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18-Abr-2008
Alice BritoNo dia 3 de Janeiro de 2008, Pequim começou a deitar fora os seus mendigos.
Uns foram levados para longe da cidade, sabe-se lá para onde, sendo que outros, foram conduzidos a campos de reeducação, conhecidos pelos seus procedimentos torturadores.

Certamente quem deu esta ordem de retirada, pensou que aquelas criaturas frágeis e fragilizadas por uma pobreza ossuda e uma dignidade engelhada, não eram coincidentes com o garbo e a elegância de que a cidade se pretende vestir durante os próximos jogos olímpicos.

Os mendigos de Pequim trabalham na reciclagem de latas e garrafas.

Levam cerca de 3 minutos e meio a revistar uma lixeira para dela recolherem estes restos que vendem depois por algumas moedas.

Vivem em pequenas caixas de cartão onde guardam o corpo nas noites que há para cumprir na húmida e fria cidade de Pequim.

Um jornalista estrangeiro olhou o conjunto cúbico das caixas abrigo e pensou tratar-se de um pombal.

No Inverno, quando o dia repentinamente se vai embora e a noite cai com urgência nas ruas magras, habitadas por aquelas caixas que se arrumam em fila, geometricamente, rente aos muros, os mendigos encolhidos como bichos da conta em perigo, pensam nos sítios de onde vieram e nas promessas que Pequim lhes oferecia, quando chegados dos confins da China aí tenteavam caminhos para vidas melhores.

A cidade pressentida e sonhada, a cidade trabalhadora e da indústria, a cidade do emprego e das casas, voltou-lhes as costas sem piedade nem remorso sacudindo-os para fora do seu incumprido destino de habitantes sólidos.

Pequim arde na febre do consumo e da produção pré-olímpica. Território de desperdício e lixo metálico, onde vivem milhões com os pulmões e os nervos esgatanhados pelo caos da poluição e da balbúrdia do trânsito, a cidade deitou fora os seus mendigos como quem sacode o pó de um tapete.

As cidades, espaços de lazer e ócio quando se entregam afáveis e amistosas, estendendo as avenidas como passadeiras aveludadas na luz equívoca do entardecer, podem também ser calculistas e brutais, áreas de sofrimento e exclusão, quando se fecham e se interditam em desamores pesados.

Os mendigos de Pequim não conhecem a cor do afecto da cidade. Dentro das suas caixas de cartão, sentiam no Janeiro de 2008 o frio a zurzir-lhes o corpo e sonhavam com o Verão a abater-se sobre a cidade transpirada e atlética.

Pombos, lhes chamou o jornalista. Sem milho, sem asas e sem liberdade.

De bico calado foram levados à força para fora dos muros da cidade, espelho fiel do absurdo mundo infame e globalizado que deixámos acontecer.

O neoliberalismo promove a globalização da pulhice.

Alice Brito

 
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