O leão e a gazela criar PDF versão para impressão
28-Abr-2008
Uri AvneryOntem à noite, judeus em todo o mundo celebraram o Sêder, a única cerimónia que une os judeus, onde estejam, ao seu mito fundador: o Êxodo, a saída do Egipto.
Todos os anos me maravilho com o calor desta cerimónia. Reúne-se a família, e todos - do mais venerável avô ao bebé recém-nascido - têm um papel a desempenhar.

Convocam-se todos os sentidos: a visão, a audição, o olfacto, o gosto e o tacto. O texto do Haggadah, que se lê em voz alta, o alimento simbólico, as quatro taças de vinho, o canto que todos cantam, a exacta repetição de todos os passos, ano após ano - tudo isto se imprime na consciência das crianças desde a mais tenra idade, numa memória que não se apaga e que continua com todos até o túmulo, sejam adultos religiosos ou não. Ninguém esquece a segurança e o calor da grande família à volta da mesa do Sêder, e aquela lembrança permanece, sempre evocada com nostalgia, até à velhice. Um cínico verá aí um exemplo perfeito de lavagem cerebral.

Confrontadas com o poder deste mito, o que importam as evidências de que o Êxodo do Egipto jamais aconteceu? Milhares de documentos egípcios decifrados em anos recentes não permitem duvidar: jamais aconteceu qualquer êxodo em massa, como descrito na Bíblia, nem qualquer movimento remotamente semelhante àquilo. Os documentos que hoje se conhecem, que cobrem detalhadamente cada área e todas as épocas da Canã de então, provam que não houve qualquer "Conquista de Canã", nem reino de David e Salomão. Durante um século, arqueólogos sionistas devotaram esforços incansáveis à tarefa de buscar qualquer prova, por mínima que fosse, que confirmasse a narrativa bíblica. Nada encontraram.

Nada disto importa. Na luta entre a história "objectiva" e o mito, o mito que atende às necessidades de Israel sempre vencerá. De goleada. Não importa o que houve, só importa o que incendeie a imaginação dos israelenses. Assim chegamos ao dia-a-dia que Israel vive hoje.

A narrativa bíblica só se conecta à história documentada à altura do ano 853 a.C., quando os 10 mil soldados e os 2.000 carros de combate de Ahab, rei de Israel, se aliaram, numa grande coalizão, aos reinos da Síria e da Palestina, contra os assírios. A batalha, documentada pelos assírios, aconteceu em Qarqar, na Síria. Se não derrotaram os assírios, conseguiram, pelo menos, detê-los.

(Uma nota pessoal: Não sou historiador, mas penso sobre a história de Israel há muitos anos; cheguei a algumas conclusões, que aqui apresento. Muitas destas conclusões estão baseadas no que já é consensual entre vários especialistas, em todo o mundo.)

Os reinos de Israel e Judá, que cobriram parte do território entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, em nada diferiam de outros reinos da região. A Bíblia diz, bem claramente, que por ali se ofereciam sacrifícios a várias divindades pagãs "em qualquer colina e à sombra de qualquer árvore verdejante" (Primeiro Livro dos Reis, 14:23).

Jerusalém era uma pequena vila, uma feira, pequena demais e pobre demais para que ali ocorressem os eventos narrados na Bíblia, àquela época. Nos livros da Bíblia que tratam daquele período, praticamente não se encontra a palavra "judeu" (Yehudi, em hebraico); e, quando aparece, a palavra designa simplesmente algum habitante da Judéia, região à volta de Jerusalém. Quando, na Bíblia, se ordena a um general assírio que "não nos fales em hebraico" (Segundo Livro dos Reis, 18:26), entende-se por "hebraico" um dialecto local, falado apenas naquela região.

A revolução "dos judeus" aconteceu no exílio da Babilónia (587-539 a.C.). Depois que os babilónios conquistaram Jerusalém, membros da elite dos judeus foram exilados para a Babilónia, onde entraram em contacto com importantes correntes culturais do tempo. Daí resultou uma das maiores criações da humanidade: a religião judaica.

