A necessidade do poder e o fim da menoridade da esquerda criar PDF versão para impressão
05-Mai-2008
Agora que as sacrossantas rédeas livres dadas ao capitalismo especulador (chamar-lhe neo-liberal continua a ser um nome simpático para uma quadrilha sem escrúpulos) se transformaram nas notícias cada vez mais frequentes do descalabro mundial, é tempo de apontar o dedo a todos os que o apoiaram. Mas apontar o dedo não chega. É necessário mas não chega.
Opinião de José Pedro Fernandes (Maia)

Dizer com clareza que os cidadãos têm um inimigo a abater, se querem sobreviver, e que, para minorar as consequências da crise, é necessária uma alternativa, significa não aceitar a solução que o mesmo capitalismo deu às sucessivas crises: miséria e sofrimento generalizados, para redistribuir e manter o capitalismo.

E será, a não ser que a crise, de tão profunda, se transforme em cataclismo, pondo tudo em causa, criando um desastre geral que não conseguimos conceber com clareza, o que não me parece nem provável nem inevitável, será, dizia, no chamado mundo desenvolvido, o momento de apontar uma solução dentro do quadro geral das suas democracias representativas que dê à esquerda um papel de protagonista. Compreendendo que isso significa aceitar a sobrevivência, no imediato, de parte do que entendemos por capitalismo, desde que o poder sem peias da finança mundial seja destruído. E que o imediato é apenas aquilo que aqui tento discutir.

Eis a primeira das questões onde é preciso ser claro, para a esquerda destes países desenvolvidos, sob pena de perdermos tempo (do meu ponto de vista) a discutir novamente, por exemplo, a luta armada, numa qualquer Bolívia virtual, como possibilidade, ou a democracia directa (signifique isso hoje seja lá o que for), ou o Maio 68, voltando 40 anos no tempo. Se apontamos um cataclismo nebuloso e horrível como inevitável e desistimos da questão do poder, enquanto coisa concebível para agora, deixando apenas à esquerda o estatuto religioso de alma pura a contemplar um desastre mundial que a transcende, de "esquerda - coisa política" para usar num futuro que não tem a ver com o presente que conseguimos descrever, então, na prática, deixamos também á direita o terreno livre para enquadrar os cidadãos num projecto que os faça pagar a conta da salvação do capitalismo. E deixamos entregues à sua sorte os países do 3º mundo onde o cataclismo é o dia-a-dia, ou pode bem depressa sê-lo.

O que me leva à segunda das questões em que penso que é necessário ser claro: em Portugal (e provavelmente não só) muito boa gente de esquerda (os que melhor ou pior sabem que não querem o capitalismo) continua a rever-se em forças políticas existentes, não crendo no entanto, em boa verdade, que essas mesmas forças políticas possam algum dia aceder ao poder.

Tornar a esquerda dos países desenvolvidos numa alternativa credível, dar aos partidos políticos que dela se reivindicam responsabilidades  imediatas no caminho para enfrentar a crise, é algo em que é urgente acreditar. Porque a crise é urgente.

O que desemboca na 3ª questão que me parece urgente apontar com clareza: as guerras baratas entre e dentro das "esquerdas", e os políticos que fizeram delas a forma religiosa de terem de si mesmos uma ideia de santidade e posse única da verdade, são o primeiro dos obstáculos a vencer, se se acredita que uma alternativa de esquerda para enfrentar a crise. E não haverá um programa concreto de acção para a esquerda, que mobilize os cidadãos, se não for claro que ele não existe ainda, que tem de ser construído apesar das diferenças, e que a crise mundial não esperará por nós, se não o conseguirmos.

O capitalismo especulador faliu (novamente). Cabe à esquerda fazer o necessário para que não seja o mundo inteiro a pagar as contas (em miséria e mortes) da sua sobrevivência. No imediato e não num futuro distante. Porque esse futuro não é urgente, se não olharmos para a urgência do presente.

José Pedro Fernandes (Maia)

 
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