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05-Mai-2008
Cartaz do Maio de 68: fábricas ocupadasUns dirão que a revolução desertou. E que tomar o poder é mais fácil do que se pensava. Outros dirão que não: tudo é possível. Mas difícil: é preciso um terramoto na história, nas fibras mais profundas da sociedade, para que se abra uma escolha.
Por Francisco Louçã
Artigo publicado originalmente na revista Vida Mundial de Maio de 1998

            1. Retratos. E uma tese: Maio 68 foi o feito de uma geração.

Quando o vintenário se preparava, Daniel Cohn-Bendit percorreu as quatro partidas do universo para encontrar os protagonistas dos anos de brasa e fez deles uma série de retratos nostálgicos, "Nous l'Avons Tant Aimée, la Révolution". Faltou o seu: do filho de judeus fugidos de Hitler, do estudante francês e cidadão alemão para escapar à tropa, que tinha incendiado o movimento parisiense e gravado alguns dos ícones de uma época que inventava a aldeia global, do político desiludido e governista de hoje. Fala então de si pela voz dos outros: um bando de cinquentões cínicos, hipocondríacos e aborrecidos da sua meia-idade, mas alguns outros ainda vivendo a energia das suas revoltas. Foi essa geração que deu ao Maio 68 a intensidade luminosa, a comunicação internacional, as pinturas de guerra num mundo triste.

Abbie Hoffman e Jerry Rubin, os dois inseparáveis mentores do movimento yippie norte-americano. Abbie está num pequeno apartamento de Nova Iorque, cheio de livros, onde sedia uma campanha de solidariedade com a Nicarágua. Esteve preso por consumo de drogas, foi clandestino para fugir à polícia, voltou. Não se arrepende de nada: com o seu ar simples, diz que Woodstock foi tão importante para o século como Stravinsky, e tem razão. Jerry, o seu comparsa tornado inimigo, é o homem de sucesso: organiza agora reuniões mundanas para empresários, inventou os yuppies, sabe tudo sobre os medicamentos que lhe prolongarão a vida. Naturalmente, apoia a posição de Reagan sobre a Nicarágua.

Bobby Seale, um dos Panteras Negras, defendeu o recurso às armas, esteve também preso, quer escrever agora um livro de receitas de barbecue. Mas o lucro vai para uma fundação de apoio aos movimentos sociais de base. Serge July, um dos fundadores da Gauche Proletarienne francesa, defensor da estratégia de guerra civil nos idos de Maio, é agora o director do pacato Libération. Joschka Fischer, preso nas manifestação de protesto pelo assassinato de Ulrike Meinhof, uma das dirigentes da Fracção do Exército Vermelho, é agora um dos chefes dos "realistas" nos Verdes alemães - quer partilhar o poder e dá o exemplo, como ministro provincial em Hesse, num governo com os homens que o mandaram prender. Se viajassemos no tempo e um pouco mais para o Sul, encontraríamos os dirigentes estudantis Mariano Gago e Ferro Rodrigues num governo com o ministro da ditadura que combatiam, Veiga Simão.

Foi uma geração que gerou o movimento. E que se bifurcou depois, perdida entre os arautos da pós-modernidade, os compromissos do Estado e as carreiras. Gluksmann, Gauche Proletarienne, invadia as salas de aulas de marxistas de outras obediências, à frente de dezenas de jovens armados do Livro Vermelho e vestidos à guardas pequineses, para exigir conversões instantâneas e juras de fidelidade ao pensamento maoista. Acabou "novo filósofo", a visitar Pinochet no auge da ditadura e a perorar sobre não se sabe bem o quê. Claro que, na nossa dimensão tupiniquim, tudo é mais modesto: João Carlos Espada e Henrique Monteiro limitam-se à sincera conversão às virtudes do catolicismo profundo para sustentar Deus, Pátria e a Família, pilares do mundo.

Outros, Tariq Ali, o homem que enfrentou Marcelo Caetano na visita a Londres, Alain Krivine, o chefe da oposição da UEC francesa, Rossana Rossanda, expulsa do PCI logo depois, em Junho de 1969, continuam a erguer as suas bandeiras.

2. Antecedentes. E segunda tese: foi um movimento planetário.

Há sempre um tempo do falcão e um tempo da coruja, dizia Oliveira Martins. Pois Maio de 68 foi sendo semeado por anos cinzentos, em que a coruja só aparecia de noite. Mas marcou caminhos. A guerra da Argélia dinamitou o gaullismo e a sua política tradicional: foi ao lado dos porteurs de valises, os apoiantes das redes clandestinas da FLN em França, que as minorias da UEC e alguns discípulos de Althusser se organizaram, para depois romperem com o PCF em 1965: daí nasceram as organizações trotsquistas e maoistas, grupos de centenas que depois levantaram as barricadas de centenas de milhares.

Mas a guerra do Vietnam foi provavelmente a referência mais marcante: provava que o Che tinha razão, que David vencia Golias, que a tecnocracia destrutiva nada podia, que o imperialismo tinha os dias contados. E decidia as formas do enfrentamento. A morte de Guevara, as barricadas da Rue Gay-Lussac, a sublevação do Quartier Latin, o incêndio da Bolsa de Paris, o ataque à Convenção Democrata em Chicago, a fuga de De Gaulle para junto do exército francês na Alemanha, o atentado contra Dutschke, o assassinato de Bobby Kenedy, de Malcom X, de Martin Luther King, o mundo ardia. Movia-se uma nova constelação: Joan Baez, Bob Dylan, os rapazes de Liverpool já se tinham calado. We want the world and we want it now, cantava o profeta Jim Morrison.