Passados cerca de 50 anos, alguns dos exilados voltaram à Palestina. Traziam com eles o designativo "judeus", que se aplicava a um movimento religioso-político-ideológico; dizia-se "judeus", mais ou menos como hoje se diz "sionistas". Portanto, só depois deste retorno é que se pode falar de "judaísmo" e de "judeus" - no sentido que hoje se atribui a estas palavras. Nos 500 anos seguintes, a religião monoteísta judaica gradualmente se cristalizou. Naquele mesmo momento, foi composta uma das criações literárias mais extraordinárias de todos os tempos - a Bíblia Hebraica. Os que escreveram a Bíblia não pretenderam registrar a "história", no sentido que hoje se dá a esta palavra; sabiam que estavam compondo um texto religioso, edificante e instrutivo.

Para entender o nascimento e o desenvolvimento do judaísmo, é preciso considerar dois fatos importantes:

(a) Desde o início, quando os "judeus" voltaram da Babilónia, a comunidade judaica foi minoria entre os judeus em geral. Ao longo do período do "Segundo Templo", a maioria dos praticantes do judaísmo vivia longe dali, em áreas que hoje se conhecem como Iraque, Egipto, Líbia, Síria, Chipre, Itália, Espanha e outras.

Os judeus, naquele momento, não eram uma "nação" - ideia que ainda nem nascera. Os judeus da Palestina não participaram das rebeliões de judeus na Líbia e em Chipre, contra os romanos; e os judeus de outros locais não participaram da Grande Revolta dos judeus em Israel. Os macabeus não foram guerreiros ‘nacionalistas'; foram guerreiros religiosos, praticamente como o Taliban que conhecemos hoje; e mataram muito mais judeus ‘helenizados' do que os soldados inimigos.

(b) A diáspora dos judeus não é fenómeno único. Ao contrário: a diáspora, naquele momento, era norma. Noções como "nação" são conceitos do mundo moderno. Durante o tempo do "Segundo Templo", e dali em diante, o padrão sociopolítico era o de uma comunidade político-religiosa que se autogovernava e não estava ligada a nenhum específico território. Um judeu em Alexandria podia casar com judia em Damasco, mas não com a mulher cristã da esquina de sua casa. Ela, por sua vez, podia casar com um cristão em Roma, mas não com o vizinho helenista. A diáspora dos judeus foi uma, dentre outras, em comunidades deste tipo.

Este padrão social foi preservado no Império Bizantino, assumido depois pelo Império Otomano; e ainda há vestígios dele no Direito israelita. Hoje, uma muçulmana israelita não pode casar com um judeu israelita; drusos não podem casar com cristãos (não, pelo menos, em Israel). Os drusos, já que se falou deles, são exemplo sobrevivente daquela específica diáspora.

Os judeus só são únicos, num aspecto: depois de os povos europeus se moverem gradualmente para novas formas de organização, e se converterem, afinal, cada povo, em nação, os judeus continuaram a ser o que já eram: uma diáspora comunal-religiosa.

O quebra-cabeças que preocupa os historiadores é: como uma minúscula comunidade de exilados babilónicos se converteu em diáspora planetária, de milhões? Só há uma resposta convincente a esta pergunta: a conversão.

O moderno mito judeu diz que todos os judeus são descendentes de uma comunidade de judeus que viveu na Palestina há 2.000 anos e foi expulsa de lá pelos romanos, no ano 70 da era cristã. Esta ideia não tem, é claro, qualquer fundamento. A "expulsão da própria terra" é um mito religioso: Deus, desgostoso dos judeus por seus muitos pecados, exilou-os de Sua terra (da terra de Deus). Mas os romanos não tinham o hábito de movimentar grandes populações, e há muitas evidências de que grande parte da população judaica permaneceu no país depois da Revolta dos Zelotes e depois do levante de Bar-Kochba; e de que a maioria dos judeus vivia longe daqui, desde antes.

À época do Segundo Templo e depois, o judaísmo era, par excellence, religião de prosélitos. Durante os primeiros séculos da era cristã, o judaísmo competiu ferozmente com o cristianismo. Ao tempo em que os escravos e outros povos oprimidos no Império Romano foram mais atraídos pela religião cristã, com a sua comovente história humana, as classes superiores tenderam na direcção do judaísmo. Ao longo do período imperial, muitos abraçaram o judaísmo.

