamais diga: só até aqui; chega, terminamos."

Dayan, que era versado nos textos antigos, tinha em mente uma frase do "Capítulo dos Pais" (parte do Mishnah, compilado há 1.800 anos e que é a base do Talmude): "Não depende de ti completar o trabalho, e não és livre para parar de trabalhar".


ESTA É A AGENDA oculta de Israel - que temos de arrancar de nosso inconsciente profundo. Só assim conheceremos o risco terrível inerente a este modo de pensar - o risco de perenizar a guerra, de envolver-nos numa guerra eterna que, no longo prazo, levará o Estado de Israel ao desastre.

Ao aproximar-se o aniversário de 60 anos do Estado de Israel, é preciso pôr um fim neste capítulo da história de Israel. Temos de exorcizar este passado; temos de nos livrar deste espírito desencaminhado que ainda vive entre nós, um dybbuk, e temos de dizer claramente: sim, chegamos ao fim do capítulo. Nunca mais haverá em Israel, nem a ânsia de expansão, nem a violência da ocupação e da colonização.

Se o fizermos, teremos conseguido alterar o curso do rio. A ocupação chegará ao fim. Desocuparemos a terra dos palestinianos. Nenhuma colónia. Haverá paz. Haverá vizinhos reconciliados. Israel será, afinal, Estado pacífico, democrático, secular e liberal - e poderá, afinal, devotar todas as suas riquezas à construção de uma sociedade moderna, florescente.

Antes de tudo, em primeiro lugar: é preciso demarcar fronteiras.


URI AVNERY

12/4/2008, publicado originalmente em Gush Shalom [Grupo da Paz]. "Manifest Destiny?". Em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1208037443/ Copyleft.

Tradução do Blog do Bourdoukan, adaptado para Portugal por Luis Leiria

1 Sobre o Relatório, ver artigo publicado em 8/3/2005, no Financial Times (UK), traduzida para o português pelo Movimento "Paz Agora/BR", em http://www.pazagora.org/impArtigo.cfm?IdArtigo=186.

2 Sobre isto, ver "Manifest Destiny", na Wikipedia, em http://en.wikipedia.org/wiki/Image:American_progress.JPG

 
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