A ‘solução’ militar criar PDF versão para impressão
30-Abr-2008
Uri AvneryGuerra contra a Síria? Paz com a Síria? Operação-monstro contra o Hamas na Faixa de Gaza? Assinar o cessar-fogo com o Hamas?
Os média israelitas discutem friamente estas opções, como se fossem equivalentes. Como alguém, num stande, a escolher entre dois carros. Este é bom. O outro, também. Por que comprar um e não comprar o outro?
E ninguém grita: A guerra é a estupidez máxima!

Carl Von Clausewitz, conhecido teórico militar, disse que a guerra é a continuação da política, por outros meios. Quis dizer que a guerra serve à política; e que, se não serve à política, não serve para nada.

E a que políticas serviram as guerras dos últimos cem anos?

Há 94 anos, eclodiu a I Guerra Mundial. A causa imediata foi o assassinato do herdeiro do trono da Áustria, cometido por um estudante sérvio. Em Sarajevo, mostraram-me como aconteceu: depois de um primeiro atentado na rua principal, que falhou, os assassinos já haviam desistido, quando um deles ficou próximo da vítima, por puro acaso, e matou. Depois deste assassinato quase acidental, nos quatro anos seguintes morreram muitos milhões de seres humanos.

O assassinato, é claro, foi só o pretexto. Todos, nas nações beligerantes, tinham interesses políticos e económicos que os empurraram para a guerra. Mas a guerra realmente atendeu àqueles interesses? Os resultados sugerem o contrário: três grandes impérios - o russo, o alemão e o austríaco - desmoronaram; a França perdeu o seu lugar entre as potências mundiais e todas as esperanças de recuperá-lo; o império britânico foi mortalmente ferido.

Especialistas militares chamam a atenção para a chocante estupidez de praticamente todos os generais, que jogaram os seus pobres soldados, muitas e muitas vezes, em batalhas irremediavelmente perdidas e nada obtiveram, além da matança.

Os estadistas foram mais espertos? Nenhum dos políticos que iniciaram a guerra imaginou que seria tão longa e tão horrível. No início de Agosto de 1914, quando soldados de todos os países partiam para a frente cheios de entusiasmo, ouviram promessas de que estariam em casa, de volta, "antes do Natal".

Aquela guerra não serviu a nenhum objectivo político. Os acordos de paz que foram impostos aos vencidos são monumentos da mais insuperável imbecilidade. Pode-se dizer que o principal resultado da I Guerra Mundial foi a II Guerra Mundial.

A Segunda Guerra parece ter sido mais racional. O homem que a detonou, praticamente sem qualquer ajuda, Adolf Hitler, sabia exactamente o que queria. Os seus adversários foram obrigados à guerra, sem alternativa, porque não admitiam ser derrotados por um ditador monstruoso. A maioria dos generais, dos dois lados em luta, eram muito mais inteligentes do que os que os precederam. E, mesmo assim, também foi uma guerra estúpida.

Hitler foi, basicamente, um homem primitivo que vivia no passado e não entendeu o Zeitgeist, o espírito do seu tempo. Queria converter a Alemanha numa potência mundial líder - objectivo que estava muito, muito além das suas capacidades. Queria conquistar grandes territórios no Leste da Europa e despejar todos os habitantes, para lá instalar alemães. Não há conceito de poder mais irremediavelmente obsoleto do que este. É uma ideia velha, de séculos, como são até hoje todas as ideias de implantar colónias como um instrumento para nacionalizar. Hitler não entendeu o significado da revolução tecnológica que já então começava a mudar a face do mundo. Pode-se dizer que Hitler não foi apenas mau e tirano, além de monumental criminoso de guerra: foi também perfeito, rematado idiota.

O único dos seus objectivos que Hitler quase alcançou foi aniquilar o povo judeu. Mas, no fim, falhou também neste objectivo de louco: os judeus hoje têm uma poderosa influência dentro do mais importante país da Terra, e o Holocausto foi um factor importante para que se criasse o Estado de Israel.

Hitler quis destruir a União Soviética e conseguiu arrancar um compromisso do Império Britânico. Subestimou os EUA e praticamente os ignorou. O resultado da guerra foi que a URSS tomou grande parte da Europa, os EUA tornaram-se a maior potência do mundo e o Império Britânico desintegrou-se para sempre.