A origem dos judeus asquenazis é particularmente intrigante. Ao final do primeiro milénio, surgiram na Europa - saídos não se sabe de onde - muitos judeus cuja existência jamais havia sido documentada. De onde vinham?

Há várias teorias sobre os judeus asquenazis. A mais aceite convencionalmente diz que os judeus vagaram do Mediterrâneo para o norte, concentraram-se no vale do Reno e dali, fugindo dos pogroms, chegaram à Polónia - naquele tempo o país mais liberal da Europa. Dali se dispersaram pela Rússia e Ucrânia, levando com eles o dialecto alemão que se converteria no iídiche. Para o professor Paul Wexler, da Universidade de Telavive, a história é outra e o íidiche seria dialecto não do alemão, mas de uma língua eslava. Por esta hipótese, muitos dos judeus asquenazis seriam descendentes dos sérvios, povo eslavo que viveu no leste da Alemanha e foi forçado a abandonar seus credos pagãos ancestrais. Muitos deles tornaram-se judeus, em vez de se tornarem cristãos.

Em livro recentemente lançado, com o provocativo título de "When and How the Jewish People was Invented" 1("Quando e como o povo judeu foi inventado"), o historiador israelita Shlomo Sand argumenta - como Arthur Koestler e outros antes dele - que muitos dos judeus asquenazis são, de facto, descendentes dos khazars, povo turco que criou um grande império na região que é hoje o sul da Rússia, há mais de mil anos. O rei dos khazars converteu-se ao judaísmo e, conforme esta teoria, os judeus do leste da Europa seriam, na maioria, descendentes de khazars conversos. Sand também acredita que muitos dos judeus sefarditas são descendentes de tribos árabes e berberes do norte da África que não se tornaram muçulmanas e se converteram ao judaísmo; e que participaram da conquista da Espanha.

Quando o judaísmo deixou de ser religião de prosélitos, os judeus tornaram-se comunidade étnico-religiosa fechada (como diz o Talmud: "os conversos são difíceis para Israel, como doença de pele").

Mas a verdade histórica, seja qual for, pouco importa. O mito é mais forte que a verdade; e o mito diz que os judeus foram expulsos de sua terra. Este é um estrato fundacional na consciência moderna dos judeus, e não há pesquisa académica que o sacuda.

Nos últimos 300 anos, a Europa ‘nacionalizou-se' em várias nações. A nação moderna substituiu os antigos padrões sociais (a cidade-estado, a sociedade feudal e o império dinástico). A ideia de nação tudo arrastou, como avalanche, inclusive a história. Cada uma destas novas nações formalizou uma "história imaginada" para ela mesma. Em outras palavras, cada nação reacomodou os antigos mitos e os factos históricos de modo a modelar uma "história nacional" própria, para proclamar a própria importância e servir como solda que tudo unifica.

A diáspora dos judeus, que - como já disse - era ‘normal' há 2000 anos, tornou-se ‘anormal', excepcional. Isto intensificou o ódio aos judeus, que de certo modo já crescia na Europa cristã. Dado que os nacionalismos europeus eram - mais ou menos - anti-semitas, muitos judeus sentiram que estavam a ser "excluídos", que não havia lugar para eles na nova Europa. E alguns decidiram que os judeus deviam acompanhar os sinais dos novos tempos: e a comunidade dos judeus foi convertida numa "nação" dos judeus.

Para operar a transformação, foi necessário remodelar e reinventar uma história judaica; e converter a diáspora étnico-religiosa em mito épico da história de uma "nação". Este foi o trabalho de um homem que pode ser considerado padrinho da ideia sionista: Heinrich Graetz, judeu alemão que foi influenciado pelo nacionalismo alemão e criou uma história nacional judaica. As suas ideias modelaram e até hoje ainda modelam a consciência dos judeus.

