Os beatos do capitalismo criar PDF versão para impressão
23-Set-2006

João SemedoNão eram tantos como esperavam, não faltavam cadeiras vazias. Para alguns, nem mesmo o grande negócio do poder, os desvia do seu negócio. Não podem perder tempo, dia sem facturar não é dia de vida.
Mas, ainda assim, eram bastantes. A nata da nota - empresários, gestores, especuladores. Os reis do capital.

Iluminados pelo brilho das suas caras e berrantes gravatas de seda, os todo-poderosos da economia portuguesa ocuparam o Convento do Beato, em Lisboa, para uma bem encenada "missa" de acção de graças pelos sucessos do capitalismo.

O pretexto, sempre o mesmo: os problemas do país. O objectivo, também, o do costume: melhorar a vida dos portugueses. E, como não podia deixar de ser, uma receita nada original: pulverizar o estado, ficar-lhe com a carne e leiloar entre eles os pedaços mais saborosos.

No comando da jornada, um fiel de Cavaco. Melhor, um correligionário. Veio dizer ao país o que aprendeu na campanha do presidente e que este não ousava dizer na campanha. Aliás, não podia, nem queria. Pelo voto, todo o silêncio é de ouro, assim reza a cartilha cavaquista.

Devotos do seu santo padroeiro que conduziram e instalaram no altar de Belém, ocuparam o tempo a diabolizar o estado e a maldizer os trabalhadores e os seus direitos.

Embrulhadas em naftalina, não faltaram soluções. Velhas e caducas, mas vendidas como o último grito: privatize-se a saúde e a educação, entregue-se a segurança social à especulação e capitalização bolsista. Estão com Marques Mendes. É natural, foi a sua gente que esteve no Beato.

Livrem-se dos funcionários públicos, talvez cheguem uns 200 mil deles. E, claro, baixem-se os impostos. Isto é, reduza-se o IRC cobrado ás empresas. Os lucros agradecem.

Imaginam e desejam todo o país à semelhança do que fazem e aceitam nas suas empresas: despedimentos em massa, contratos precários, violação de direitos, salários de miséria, falências fraudulentas, fuga aos impostos.

Mas disto, não falaram os media, apesar do vastíssimo tempo de antena que a comunicação social dedicou à reunião destes beatos do capitalismo.

Desceram ao Beato para nos convencer a generalizar o modelo. Para bem de todos nós.

Pensam que nós somos burros, mesmo muito, muito burros. E que não percebemos o que verdadeiramente os move: por via da economia e da especulação financeira, mandarem no país. Importar-se-á o primeiro-ministro José Sócrates ?

 
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