Os supedelegados e o radicalismo de 68 criar PDF versão para impressão
15-Mai-2008
Rui BorgesNos últimos dias da campanha eleitoral americana as atenções concentraram-se na contagem dos "superdelegados", os delegados não eleitos que terão provavelmente a última palavra na escolha do candidato. As origens desta figura tão pouco democrática remontam aos tempos da enorme vaga de contestação que em 1968 varreu os Estados Unidos.

Em 1968 disputava-se a eleição presidencial. Lindon Johnson, o presidente democrata, era o arquitecto da escalada militar no Vietname. Quando chegou à presidência em 1963 havia cerca de 18 mil soldados americanos no Vietname. Em 1967 o número tinha subido para 470 mil, acompanhado da maior campanha de bombardeamento aéreo até à data. O movimento antiguerra começava a encontrar eco na sociedade americana e Johnson tornou-se tão impopular que desistiu de se recandidatar. Havia no Partido Democrático uma profunda divisão entre aqueles que queriam continuar a guerra a qualquer custo e os que queriam a retirada imediata das tropas.

A convenção que finalmente escolheria o candidato democrático teve lugar em Chicago em Agosto de 68. Na rua jovens em protesto contra a guerra eram brutalmente atacados pela polícia. Dentro da convenção delegados e jornalistas incómodos eram removidos do auditório pela polícia de Chicago. Eugene McCarthy era o candidato mais popular defendendo a retirada imediata das tropas do Vietname. Contudo, o facto de em muitos estados não haver primárias e os delegados serem escolhidos pelos líderes do partido levou a que o escolhido fosse Hubert Humphrey, o vice-presidente de Lindon Johnson e adepto da guerra. A violência e falta de democracia que rodeou a convenção levaram a um enorme descrédito do partido junto da sua base de apoio, cada vez mais polarizada por um poderosos movimentos contra a guerra e contra o racismo. Como resposta o Partido Democrático nomeou uma comissão para reorganizar o processo de escolha do candidato presidencial. O resultado foi a generalização das primárias a todos os estados e a eleição de delegados apenas pelo voto popular.

Mas a solução provou ser demasiado democrática para os lideres democratas. Em 1972 George McGovern foi nomeado candidato à presidência pelas novas regras de seleção. McGovern pretendia retirar imediatamente do Vietname e o resultado é que muitos dirigentes do seu próprio partido apoiaram o republicano Nixon. McGovern perdeu as eleições. Depois em 1980 a nomeação (e a presidência) foi ganha por Jimmy Carter, um outsider do aparelho democrático e que também contava com poucos apoios entre os dirigentes.

Em 1984, os dirigentes recuperam algum do poder perdido introduzindo a figura dos superdelegados. São dirigentes do Partido Democrático (senadores, deputados, governadores de estados, funcionários partidários e sindicais) que têm lugar por inerência na convenção democrática sendo 20% do total de delegados. São os homens do aparelho, que têm como função impedir a emergência de qualquer candidato que ponha em causa o status quo e perpetuar os seus próprios privilégios. A recente corrida em direcção a Barack Obama é disso um bom exemplo. Face a dois candidatos com políticas quase idênticas os superdelegados limitam-se a seguir o seu instinto e apoiar aquele que tem mais hipóteses de os levar de novo ao poder.

Rui Borges

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2020 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.