Uma interpretação à Cavaco criar PDF versão para impressão
08-Mai-2008
bruno_maia.jpgAfirmava o Público na capa (e em letras bem gordas) "Relações homossexuais são erradas para a maioria". (...) "Na escala apresentada aos inquiridos eram-lhes dadas várias opções: se achavam as relações entre pessoas do mesmo sexo totalmente erradas, a maior parte das vezes erradas, algumas vezes erradas ou raramente erradas". Portanto, as opções espelham toda a diversidade possível: é errado! E já está, não há outra escolha, não há outra forma de olhar para a homossexualidade.

A polémica em torno da capa do Público de sábado e das reacções que se sucederam, são um belo exemplo do que significa desfigurar, contornar ou deturpar a informação. Não pretendo neste artigo tecer qualquer crítica ao estudo do Instituto de Ciências Sociais, ao qual não tive acesso. Pelo contrário, interessa-me pensar sobre a reportagem que este diário fez. Proponho que façamos um exercício curioso: olhar para a reportagem do Público passo a passo, para percebermos o que nela está contido.

Afirmava o Público na capa (e em letras bem gordas) "Relações homossexuais são erradas para a maioria". Depois prosseguia dizendo "70 por cento dos portugueses consideram erradas as relações sexuais entre dois adultos do mesmo sexo". Mas entretanto o jornalista elucida-nos sobre a quantificação do errado "Na escala apresentada aos inquiridos eram-lhes dadas várias opções: se achavam as relações entre pessoas do mesmo sexo totalmente erradas, a maior parte das vezes erradas, algumas vezes erradas ou raramente erradas". Portanto, as opções espelham toda a diversidade possível: é errado! E já está, não há outra escolha, não há outra forma de olhar para a homossexualidade. Entre o totalmente e o raramente, todas as portas estão abertas. Desde que seja sempre errado.

Depois a reportagem continua, falando de práticas e identidades ""este conservadorismo" em relação à homossexualidade pode ter reflexos nos portugueses que se colocam nessa categoria: só 0,7 por cento" Curiosa conclusão. O jornalista do Público não percebe porque tão poucas pessoas se assumem como homossexuais, mas esquece-se de questionar por que razão só 87% se assumem como heterossexuais... 87 + 0,7 não são 100%. Mas esta análise não interessa ao Público, desde que seja errado...

(...) São cinco por cento os que dizem ter tido contactos com pessoas do mesmo sexo sem envolver a área genital (beijos, toques, abraços) e 3,2 por cento os que dizem ter tido relações sexuais com alguém do mesmo sexo". As práticas e as identidades, provavelmente o único dado interessante que é avançado nesta notícia: assumir uma identidade homossexual ou bissexual não implica apenas uma prática consonante, implica uma posição de combate face à normalização da vida e uma postura de negação dela mesma. Mas mesmo aqui, o jornalista não tem em consideração uma realidade importante: os números revelam aqueles que se assumem no inquérito e não aqueles que o são na realidade.

Terça-feira decorreu a apresentação oficial dos resultados deste estudo. Nenhum jornalista na sala! Todo o interesse em ter uma manchete sensacionalista e nenhum em aprofundar os resultados. Tudo isto me faz lembrar o estudo que Cavaco Silva encomendou à Universidade Católica: inquirir jovens sobre o 1º Presidente da República a seguir ao 25 de Abril, para concluir que estes não se interessam pela Política - nenhum grupo controlo, nenhuma comparação sobre as mesmas respostas que daria o resto da população, nenhuma validade científica.

Como se faz política em Portugal: estudos fantoche e reportagens sensacionalistas. E a realidade social fica para aqueles que a querem perceber e transformar. Só lamentamos que do sensacionalismo e da fantochada, os nossos governantes e uma parte dos nossos jornalistas façam a verdade com que constroem a vida.

Bruno Maia

 
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