Em marcha contra a hipocrisia criar PDF versão para impressão
08-Mai-2008
Luís BrancoOs movimentos em defesa da canábis querem mais do que poder fumar o seu charro em paz, sem a ameaça da polícia nem a curiosidade kafkiana da burocracia do Estado, que alimenta as "comissões de dissuasão" com o dinheiro dos impostos de todos. Querem ver um país em que não sejam os traficantes a ditar a lei, querem um Estado que respeite os cidadãos, e os trate como adultos.

 

Mais de duas mil pessoas participaram no passado sábado em Portugal na Marcha Global pela Marijuana. Foi um contributo modesto, se for visto no conjunto das 239 cidades que acolheram estas marchas em todo o planeta. Visto à nossa escala, não há dúvidas de que se tratou duma mobilização excepcional, que vem crescendo de ano para ano e que juntou agora Coimbra às duas cidades que no ano passado promoveram esta Marcha.

O que explica este aumento da indignação com o proibicionismo sobre a canábis em todo o mundo? Olhando para os estudos de incidência do consumo em Portugal, vemos que os charros continuam a ser fumados em larga escala, sem comparação com o uso de outras substâncias ilegalizadas, como o ecstasy, os speeds ou a cocaína. Mas vemos também que a popularidade da "ganza" está em queda entre os mais jovens, que cada vez menos a escolhem para experimentar pela primeira vez o "fruto proibido" nas escolas.

A resposta é simples: os jovens não toleram a hipocrisia, e a hipocrisia do poder face à canábis é das mais gritantes. Trata-se uma planta que nos últimos cinco milénios foi utilizada para quase tudo, desde medicamentos a produtos alimentares mais saudáveis, às cordas e velas que levaram as caravelas a cruzar os oceanos, dos mais variados produtos têxteis, em que apresenta vantagens sobre o algodão, até às fibras que tornam o cânhamo uma alternativa mais eficaz e menos poluente ao plástico. 

Numa altura em que o planeta se debate com uma crise ecológica sem precedentes, é incompreensível que seja o preconceito a dominar a política, que vira as costas ao estudo das propriedades e à utilização desta planta, indiferente às vantagens conhecidas e que foram aproveitadas por gerações e gerações, em todos os locais onde a canábis cresceu até o proibicionismo ter imposto a sua lei, no início do século passado.

Os movimentos em defesa da canábis querem mais do que poder fumar o seu charro em paz, sem a ameaça da polícia nem a curiosidade kafkiana da burocracia do Estado, que alimenta as "comissões de dissuasão" com o dinheiro dos impostos de todos. Querem ver um país em que não sejam os traficantes a ditar a lei, querem um Estado que respeite os cidadãos, e os trate como adultos.

Luís Branco

 
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