Graetz tomou a Bíblia como se fosse história; reuniu todos os mitos e construiu uma narrativa histórica completa e contínua: o período dos Patriarcas, o Êxodo do Egipto, a Conquista de Canã, o "Primeiro Templo", o Exílio na Babilónia, o "Segundo Templo", a Destruição do Templo e o Exílio. Esta é a história que todos os israelitas aprendemos na escola - e é o fundamento sobre o qual se construiu o sionismo.

O sionismo foi uma revolução em muitos campos, mas a revolução mental nunca foi completa. A sua ideologia converteu a comunidade dos judeus em povo judeu, e converteu o povo judeu em nação judaica - mas jamais definiu claramente qualquer diferença. Para conquistar as massas de judeus com inclinação religiosa no Leste europeu, o sionismo tornou-se também religioso e misturou tudo num coquetel complexo - a religião é também nação; e a nação é também religião. Mais tarde, acrescentou-se a ideia de que Israel é um "Estado judeu" que pertence aos seus cidadãos (judeus?), mas pertence também ao "povo judeu" espalhado pelo mundo. Para a doutrina oficial israelita, Israel é o "Estado-nação judeu"; mas, para o Direito israelita, "judeu" é quem pratica a religião judaica.

Faltou coragem a Herzl e aos seus sucessores para fazer o que fez Mustafa Kemal Ataturk, ao fundar a moderna Turquia: fixou limites claros entre a nação turca e a religião islâmica; e impôs a completa separação entre ambas. Em Israel, tudo continuou uma enorme salada. A confusão tem muitas implicações na vida real.

Por exemplo: se Israel é o Estado do "povo judeu", como diz uma das leis israelitas - o que impede um judeu israelita de se juntar à comunidade judaica na Califórnia ou na Austrália? Não surpreende, de facto, que praticamente todos os filhos dos líderes israelitas já tenham emigrado.

Por que é tão importante estabelecer limites entre a nação israelita e a diáspora judaica? Uma das razões é que "nações" não se definem para elas mesmas e frente às demais nações como uma diáspora étnico-religiosa.

Pelo mesmo princípio, animais diferentes têm diferentes modos de reagir às ameaças. Uma gazela dispara a correr, ao primeiro sinal de perigo; e a natureza a equipou com os instintos necessários e com as necessárias capacidades físicas. Um leão, por sua vez, firma-se no território e o defende, se o sente ameaçado. Os dois métodos têm boas chances de sucesso, ou já não haveria no mundo nem gazelas nem leões.

A diáspora judaica desenvolveu resposta eficiente, bem adequada à sua realidade: quando os judeus se sentem ameaçados, dispersam-se. Por isto a diáspora judaica conseguiu sobreviver a inúmeras perseguições, e até ao Holocausto. Quando os sionistas decidiram converter-se em nação - e, de facto, criaram uma verdadeira nação em Israel - adoptaram a resposta nacional: defender-se nacionalmente e atacar as fontes de perigo. Mas é impossível ser diáspora e ser nação, ser gazela e ser leão, ao mesmo tempo.

Se os israelitas queremos consolidar a nossa nação, temos de nos livrar dos mitos que nos prendem a outro modo de existir; e temos de redefinir a nossa história nacional. O conto que narra o êxodo do Egipto é bom como mito e alegoria - ele celebra o valor da liberdade. Mas temos de saber ver a diferença entre mito e história; entre religião e nação; entre uma diáspora e um Estado, para descobrir o lugar que nos cabe na região onde vivemos; e para conseguir estabelecer relações normais de convivência com os outros povos que também vivem aqui, nossos vizinhos.

NOTAS

Uri Avnery. The Lion and the Gazelle. 19/4/2008. Gush Shalom [Grupo da Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1208037443/

Tradução do blog do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

1 SAND, Shlomo. 2007. Matai ve'ech humtza ha'am hayehudi? [Quando e onde o povo judeu foi inventado], Telavive: Resling (em hebraico). Sobre o livro, ver "Shattering a 'national mythology'", artigo de Ofri Ilani, no jornal Haaretz, 21/3/2008, na internet, em http://www.haaretz.com/hasen/spages/966952.html, em inglês.

 
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