O PCP odeia o Maio de 68 criar PDF versão para impressão
10-Mai-2008
João Teixeira LopesNo último Avante!, um indivíduo que se assina Henrique Custódio, despeja um vómito de ódio a ferver a propósito das comemorações do Bloco de Esquerda sobre o Maio de 68. Vale a pena registar: o autor apelida de «patuscada» o programa apresentado e tenta ironizar várias vezes com os slogans em francês que constam dos materiais de divulgação, chegando ao desplante de comparar a sessão no ISCTE a uma excursão organizada pelo fascismo.

Cito: "Quem quiser vir passear a Lisboa no próximo Sábado por um conto de réis ida-e-volta escreva ou telefone ao Bloco de Esquerda e combine a coisa. Já faz lembrar aqueles que vinham ver e ouvir o «Baltazar» ao vivo - isto por mal acomparado e sem ofensa. É claro que só podem ouvir o Louçã, mas não tem importância: os excursionistas que vinham aos Maios promovidos pelo salazarismo também nunca souberam quem era o tal «Baltazar» que lhes pagava a viagem". Custódio é manifestamente ignorante quando se espanta com a banda Moi non Plus que, segundo o pobre imbecil, "produz frases misteriosas como «Debaixo do alcatrão, a praia»" (Ó Custódio, Sous les Pavés, la Plage, é um slogan do Maio que odeias e, já agora, toma lá com o francês!) Podia continuar. O artigo é um esgoto do princípio ao fim. Mas muito ilustrativo.

Em primeiro lugar, o aqui e agora: o Bloco conquista, nas sondagens e nas iniciativas de rua, simpatias crescentes. Marca a agenda política e alcança maior repercussão mediática porque comunica melhor.

Em segundo lugar, os comunistas-estalinistas encaram o Bloco como um inimigo a abater e as retóricas de convergência e unidade que uma vez ou outra Jerónimo de Sousa se lembra de evocar são, decerto, eufemismos ou alegorias do Gulag para onde gostariam de nos mandar.

Em terceiro lugar, o que anteriormente referi mostra um partido-castelo, cada vez mais preocupado em resistir e só resistir.

Mas, o que mais me interessa neste Maio, Maduro Maio, é o ódio que artigos como aquele propagam ao universo simbólico do Maio de 68.

Maio, em França: estudantes e mais tarde operários resistem às ordens do PC francês para destruir e depois contornar o movimento de rebeldia. Com os argumentos de hoje, insinuavam os estalinistas que estudantes eram desordeiros. Na verdade, tremiam de medo perante as insólitas alianças forjadas com os operários sem que ninguém lhes pedisse autorização! Ontem, como em 2008, julgam-se os latifundiários da luta. Por isso, as pedradas dos estudantes também quebravam os seus telhados de vidro com estrondo e insolência.

João Teixeira Lopes

 
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