A crise do PSD está longe de acabar criar PDF versão para impressão
29-Abr-2008
Rui BorgesA sucessão de Menezes já trouxe à baila 5 candidatos para dirigir o PSD. E não se trata de vitalidade democrática mas de mais um sintoma da crise em que está mergulhado o partido. A origem dessa crise é no entanto externa ao partido. O problema é que Sócrates roubou ao PSD o programa neoliberal deixando as hostes laranja de cabeça perdida.

O PS conseguiu assim fazer o que muitos dirigentes laranjas sonhavam mas nunca tiveram coragem de tentar pôr em prática. Alguns exemplos: o aumento da idade de reforma em 5 anos, o ataque sem precedentes ao sistema público de educação ou ao Serviço Nacional de Saúde.

O drama do PSD não é novo nem original. O caso inglês é certamente o mais emblemático de apropriação do programa conservador e neoliberal pelos partidos da social-democracia. Tony Blair conseguiu fazer tudo o que os conservadores nem com Tatcher se atreveram. Privatizações, generalização das parcerias público-privado na saúde e educação, redistribuição da riqueza a favor dos mais ricos e uma aventura colonial no Iraque. Blair conquistou assim uma parte significativa do eleitorado do centro-direita e apoios importantes no mundo dos negócios. Sem discordâncias políticas de fundo com os trabalhistas, os conservadores foram empurrados para a direita e cada vez mais desnorteados refugiaram-se no ataque ao aborto, aos imigrantes e à canabis. Cada vez mais isolados do sentimento popular foram promovendo dirigentes que entre o irrelevante e o lunático se tornaram parte do anedotário nacional. Só agora, 11 anos depois da chegada de Blair ao poder, os conservadores voltaram a surgir nas sondagens como candidatos a uma vitória eleitoral.

É a mesma lógica que faz com que em resposta aos ataques de Sócrates à saúde e à educação Luís Filipe Menezes só pudesse responder com a proposta de mais privatizações. É também essa a razão porque os principais candidatos à liderança são apenas pratos requentados do menu cavaquista. Os próximos anos serão provavelmente de defeso e os dirigentes mais ambiciosos preferem aguardar pacientemente a sua oportunidade.

Para o PS nem tudo são rosas, afinal a aplicação do programa neoliberal tem criado inúmeras tensões no interior do partido. É aqui que as diferenças com o caso inglês se tornam importantes: em Portugal a esquerda tem um peso social e eleitoral muito significativo. E isso pode contribuir para que a crise do PSD possa também contagiar o PS.

Rui Borges

 
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