O que o ditador nazi provou, mais do que qualquer outro ditador, no ponto da história em que estamos, foi a insuperável inutilidade da guerra como instrumento político. E, depois de destruído o Reich de Hitler, a Alemanha conseguiu o que ele queria ter conseguido. A Alemanha é hoje o poder económico e político dominante numa Europa unida - o que foi conquistado, não com tanques e armamento pesado, não com a guerra e o poder militar, mas, unicamente, com diplomacia e exportações. Uma geração depois de as cidades alemãs terem sido reduzidas a ruínas na aventura nazi, a Alemanha já florescia como jamais antes florescera.

O mesmo se pode dizer sobre o Japão, que foi ainda mais militarista que a Alemanha. O Japão conseguiu por vias pacíficas, o que generais e almirantes não conseguiram pela guerra.

Uma vez e outra, leio relatos entusiásticos, feitos por turistas norte-americanos, sobre o Vietnam. Que país maravilhoso! Que povo amistoso! Quantos negócios se podem fazer lá! Há apenas uma geração, matava-se e morria-se no Vietname, numa guerra brutal.

No Vietname morreram seres humanos em massa, centenas de vilas foram incendiadas, florestas e plantações foram destruídas por agentes químicos, soldados caíam como moscas. Por quê? Por causa dos dominós.

A teoria dos dominós ‘prescrevia' que, se todo o Vietname fosse tomado pelos comunistas, cairiam todos os países do Sudeste Asiático. Cada um que caísse arrastaria o vizinho, como uma fileira de dominós. A realidade mostrou o completo absurdo desta ideia: os comunistas tomaram todo o Vietname, sem afectar a estabilidade da Tailândia, da Malásia e de Singapura. Quando se apagaram as lembranças da guerra, aconteceu, de facto, que o Vietname seguiu o exemplo do vizinho do norte, a China Vermelha. E, enquanto isto, a China convertera-se em florescente economia capitalista.

Na Guerra do Vietname, a estupidez dos generais competiu ferozmente com a estupidez dos políticos. O campeão destes dois mundos foi Henry Kissinger, criminoso de guerra cujo ego, com dimensões de torre de chegar ao céu, não consegue encobrir a estupidez fundamental. No auge da guerra, Kissinger invadiu o pacífico Cambodja e reduziu-o a cacos. O resultado foi um horrendo auto-genocídio, quando os comunistas assassinaram o seu próprio povo. Apesar disto, ainda há quem considere Kissinger um génio político.

E também há os que entendem que, neste confronto entre gigantescas, descomunais imbecilidades, o prémio cabe à invasão do Iraque, por resultar da futilidade mais tola.

Parece que os líderes políticos em Washington adivinharam o aumento dramático da procura mundial de petróleo. E, então, resolveram assumir a propriedade de todo o petróleo do Golfo Pérsico e da bacia do Cáspio. O Iraque foi invadido para ser convertido num satélite dos EUA, que ali estabeleceria uma base permanente, sob o regime amigo, que manteria sob controle toda a região. Até agora, o resultado é exactamente o oposto disto.

Em vez dos EUA consolidarem o Iraque como país unido sob regime estável e pró-EUA, a região tornou-se um campo de batalha, de guerra civil; o Estado iraquiano trepida, à beira de se desintegrar; os iraquianos odeiam os norte-americanos e vêem-nos como soldados estrangeiros de um exército de ocupação. Extrai-se menos petróleo, hoje, do que antes da invasão; os imensos custos da guerra minam a economia dos EUA; os preços do petróleo dispararam; nunca os EUA viveram um momento de mais baixo prestígio internacional; e os cidadãos, nos EUA, exigem a imediata retirada dos seus soldados, do Iraque.

Ninguém pode duvidar que os interesses dos EUA estariam muito mais eficazmente protegidos por meios diplomáticos, se usassem o poderio económico norte-americano. Ter-se-iam salvo milhares de vidas de soldados norte-americanos, de civis iraquianos e triliões de dólares. Mas George Bush e o seu ego problemático, que esconde um oco, de insegurança, sob o esmalte daquela arrogância barulhenta... preferiu a guerra. Como que para coroar tal proeza cerebrina, já há consenso mundial contra a guerra do Iraque, antes, até, do fim do seu mandato presidencial.

Em 60 anos de existência, o Estado de Israel lutou em seis grandes guerras e em várias guerras ‘menores' (a "Guerra de Atrito", as "Vinhas da Ira", as duas intifadas e outras.)

O confronto de 1948 foi a guerra de "alternativa zero" - se se justificar a intrusão de judeus na Palestina sob o argumento de que não havia outra solução para o problema da existência deles. Mas o segundo round, a guerra de 1956, já foi um exemplo de visão inacreditavelmente curta.

