Lusolindo, paradigma de um país sem lei criar PDF versão para impressão
22-Abr-2008
moises_ferreira.jpgSão 80 trabalhadores que passam as noites em vigília à porta da fábrica. A chuva cai forte, o vento canta nas golas dos casacos, mas a necessidade da sobrevivência esperta-lhes o sono e ficam, noite inteira, encostados à parede. Encostados à parede por um bando de patrões que dormem alarvemente; encostados à parede por uma lei laboral que os desprotege.

A empresa Lusolindo fica em S. João da Madeira; labora na área do calçado e até há pouco tempo empregava 80 trabalhadores. Agora estes tentam impedir que os patrões lhes roubem as máquinas e o recheio da empresa que construíram com o seu trabalho de décadas. Vivem pela madrugada dentro, em vigília. A qualquer hora, no escuro, alguém pode vir arrombar a porta da empresa para lhes levar tudo.

A empresa Lusolindo é um paradigma, um exemplo de um Portugal sem lei. As máfias laborais operam descartando os trabalhadores e abrem uma nova empresa 100metros mais à frente. Declaram falência e acumulam riqueza. Não pagam os direitos aos trabalhadores e deixam que seja a Segurança Social a tratar do assunto. Para o Governo, tudo está bem assim. O que é preciso é flexibilizar, e "porreiro pá", que a crise já acabou!... 

Os sócios maioritários da Lusolindo votaram pelo encerramento da empresa. Dizem que não há encomendas, que está tudo mal, já nem ganham para pasta de dentes, os coitados! Coincidência das coincidências, um desses mesmos sócios tem já montada uma nova empresa de calçado, de seu nome BlueShoes, a meia dúzia de quilómetros, para onde, dizem, andou a desviar encomendas e peles, deixando, efectivamente a Lusolindo sem encomendas. 

Os sócios que querem o encerramento da empresa estão todos de muito boa fé; querem tudo certinho e os trabalhadores estão no topo das prioridades, mas andam há dias a arrastar o pedido de processo de insolvência, apesar de já terem dito amavelmente aos trabalhadores "Estão todos despedidos". E ponto final na conversa, que patrão que é patrão, é pago para tomar decisões. 

Parece que na 5ª-feira e na 6ª-feira passadas alguns camiões foram levantar as encomendas de sapatos que haviam na empresa, e consta que o pagamento dessas encomendas até já caiu na conta da empresa; mas o processo de insolvência ainda não avançou... 

Pergunta: "Será que os patrões da Lusolindo andam a ganhar tempo para levantar tostão por tostão aquilo que resta na conta da empresa e só depois abrem o processo de insolvência, para mostrar que estavam tão pobres, tão pobres, que afinal na conta bancária já não resta dinheiro para indemnizar os trabalhadores?" 

Tentativa de resposta: Dois sócios minoritários da empresa (e que são a favor da continuidade laboral da mesma) já disseram que a situação na Lusolindo não é devida a dificuldades económico-financeiras, mas sim a partilha de bens entre sócios, que querem, numa aventura self-made man, espartilhar a riqueza e partir cada um no seu caminho. Os bolsos com as vidas de trabalho dos seus 80 assalariados. Sem remorso... E a Segurança Social que lhes pague qualquer coisinha pelos 40 anos de trabalho ao serviço da empresa... 

E o Estado; e o Governo? Investiga? Não investiga. É falência fraudulenta? Tem aspecto de ser. Mas vão ser penalizados os patrões? Não me parece. Mas violam a lei? Parece que sim. E o que lhes acontece? Ficam um bocadinho mais ricos do que antes. 

O Bloco de Esquerda pediu já a investigação ao caso por crer que está em curso uma autêntica falência fraudulenta. É preciso pôr fim a este tipo de ladrão-camaleão travestido de patrão que pensa que pode pôr e dispor dos trabalhadores à medida das suas necessidades. O Governo fecha os olhos e para ele todo o processo é Simplex; é mercado; é liberal; é paradigma financeiro, é Europa três chic!"; é flexibilidade. Não investigam, mas deviam, porque isto é roubo, é pilhagem, é engano, é extorsão, é desemprego, é pobreza, é crise. E ela não acabou... pelo menos para a grande maioria dos portugueses. 

E, subitamente, no meio deste pasquinho mafioso esquecemo-nos dos trabalhadores... São 80. Muitos com quarenta anos de casa. A maioria deles com mais de 45 anos de idade. E uma dúzia de exemplos de casais que trabalham na mesma fábrica. Uma dúzia de famílias que vão ficar sem sustento por parte do homem e por parte da mulher. 

São 80 trabalhadores e não podem ser esquecidos. Eles lá estão; noite fora a guardar os portões da fábrica. Não podem permitir que retirem as máquinas da empresa, senão não existe qualquer vislumbre de negociação, nenhum vislumbre de solução. 

São 80 trabalhadores, homens e mulheres com uma vida passada e um futuro amargo. A chuva cai forte, o vento canta nas golas dos casacos, mas a necessidade da sobrevivência esperta-lhes o sono e ficam, noite inteira, encostados à parede. E não podem ser esquecidos! 

O Bloco de Esquerda não os esquece. Passou toda a noite com eles. Sentiu a chuva e a revolta dos desprotegidos que o Governo mais desprotege.  

Na casa mesmo em frente, um dos sócios da empresa dormia há horas, embalado no canto do fim da crise... Mas nós preferimos o som da rua, a voz dos sem voz!

Moisés Ferreira

 
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