Era ouvido. No Japão, onde os estudantes marchavam armados como samurais. No México, onde os estudantes foram massacrados nas praças da capital, para que esses Jogos Olímpicos de 1968 fossem um postal turístico. Na arena dos Jogos, onde os vencedores dos 200 metros, John Carlos e Tommy Smith, levantaram o punho com a luva dos Panteras Negras em resposta ao hino americano. Em Itália, a réplica sísmica de Maio. Em Portugal, no Técnico, em Económicas, em Medicina, uns anos depois os SUV, as ocupações, a esperança.

We want the world and we want it now.

3. Objectivos. E uma terceira tese: foi um movimento contra a modernização conservadora

Os coveiros têm uma genealogia, ou mesmo uma dinastia: Alexis Tocqueville, Raymond Aron, Gilles Lipovetsky. A revolução é um carnaval perverso, a ordem não pode ser perturbada, dizem. Por isso, a haver mudança, será ela própria parte do que quer mudar: não era esse o argumento do Gatopardo, de Lampedusa e Visconti?

Lipovetsky, o mais blasé, classifica Maio como uma etapa na espiral do individualismo contemporâneo: assim como os revolucionários passaram da barricada da rua para os salões do poder, assim a sua geração teria passado de yippie para yuppie. Mas aqui a interpretação é uma guerra contra o acontecimento: pois Maio 68 foi um movimento profundo, alimentado pela raiva contra a sociedade conservadora e a sua modernização dilacerante.

Para os estudantes, foi a leitura de Marcuse e a descoberta da alienação, a recuperação de um Marx antigo fugido do Gulag e que desmontava o fetichismo, a descoberta de um MacLuhan, hoje lido como um futurista lúcido e plácido, então como um arauto contra o poder dos média. Foi o caldo de cultura pop, yippie, libertário, Trotsky, Kropotkine, Che e Mao e Ho Chi Min, que alimentou a insurreição contra o desencantamento do mundo, tecnocrático na paz e na guerra, violento nos B52 e nos gendarmes. Era, nisso, um protesto romântico, mas era também algo mais: era uma guerra libertária contra o autoritarismo, a ruptura com as normas sociais, sexuais, políticas - e com as suas instituições, a universidade, a fábrica, a caserna, o hospício, o parlamento. Libertados todos os fantasmas, o poder teve medo. Em Dezembro de 1968, quando a ordem voltava a Paris, De Gaulle exortou os seus compatriotas: "Deitemos por terra os diabos que nos atormentaram durante o ano que se conclui". Como tinha razão.

Mas para os trabalhadores foi muito mais, e muito mais decisivo: foi a maior mobilização operária da história da França. Três milhões de grevistas em 1936, um pouco menos em 1947. Nove a dez milhões em 1968, pelo menos dois milhões mantiveram-se em greve durante um mês a fio, a imensa maioria da classe operária. Nunca os trabalhadores tinham tido tanta força, nunca tinham ousado tanto. E, ao contrário das grandes greves anteriores, estas não reverteram depois para os partidos e sindicatos tradicionais: pela primeira vez, deram corpo a oposições sindicais, a novos partidos disputando o terreno das velhas formações, marcando novos protagonismos.

A modificação duradoura das relações de força dentro da esquerda à mais importante imposição política de Maio, com o início do declínio dos partidos comunistas, a transformação dos partidos socialistas em grandes forças eleitorais e gestionárias do poder, mas heterogéneas e oscilantes, com a implantação de grandes correntes de extrema-esquerda, algumas entretanto desaparecidas, outras renascidas. Seria para mais tarde a discussão da recomposição necessária desta paisagem.

4. Querer é poder. E uma quarta tese: tudo é possível.

No filme de Saura, "Caminhos do Sul", Yves Montand é um resistente comunista espanhol, um dos homens vencidos por Franco e que continua a percorrer os caminhos da clandestinidade, apesar de tudo. Apesar de ter perdido as certezas, mantém as ilusões, diz.

Os herdeiros de Maio foram por muitos caminhos, eles também. Ao contrário do seu personagem, Montand enterrou suas ilusões e voltou às certezas mais certas, que calharam ser as do liberalismo xiita. E assim como ele muitos outros, dando razão aos interpretadores que antecipavam o ascenso imparável desse individualismo narcísico. Imparável? Mário Conde em Espanha, nós ficamo-nos por Pedro Caldeira em Portugal, ou por Emído Rangel no planeta televisão, certamente muitos outros: e depois? Do outro lado, ficaram os que nunca tiveram muitas ilusões, mas que mantêm convicções - e esse é o movimento prometaico da modernidade iluminista, contra o narcisismo pós-moderno.

Uns dirão que a revolução desertou. E que tomar o poder é mais fácil do que se pensava: nada será como dantes, dirá sempre o candidato depois das eleições. E tudo ficará como dantes. Outros dirão que não: tudo é possível, dizia um porta-voz comunista em 1936. Mas difícil: é preciso um terramoto na história, nas fibras mais profundas da sociedade, para que se abra uma escolha. Escrevia Blanqui, o da Comuna de Paris, na "Eternidade pelos Astros": "Só o capítulo das bifurcações está aberto à esperança". O capítulo das interpretações tudo permite, o das bifurcações tudo exige. Cem anos depois, Maio deu-lhe razão.

Leia mais sobre o Maio de 68:

As Heranças de Maio

A arte nas ruas: cartazes do Maio de 68

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