Os franceses, que iniciaram a guerra, estavam em crise de negação: não podiam admitir, para eles mesmos, que estivesse a acontecer na Argélia uma genuína guerra de libertação. Então, os franceses auto-convenceram-se que o líder egípcio Gamal Abdel-Nasser seria a causa de tudo. David Ben-Gurion e o seu grupo (Shimon Peres, especialmente) queria destituir o "Tirano Egípcio" (como se dizia informalmente em Israel), porque Nasser levantara a bandeira da Unidade Árabe, que eles viam como ameaça à existência de Israel. Os britânicos, o parceiro número 3, ansiavam por reviver as passadas glórias do império.

A guerra atrapalhou os planos de todos e não serviu a nenhum dos seus objectivos: a França - e mais de um milhão de colonos franceses - foi expulsa da Argélia; os britânicos foram empurrados para a beira do Médio Oriente; e o ‘perigo' da Unidade Árabe era só um espantalho. Estes erros custaram muito caro: toda uma geração de árabes convenceu-se de que Israel era aliado ‘natural' dos mais imundos regimes colonialistas; e a possibilidade de haver paz foi adiada por muitos anos.

A guerra de 1967 foi iniciada para que Israel rompesse o cerco. Mas no decurso dos combates, a guerra de defesa converteu-se numa guerra de conquista, a vertigem embriagou Israel, embriagamento do qual Israel ainda não se curou. Desde então, Israel vive cativo num ciclo de ocupação, resistência, colonização e guerra eterna.

Um dos resultados directos da guerra de 1973 foi a morte do mito da invencibilidade do exército israelita. Embora não por intenção do governo de Israel, esta guerra teve um resultado positivo: três personalidades raras - Anwar Sadat, Menachem Begin e Jimmy Carter - conseguiram traduzir em termos de um acordo de paz o orgulho dos egípcios pelo Canal de Suez. Mas a mesma paz poderia ter sido obtida, um ano antes, sem guerra e sem milhares de mortos, se Golda Meir, não tivesse rejeitado, arrogantemente, a proposta de Sadat.

A Primeira Guerra do Líbano foi, talvez, a guerra mais perdida e a que mais manifestou a estreiteza de visão de Israel, um coquetel de arrogância, ignorância e absoluta incompetência para entender o adversário. Ariel Sharon pretendia - como me disse, antes da guerra - (a) destruir a OLP; (b) obrigar os refugiados palestinianos a fugir do Líbano para a Jordânia; (c) expulsar os sírios, do Líbano; e (d) converter o Líbano em protectorado israelita. O que obteve foi: (a) Arafat foi para Tunes e depois, como resultado da Primeira Intifada, voltou em triunfo à Palestina; (b) os refugiados palestinianos ficaram no Líbano, apesar do massacre de Sabra e Shatila, planeado para criar pânico e levá-los a fugir; (c) os sírios permaneceram mais vinte anos no Líbano; e (d) os Xiitas, tiranizados e humilhados por Israel, converteram-se numa potência política no Líbano e são hoje os mais encarniçados inimigos que Israel enfrenta.

Quanto menos se fale da Segunda Guerra do Líbano, melhor - o carácter desta guerra estava bem claro, desde o início. Não se pode dizer que Israel fracassou nos objectivos desta guerra, porque nunca houve objectivos claros. Hoje, o Hezbollah está onde estava, mais forte e mais bem armado; e protegido contra ataques israelitas, por uma força internacional.

Depois da Primeira Intifada, Israel reconheceu a Organização de Libertação da Palestina e trouxe Arafat de volta ao país. Depois da Segunda Intifada, o Hamas venceu as eleições na Palestina e, em seguida, assumiu o controle directo de parte do país.

Albert Einstein considerava sintoma de loucura repetir e repetir algum acto ou comportamento que já houvesse fracassado e, a cada repetição, esperar um resultado diferente.

A maioria dos políticos e dos generais encaixa-se nesta fórmula. Eles tentam e tentam, repetem e repetem, tentando alcançar os seus objectivos pela via militar; e, a cada repetição, obtêm o contrário do que esperavam. Os generais israelitas ocupam um lugar de destaque nesta galeria de loucos.

"A guerra é o inferno", como disse um general norte-americano. E jamais deu certo.

Uri Avnery, 26/4/2008, "The Military Option", em Gush Shalom [Grupo da Paz], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1209249140/.

Tradução do blogue do Bourdoukan, adaptado para português de Portugal por Carlos Santos

 
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